Como adquirir o hábito de leitura e otimizar os estudos? Dicas de apps para otimizar as suas leituras

Publicado em 11/06/2021 por Luzia Kikuchi

Verdade seja dita: para ler, é preciso estar com a mente “quieta”. Pelo menos, eu acredito nisso. É muito difícil ter concentração em uma leitura, se o seu cérebro está cheio de preocupações ou “acelerado” pensando em outras novidades e informações que surgem a todo momento, tanto pelas redes sociais quanto pelos buscadores da internet.

Outro ponto crucial é que, nem todo mundo consegue ler em qualquer ambiente. Por exemplo, vejo muitas pessoas lendo no ônibus ou no metrô, o que acredito ser uma excelente forma de otimizar o tempo, mas eu não consigo fazer isso. O motivo: ter uma condição de saúde chamada “mal de movimento” ou motion sickness.

Basicamente, é ter náuseas ao tentar fazer atividades que conflitam com seus sentidos sensoriais. Por exemplo, ao tentar olhar fixamente para as letras de um livro enquanto o corpo balança, o cérebro entra em “conflito” acionando uma região do sistema nervoso para vomitar.

Explicando de uma forma bem leiga, é como se o cérebro entendesse que algo errado está acontecendo com o seu corpo. Normalmente, isso é causado por um envenenamento ou intoxicação alimentar. Então, o cérebro envia um comando para “expulsar” esse agente nocivo, causando a náusea e, posteriormente, o vômito. A única diferença é que o cérebro não entende que o mal estar pode ser causado por outros fatores e não pelo alimento que você consumiu. Então, o motion sickness é o cérebro reagindo de forma “errada” sobre a sua condição de saúde.

O meu motion sickness é tão severo que sinto náuseas até mesmo quando fico olhando navegações dinâmicas em 3D na tela de um computador (como um Google Street View). Por esse motivo, jogos em 3D também nunca foram os meus preferidos, pois passo mal em alguns minutos. Talvez, com a realidade virtual isso mude para mim…

Mas, felizmente, com o avanço da tecnologia, surgiram outras opções de leitura como os livros digitais ou e-books e também os audiobooks que te oferecem formas mais flexíveis de manter a leitura em dia, inclusive, a última é particularmente útil para quem dirige muitas horas (desde que você não seja um(a) motorista iniciante).

No meu caso, o e-book foi uma das melhores formas de contornar o motion sickness, pois o maior problema estava no esforço de manter os olhos fixos em fontes muito pequenas enquanto o meu corpo balançava com o movimento do veículo de transporte.

Com a possibilidade de instalar aplicativos no celular como o Kindle ou mesmo o Google Livros, tive maior flexibilidade para ajustar o tamanho da fonte e o contraste das letras, facilitando a leitura sem muito esforço visual. Só com esses ajustes, consegui melhorar muito a minha capacidade de leitura dentro do transporte público.

Agora, se você tem muitos livros para ler, seja para os estudos seja por lazer, e quer ter uma estimativa de quanto tempo vai levar para fazer uma leitura, existe um ótimo aplicativo para chamado “cabeceira”.

O aplicativo “cabeceira” permite registrar os livros que está lendo ou pretende ler (inclusive acessa os títulos no banco de dados do Goodreads, que é um dos maiores sites de catalogação de livros) e também calcula o seu ritmo de leitura. Para isso, basta escolher o título que começará a ler, definir a data alvo para terminar de lê-lo, e acionar um cronômetro ao iniciar a leitura. Depois, o aplicativo informa, de acordo com o seu ritmo de leitura, quanto tempo será necessário se dedicar todos os dias para conseguir alcançar a sua meta.

Para saber como o aplicativo funciona, veja no vídeo o passo a passo:

O leitor da Amazon: Kindle e suas vantangens

Confesso que eu sempre fui muito resistente a ler e-books. Gosto de sentir o cheiro do papel do livro, a textura das páginas e tê-los guardados na minha estante. No entanto, com o tempo, percebi que ter um leitor onde é possível carregar milhares de livros de uma forma leve e prática acabou me convencendo de comprar o dispositivo Kindle. Hoje, tento sempre comprar livros na versão do Kindle e opto pelo livro físico apenas quando não tenho mesmo a opção no digital.

E para quem tem o Kindle ou usa o aplicativo dele no celular, também é possível ter uma estimativa do tempo de leitura, que é medido conforme o tempo que fica em cada página. A grande vantagem do dispositivo Kindle é a durabilidade da bateria, que só em modo de espera dura semanas, e de não perder o foco com notificações, como aconteceria no tablet ou no celular.

Outra vantagem do Kindle é o conforto visual, mesmo em ambientes muito iluminados, pois não causa reflexo. Por isso, ele é muito mais confortável para ler no sol, até mesmo quando comparado a livros físicos cujas páginas são brancas.

Na época em que eu comprei, em 2016, a Amazon havia lançado uma versão de entrada (8ª geração) que não possuía luz de fundo, o que deixava o preço bem acessível (cerca de R$ 199 que poderia ser pago em até 12 vezes sem juros). A desvantagem é que não é possível lê-lo em lugares sem luz.

Minha biblioteca do Kindle.

Hoje, essa versão não existe mais e todos já vêm com luz de fundo, com um preço a partir de R$ 349. Existe uma versão mais sofisticada como a Oasis, mas com um preço mais salgado (em torno de R$ 1.299), que não é muito diferente da intermediária chamada Paperwhite que custa na faixa de R$ 499.

Segundo as especificações da Amazon, a vantagem da Oasis em relação à Paperwhite é um controle mais fino da temperatura da luz da tela (deixar mais branca ou amarela) e também do seu sensor de luz, que se ajusta conforme o ambiente que está. Mas, honestamente, não entendi por que isso gera tanta diferença de preço…

Como adquirir o hábito de leitura?

O hábito de ler, mesmo quando não se tem obrigação para tal, é algo que se desenvolve com o tempo. Encontrar um assunto de seu interesse é o primeiro passo para começar a adquirir esse hábito, mesmo que demore um pouco.

No meu caso, a minha paixão por livros começou por volta dos 4 ou 5 anos de idade. Meu pai, todo mês, trazia um livro novo de conto de fadas de uma coleção chamada “Conto ilustrado” da Editora Scipione. Este foi o primeiro livro que adquiri:

Eu lia tanto esse livro que, na falta de novidade até o próximo mês, comecei a procurar palavras que nunca tinha ouvido falar no dicionário. Uma das palavras que aprendi foi “presunçosa” (que não tinha nada a ver com “presunto”…)

Caso não conheça o significado, segue a definição do dicionário Michaelis:

pre·sun·ço·so adj sm

1 Que ou aquele que se julga melhor, mais inteligente, mais competente, mais bonito etc. que as outras pessoas; presumido, presuntuoso, pretensioso, suficiente. 2 Que ou aquele que tem apenas conhecimentos superficiais sobre algo, porém revela-se pedante; presumido, saberente, saberete.

Fonte: Dicionário Michaelis Online.

Mas, confesso que, em algum momento da minha vida, acabei perdendo esse hábito de ler por prazer. O motivo foram os mais diversos: falta de acesso aos livros com assuntos que eu achava interessante ou falta de dinheiro para comprar os títulos que eu queria. Por outro lado, adorava ler os gibis da Turma da Mônica, mas, como a leitura era muito rápida, não conseguia comprar com tanta frequência a ponto de sempre ter um volume novo em casa.

Acredito também que perdi o hábito de leitura por prazer quando comecei a ter uma série de paradidáticos durante a fase escolar. Havia um ou outro título interessante, como a coleção “Salve-se quem puder”, que deixava por conta do leitor a escolha do fluxo da narrativa da história. Para isso, em uma determinada página, o autor dava duas opções: “se você quer fazer isso, vá para a página x.” ou “se você prefere outro, vá para a página y.”. Eu achava isso o máximo!

Encontrei na amazon vendendo ainda.

Título: A maldição do ídolo perdido
Autor: Gaby Waters e Graham Round
Editora: Scipione
Crédito da imagem: amazon.com.br

E, entre os títulos paradidáticos, que precisei ler para a escola, um dos quais me lembro de ter sido a minha pior experiência de leitura na época foi o “Quem manda em mim sou eu” da Fanny Abramovich. Nada contra a escritora, mas não me identifiquei com a personagem, ainda que fosse uma adolescente como eu na época. Achei a personalidade da personagem muito estereotipada, no pior sentido da palavra. E isso me fez sentir como se tivesse “perdido” tempo com a leitura rs (Sim, eu era uma menina um tanto “excêntrica”…).

Porém, foi um pouco antes da época do vestibular que tive a oportunidade de ler os livros da saga do Harry Potter da J.K. Rowling e foi aí que voltei a me apaixonar novamente pela leitura. Embora tenha parado novamente por conta do vestibular, aquele sentimento de querer encontrar algo bom para ler acabou permanecendo em mim. O que, posteriormente, me fez voltar a ler com uma certa frequência.

É verdade que, principalmente, durante o mestrado ou doutorado concentrei as minhas leituras em livros mais técnicos. Mas, eles acabavam também virando uma fonte interessante de lazer. Portanto, a melhor dica para criar o hábito de leitura é experimentar novos títulos. Se achar que não está gostando de um livro e que está muito difícil de acompanhar, pare. Deixe um pouco de lado e volte outra hora ou encontre um novo título. Nesse quesito, o Kindle ou mesmo o Google Livros é ótimo para ter uma noção antes de comprar um livro, pois você pode baixar uma amostra gratuitamente.

Além disso, o fato de não gostar de uma obra pode ser por problema de tradução, quando for o caso. Por isso, sempre que possível, tente optar pelas traduções feitas pela Companhia das Letras ou da Record, que fazem um excelente trabalho de adaptação contextual da linguagem. Então, para os livros clássicos, cujas palavras rebuscadas podem atrapalhar bastante o fluxo de leitura, opte por boas traduções. Isso mudará bastante a sua experiência de leitura.

Tem outra dica interessante sobre otimizar a leitura? Deixe aqui nos comentários!

Como aprender ideias abstratas com mais facilidade?

Publicado em 28/05/2021 por Luzia Kikuchi

“Isso é muito abstrato para a minha cabeça”.

Todo mundo já deve ter dito essa afirmação anterior, alguma vez na vida. As situações que podem levar a tais afirmações podem variar de acordo com a familiaridade e o contexto de cada um.

Por exemplo, uma pessoa que não está acostumada a apreciar obras de arte, pode se sentir particularmente “desconfortável” em não compreender a expressão e a importância de certas expressões de arte, por não representar necessariamente algo que vemos no nosso cotidiano.

Veja essas obras de dois tipos de movimento artístico diferentes. Qual você prefere?

Wassily Kandinsky
Diego Velázquez

De forma similar, muitos consideram também que a Matemática é um tipo de ciência muito abstrata, principalmente, quando se trabalha com teoremas que partem de axiomas, esta última que não é passível de ser provada baseando-se no real. Basicamente, os axiomas são definições intuitivas assumidas como uma verdade (como o caso de não poder dividir por zero, por exemplo).

Por conta dessa característica da Matemática, que é considerada uma ciência formal e não experimental, é plausível pensarmos que, nem sempre, é possível exemplificar suas ideias no real ou no concreto. Então por que será que ainda existe uma corrente na área de Educação, especialmente, entre os professores dos anos iniciais do ensino básico, defendendo o uso de materiais concretos (tais como ábaco, material dourado e sólidos geométricos) para o ensino de matemática? Mas, por outro lado, professores desse mesmo ciclo de ensino também insistem em continuar ensinando algoritmos da soma, subtração e divisão sendo que eles poderiam ser melhor compreendidos de forma intuitiva?

Essa pergunta “martelou” em minha cabeça por muitos anos, desde quando comecei a atuar no ensino básico. E, finalmente, em 2013, resolvi escrever um trabalho a ser apresentado em um evento que reunia estudantes e pesquisadores na área de Ensino de Matemática, na cidade de Quilmes, na Argentina, com o título “Desconcretizar para concretizar o ensino de Matemática”. Nesse trabalho, problematizei sobre o excesso de valorização da representação do real (ou concreto) no ensino de matemática e as consequências negativas que elas podem acarretar para o próprio aprendizado dessa disciplina no futuro.

E, o estudo em que me apoiei para escrever sobre essa temática é o de Kaminski, Sloutsky e Heckler (2008) publicado na Revista Science, que trouxe exemplos comparativos entre os estudantes que aprendem com uma linguagem simbólica genérica e outros que aprendem com representações baseadas no real. O resultado mostrou que o primeiro grupo (que utilizou representações genéricas) foi capaz de compreender e aplicar em situações-problema mais amplas do que o segundo grupo, que se baseou em representações concretas.

Então por que muitos educadores continuam ainda com essa falácia de que é necessário basear-se no concreto para aprender ideias abstratas?

Na verdade, essa ideia não é totalmente errada, mas talvez mal interpretada.

O psicólogo Daniel Willingham, que há 20 anos estuda sobre a aplicação dos estudos sobre cognição para o ensino, explica que existem muitas situações na sala de aula que não podem ser diretamente explicadas pela ciência. Por isso, a experiência do professor também é um fator importante para o sucesso da aprendizagem. Contudo, ele também pondera que os professores também não podem continuar “perdendo tempo” com algumas falácias sobre o aprendizado que já se mostraram pouco eficazes. Um exemplo disso são os estilos de aprendizagem, que já escrevi a respeito em um post anterior.

Mas, uma coisa que Willingham aponta em seu livro “Por que os alunos não gostam da escola?”, sobretudo no capítulo 1, é que a nossa capacidade de raciocinar está diretamente ligado ao nosso conhecimento prévio. Ou seja, quanto mais exemplos e situações nos depararmos durante a vida, mais natural se torna a transposição de ideias abstratas para outros contextos. Isso se explica pelo fato de que o nosso cérebro é muito “preguiçoso” e tem dificuldade para pensar em muitas coisas novas.

Já no vídeo, dei mais exemplos de como um exemplo concreto poderia funcionar para ensinar alguns conceitos matemáticos (ele estará disponível a partir das 21h).

E quanto ao ensino de algoritmos na matemática?

Eu costumo dizer que, quem ensina apenas algoritmos, não está ensinando a fazer Matemática. Me arrisco a dizer que quem só sabe aplicar algoritmos, não aprendeu Matemática de verdade. Mas, é claro que, essa minha última afirmação não é nada científica e baseada em achados da minha experiência. E isso não é suficiente, do ponto de vista da ciência, para acreditar que essa hipótese minha seja verdadeira.

Para refutar a minha própria afirmação, podemos dizer que existem conhecimentos implícitos, ainda que aplicados com bastante eficiência no cotidiano, que não são fáceis de serem formalizados na escrita. E a escola, muitas vezes, acaba valorizando apenas um tipo de formalização, especialmente na escrita, e pouco de outras habilidades como as orais e práticas.

E essa problemática é tratada com vários exemplos no livro “Na vida dez, na escola zero”. Os autores fizeram vários estudos com crianças e adultos que frequentaram ou não a escola, mas possuem conhecimento prático do cotidiano sobre conceitos matemáticos. Tal eficiência chega a ser até melhor do que os estudantes que aprenderam os conceitos apenas por meio de problemas fictícios e formais na escola. Entre esses conceitos estão: operações aritméticas, análise combinatória e cálculo de proporções.

E é nesse ponto de vista que acredito, sim, que o concreto pode ajudar a ensinar a matemática, isto é, entender o concreto como situações vivenciadas pelo aprendiz ou seja a contextualização. Portanto, a importância de variar as estratégias de apresentação do conteúdo em aula é fundamental, não com o objetivo de adaptar a um estilo preferencial de aprendizagem, como alguns acreditam. Mas, para ser possível manter a atenção dos estudantes e também de colocar diferentes oportunidades de aprendizado em um grupo de pessoas que podem ter condições e vivências diversificadas, conforme trazido por Willingham também em seu livro.

E, nesse sentido, usar o material dourado ou outros recursos concretos podem ajudar, em certas circunstâncias, a ensinar alguns tipos de conceitos mais abstratos e generalizáveis. Mas, os materiais manipuláveis por si só, não ajudam necessariamente o aluno a desenvolver conhecimentos mais abstratos. Mesmo porque ninguém faz operações usando cubinhos ou palitos de sorvete no dia a dia. Por mais que seja mais fácil contar cubinhos do que escrever cálculos no papel, essa ação não é totalmente natural. É uma tentativa de didatizar uma ação similar ao do cotidiano, mas a própria ação é abstrata o suficiente para fazer esse paralelo com o real. Uma contextualização mais viável de contagem seria pensar em situações de compra e venda, por exemplo, fazendo a contagem de cédulas ou moedas, que podem diferir de acordo com o valor que estão sendo representando nelas. (Por exemplo 10 moedas de 10 centavos representa o mesmo valor que uma moeda de 1 real).

Por isso, uma das razões de alguns alunos não gostarem da escola é por sentirem-se que os seus saberes práticos não se aproximam do conhecimento formal, ou melhor, tais saberes são negligenciados. No caso particular da Matemática, por exemplo, não saber representar as contas por meio do algoritmo tradicional de operações no papel não significa que o sujeito não saiba fazer contas. E o inverso também é válido. Saber repetir o algoritmo, também coloca certos estudantes em uma posição “acrítica” que, muitas vezes, não sabe avaliar se o resultado apresentado faz algum sentido. No livro de Nunes, Carraher e Schliemann são dados vários exemplos como esse.

Para terminar esse post, quero dizer que compreender ideias abstratas dependem basicamente de: diversificação do conhecimento prévio e a capacidade de generalizar situações para diferentes contextos daqueles aprendidos originalmente.

Particularmente, a compreensão de situações e esquemas para aprendizagem de matemática têm sido o meu objeto de estudo desde o mestrado, apoiando-se na Teoria dos Campos Conceituais de Gérard Vergnaud. Espero ainda escrever um dia um post específico falando sobre essa teoria que venho estudando há muitos anos.

Se tiver curiosidade para ler os livros que citei neste post, seguem as referências completas. E deixe nos comentários qualquer outra dúvida que você tiver sobre ensino de Matemática que queira saber mais.

Título: Por que os alunos não gostam da escola?
Autor: Daniel T. Willingham
Tradutor: Marcos Vinícius Martim da Silva; José Fernando Bitencourt Lomônaco
Editora: Artmed
Crédito da imagem: amazon.com.br

Título: Na vida dez, na escola zero
Autor: Terezinha Nunes, David Carraher e Analúcia Schliemann
Editora: Cortez
Crédito da imagem: amazon.com.br

Como falar bem em apresentações mesmo sob pressão?

Publicado em 14/05/2021 por Luzia Kikuchi

Fazer apresentações na frente de muitas pessoas, nem sempre é tarefa fácil.

É verdade que algumas pessoas até parecem ter “nascido para brilhar”, mas a grande maioria vai melhorando a partir de tentativas e técnicas específicas de oratória e de organização dos roteiros das apresentações. E um jornalista que é bastante conhecido por fazer este último trabalho é o Carmine Gallo que analisou as técnicas de pessoas que são publicamente famosas por terem estilos de oratória poderosos.

Mais adiante, neste post, entrarei em detalhes sobre um dos livros escritos por ele.

Porém, uma coisa que fiquei bastante curiosa em saber é se existe algum fator psicológico que justifique o fato de existirem pessoas que realmente “sucumbem” em situações sob pressão (incluso apresentações, por exemplo) e outras que nem tanto.

A pesquisa mais próxima que encontrei sobre esse assunto é o estudo feito pelos pesquisadores da Caltech ou Instituto de Tecnologia da Califórnia (se você assistiu o seriado The Big Bang Theory, a universidade é mencionada como o lugar onde os personagens principais trabalham).

Nesse estudo, o pesquisador Simon Dunne e colaboradores (2019) observaram que a forma como o incentivo é apresentado aos participantes influencia diretamente em suas performance nas tarefas, principalmente, aquelas que exigem um novo tipo de coordenação motora. Além disso, foi notado nesse estudo que pessoas que têm mais aversão ao sentimento de perda, também costumam ter uma performance pior, dependendo da forma como o incentivo é apresentado pela tarefa.

Por exemplo, na situação 1, os participantes recebiam a promessa de um prêmio de grande valor no final, caso conseguissem executar bem as tarefas pedidas. Nesse experimento, os participantes tinham uma performance pior.

Já, na situação 2, em vez de receberem a recompensa no final, receberam primeiro o incentivo e, caso tivessem boa performance nas tarefas pedidas, poderiam manter esse prêmio. O resultado mostrou que suas performances melhoravam comparadas à primeira situação.

Logo, a pesquisa apontou que, para pessoas com mais aversão à perda, a melhor forma de evitar o sentimento de “trava” para executar uma tarefa nova é dando incentivos no início e não no final. Pois essa sutil mudança, supostamente, criaria um sentimento menor de perda e fracasso nesses sujeitos.

Embora os pesquisadores façam a ressalva de que mais estudos seriam necessários para serem aplicados em outras situações, o que podemos aprender com essa pesquisa é que, talvez, o motivo de algumas pessoas “travarem” em público, é ficar pensando mais no julgamento ou na reação do público ao final da apresentação, pois isso seria como se fosse a “recompensa no final”.

Obviamente, isso é mera especulação minha, baseando-se nas hipóteses obtidas nos estudos de Dunne e outros, previamente citado.

Porém, segundo o jornalista Carmine Gallo, no livro “The presentation secrets of Steve Jobs”, que foi traduzido para o português com o título “Faça como Steve Jobs”, o que se pode notar em pessoas que fazem apresentações envolventes como o ex-CEO da Apple, é a preparação cuidadosa de uma narrativa que desperte a atenção do público. E essa técnica pode ser aprendida por qualquer pessoa.

Segundo Gallo, uma boa narrativa para apresentações precisa ser pensada como se fosse o roteiro de um filme. E o processo de criação de uma boa história, divide-se em 3 atos e eu tentarei resumir as características principais de cada um deles:

  1. A criação de uma história;
  2. A entrega de uma experiência;
  3. Detalhamento e revisão;
  1. A criação de uma história

Quando você vai contar uma história, precisa criar um contexto que faça a sua audiência se interessar por aquele conteúdo. Pensar em suas necessidades, suas angústias e como fazer para que o público entenda que aquela mensagem que você quer passar em sua apresentação é importante.

Steve Jobs sempre pensava em todo contexto de uma história, antes de passar as suas palavras para um apresentador de slides como o Power Point ou Key Note, este último para usuários Apple. Na verdade, boa parte das apresentações do Jobs tinha poucas palavras e, quando apareciam, eram frases curtas de impacto ou imagem e vídeo de algo suficientemente interessante para o público sobre o que ele gostaria de contar.

Então, antes de sair colocando muito texto em sua apresentação, tente pensar no começo, meio e fim de uma história que você quer contar para o público e evite fazer textos muito grandes.

  1. A entrega de uma experiência

Carmine Gallo aponta algo muito interessante e que acontece com muita frequência em apresentações: a preocupação de muitos em iniciar dizendo quem são, quais funções exercem, o que a empresa faz, seus números, para, finalmente, abordar a apresentação do conteúdo em si. O problema é que essas informações pouco importam para o público.

Para uma boa entrega de experiência, é necessário pensar na informação que o público realmente quer saber. E, para isso, é importante usar metáforas e analogias para explicar um conceito mais difícil ou muito abstrato para a maior parte das pessoas.

Um exemplo muito comum que o autor apresenta é o caso do vendedor de uma loja de computadores.

Imagine que uma pessoa chega em uma loja e diz que está procurando um computador que seja leve e rápido. O vendedor apresenta alguns modelos e os diferentes preços de cada um deles. O consumidor pede então para explicar as diferenças de cada um, mas o atendente se limita a dizer as especificações técnicas (a mesma que está escrito nas propriedades do sistema) sobre cada máquina, que não é suficientemente esclarecedor para o consumidor. Desse modo, o comprador desiste da compra e vai para outra loja.

Agora, se esse mesmo vendedor fizesse uma analogia mais simples, de que os processadores são como se fossem “cérebros” do computador e que alguns conseguem ser rápidos e mais compactos por usarem uma tecnologia que permite isso, o comprador, no mínimo, se interessaria em querer saber mais a respeito ou até mesmo concluiria a compra.

Então, é a mesma coisa para se fazer uma boa apresentação: pense no seu público-alvo e encontre exemplos que façam sentido para eles. Evite jargões técnicos ou altamente específicos para apresentações para um público em geral.

  1. Detalhamento e revisão

De nada adianta ter uma apresentação perfeita dos outros dois pontos de vista anteriores, se a sua postura e a forma como comunica essa mensagem não passa isso. Portanto, é revisar e treinar: seu ritmo de fala e sua postura corporal. Pausas para reação do público (os comediantes de stand-up são muito bons nisso também).

Mesmo Steve Jobs, ensaiava, revisava e melhorava incessantemente suas apresentações. Na verdade, essa é uma das características mais marcantes em tudo que ele desenvolveu durante a sua vida: obsessão por melhorar algo.

No vídeo, eu conto essas duas dicas de forma condensada e com algumas dramatizações para ilustrar (estará disponível a partir das 21h).

Se você quiser adquirir os livros que citei, segue as referências:

Versão traduzida para o português:

Título: Faça como Steve Jobs
Autor: Carmine Gallo
Editora: Lua de papel
Crédito da imagem: amazon.com.br

Versão original em inglês:

Título: Presentation Secrets of Steve Jobs
Autor: Carmine Gallo
Editora: McGraw-Hill Education
Crédito da imagem: amazon.com.br

Você já praticava essas dicas que citei aqui? Como você se sente em apresentações em público?