Curiosidades sobre o dia 15 de outubro: como surgiu o dia dos professores?

Publicado em 15/10/2021 por Luzia Kikuchi

Muitas das datas comemorativas em nosso país podem não ter sido criados com o cunho religioso ou para o marco de algum acontecimento histórico importante. A título de exemplo, o dia dos namorados no Brasil, que é comemorado no dia 12 de junho, parece ter sido criado como uma forma de aquecer o comércio da época, aproveitando-se o fato de que no dia posterior, 13 de junho, é comemorado o dia de Santo Antônio, conhecido como o “santo casamenteiro”.

Segundo informações de algumas mídias de massa, tudo indica que o responsável pela criação do dia dos namorados foi o empresário João Agripino da Costa Dória, pai do atual governador do estado de São Paulo: João Dória. A data foi criada em 1948, mas só começou a se popularizar dez anos depois. Infelizmente, não encontrei outras fontes como pesquisas acadêmicas ou arquivos de universidades onde pudesse consultar a veracidade essa informação de forma online. Se alguém souber me indicar se existe algum acervo da área de Marketing ou Publicidade em que essa informação possa ser consultada, por favor, deixe nos comentários! 😊

Da mesma forma, fiquei curiosa para saber se o dia dos professores também foi criado por alguma empresa de publicidade ou se há algum marco político e histórico para que a data 15 de outubro fosse escolhida para homenagear os nossos professores brasileiros. Já que, em outros países, a data é comemorada em dias diferentes.

Um artigo muito interessante que encontrei sobre o assunto é o da professora Paula Vicentini, da Faculdade de Educação da USP, publicado em 2004, na qual descreve as diferentes imagens da profissão, num período de 1933 a 1963. Dentro dessa narrativa, a pesquisadora também apresenta como surgiu essa data.

A Igreja e os professores

Segundo Vicentini (2004), no caso brasileiro, um dos primeiros marcos importantes na data de 15 de outubro ocorreu em 1827, quando foram criadas as primeiras escolas de letras no país e foi colocado um vigário* para cuidar das paróquias do Brasil na época. Mas, a comemoração dessa data como um festejo aconteceu apenas em 1933, por meio da Associação dos Professores Católicos, conhecido como APC.

* vigário é o mesmo que um padre ou pároco responsável pelas paróquias e igrejas. Para saber mais detalhes sobre as diferentes definições de “vigário”, consulte este artigo publicado no Caligrama por Dores e Duchowny (2018).

Você deve estar se perguntando:

“Mas, o que as paróquias e as escolas têm a ver com isso?”.

Naquela época, a influência da Igreja Católica era muito grande. Seja em esferas do governo seja no campo educacional, pessoas influentes nesses respectivos meios conseguiam participar de decisões importantes no país. Na área da Educação, conseguiram o direito de opinar sobre questões pedagógicas. Inclusive muitas denominações no meio acadêmico como “cátedra” e a forma de exposição típica das aulas (no qual o professor se posiciona em frente aos alunos, em um piso mais elevado) também tem muita influência das formas como são realizadas as missas.

Apesar da Igreja ter conquistado muito poder para tomada de decisões na área educacional, o apelo para que essa data tornasse uma celebração oficial foi ocorrendo de forma isolada no país.

No texto de Vicentini (2004), conta-se que, no caso do estado de São Paulo, a data foi institucionalizada pela lei nº 174 de 13 de outubro de 1948 pelo governador Adhemar de Barros, passando a ser feriado escolar. A nível federal, só aconteceu durante o governo de João Goulart, em 1963, por meio de um Decreto Federal de nº 52.682 de 14 de outubro de 1963, estabelecendo o dia 15 de outubro como feriado escolar.

Nesse dia, organizavam-se solenidades para prestação de homenagens para os professores com direito a entrega de diplomas e medalhas. Inclusive algumas figuras ilustres como o governador Carvalho Pinto (sim, o mesmo nome da rodovia que leva ao litoral norte de São Paulo e para Campos do Jordão) e Dorina Gouveia Nowill (presidente da fundação do livro do cego no Brasil) também foram homenageados com títulos de “Mestre do Ano”.

Embora as homenagens e celebrações fossem “encantadoras” em termos de reconhecimento da importância do trabalho do professor, poucas ações concretas em termos de melhorias de salário e condições de trabalho foram feitas. Isso tornava a profissão ainda muito pouco atraente para a maioria das pessoas. Por conta disso, a partir de 1950, em vez de homenagens, a data começou a ser usada como um marco para manifestações e protestos por condições melhores para a profissão docente.

Conta-se no texto de Vicentini (2004) que a imprensa da época também tem contribuído de certa forma para apoiar tais protestos, afirmando que as homenagens eram vazias de sentido, já que não havia uma melhoria concreta na vida do professor. Alguns veículos de imprensa chegaram até a dizer que os governantes utilizavam a data comemorativa como uma “compensação momentânea”, com o pretexto de desviar a atenção das insatisfações dos professores.

Porém, essa percepção da imprensa não era unânime. Alguns jornais chegavam a criticar a institucionalização da data como feriado escolar, especialmente, para os pais que pagavam escolas particulares. Já que, no entendimento daqueles, estava-se pagando por dias letivos a mais sem ter aula. Houve, por exemplo, uma crítica de um jornalista que, por ter dois feriados na mesma semana (dia das crianças e dia dos professores), propõe se não seria mais útil as crianças estudarem mais no dia delas “numa grande festa de espírito” (O GLOBO, 1951 apud VICENTINI, 2004, p. 21) e os professores, nessa data de 15 de outubro, não deveriam realizar cursos para aperfeiçoar a sua nobre profissão. Enfim, o velho “mito da produtividade”…

O patrono do Professorado Carioca

O entendimento de que a carreira do professor assemelha-se ao do sacerdote cuja vida deve ser pautada no sacrifício, na abnegação e dedicação como mestre exemplar fez com que, nada mais nada menos, o padre José de Anchieta fosse eleito, por voto popular, como patrono do Professorado Carioca em 1951. Embora seja muito bonito na teoria, na prática, isso só foi desmotivando mais ainda os jovens a seguirem a carreira do magistério educacional.

Independentemente da data, o que eu consegui notar nessa pesquisa sobre o dia dos professores, por meio desse texto de Vicentini (2004), é que a luta por um salário digno, de melhores condições de trabalho e reconhecimento social vem desde a época do Império quando se começou a instalação da educação primária no Brasil. E essa situação continua até os dias de hoje.

Infelizmente, em alguns quesitos, a situação até piorou: o aumento na violência urbana e também dentro das escolas, as greves recorrentes, de um modo geral, na rede pública. O crescimento de redes particulares de ensino que visam atender a essa demanda de pais insatisfeitos com tais situações nas escolas públicas, mas que tratam seus professores para atuarem como “mordomos” de seus clientes, sem se preocupar realmente com o que é mais importante para a educação e formação dos estudantes.

Ou seja, a situação do professor parece continuar muito desprestigiada e, infelizmente, ainda visto com a mesma imagem de “sacrífico, dom e abnegação” para aqueles que optaram a seguir a carreira docente. Porém, o que podemos concluir dessa pesquisa é que parte da justificativa do trabalho do professor ser visto como uma posição similar ao de sacerdócio está na sua própria origem. E para desvinculá-la dessa imagem, só mesmo com o tempo e a mudança nas exigências de atuação do professor, como já ocorreu, por exemplo, quando se passou a exigir a graduação em Licenciatura para atuar no ensino básico. Mas, também não basta existir os cursos de Licenciatura, se o currículo também não for apropriadamente adaptado para a formação desses futuros professores. Isso significa não exigir somente o conhecimento do conteúdo, que é essencial, obviamente, mas privilegiar a ensinar e estudar práticas e métodos de ensino que sejam mais eficazes para o aprendizado.

Acredito que cada país tenha problemas similares, independente da sua história e origem do dia escolhido para homenagear o professor. Contudo, em termos brasileiros, podemos dizer que pelo fato da institucionalização da escola básica ainda ser muito recente*, temos ainda muito “chão” pela frente… O que não tira ainda as minhas esperanças…

*Em um post anterior, citei que o acesso ao ensino de nível médio só passou a ser obrigatório em 2009. Até então, garantia-se o acesso apenas ao nível primário e, posteriormente, o secundário (hoje equivalente aos anos finais do Ensino Fundamental).

Gostaria de terminar este texto com o tradicional “Feliz Dia dos Professores” e prestar a minha homenagem aos mestres que tanto me ensinaram para que eu pudesse aprender um ofício, mas, não quero que essa homenagem pareça vazia de sentido e entendida como um mero “protocolo”, como tanto foi criticado nesse texto que apresentei, minimizando a luta por melhores condições de trabalho para os docentes. Eu como professora também faço parte dessa luta, mas não quero deixar de dizer o meu “muito obrigada” pelo grato privilégio de ter encontrado bons professores na vida, durante a minha caminhada.

Fiz a versão desse texto em vídeo também, confira lá no canal a partir das 21h!