Como ensinar usando tecnologia? Preparando atividades interativas no nearpod

Publicado em 30/04/2021 por Luzia Kikuchi

O que vem em sua cabeça quando ouve a palavra “tecnologia”? 

Segundo o dicionário Houaiss, a palavra tem origem grega, que é formada pelo radical tékhnē, que significa arte, ofício ou ciência, e o sufixo lógos, que significa estudo ou linguagem.

Desse modo, tecnologia é o estudo ou processo que permite moldar, fabricar ou modificar objetos ou o meio ambiente com o intuito de satisfazer as necessidades humanas.

Com essa definição em mente, onde podemos visualizar a tecnologia?

A resposta é: todos. A única diferença é que podem existir soluções tecnológicas melhores, dependendo da época.

E, no contexto da sala de aula, também temos vários itens que são frutos da tecnologia como a lousa (em diferentes versões como verde, negra, branca, quadriculada e panorâmica). Existiram também os retroprojetores, no lugar dos projetores digitais – que são mais usados hoje – e o mimeógrafo para fazer cópias de impressos, que deu lugar às máquinas copiadoras digitais. Todos eles, frutos da tecnologia, são considerados aparatos ou recursos tecnológicos.

Porém, apesar desse visível avanço dos recursos tecnológicos, que acabei de citar, será que a prática de ensino teve muitas mudanças?

O avanço no acesso à informação

Embora tenha havido muitas gerações de avanço tecnológico, é somente com a ampliação do acesso aos computadores, internet e smartphones que o ensino passou a ter mais desafios para serem superados, principalmente, em relação à prática didática do professor. E é sobre isso que quero chamar a atenção neste texto.

Com amplo acesso à informação, acredito que o papel do professor deva se focar na curadoria do conhecimento. Além disso, o educador também é aquele que deve dispor de técnicas e métodos para “traduzir” essas informações de diferentes maneiras. Dessa forma, o estudante busca o professor como forma de superar as dificuldades para compreender um conteúdo novo. E, para isso, o professor também precisa compreender os diversos processos de aprendizagem. Para isso, é importante conhecer o conceito de tecnologia educacional.

Por isso, quando vou falar sobre o uso de tecnologias nas escolas, sempre inicio a minha explicação falando sobre a importância da adaptação da linguagem, de acordo com o recurso tecnológico utilizado. Isso é importante para que o objetivo principal de aprendizagem não seja perdido com o uso do recurso tecnológico. Além disso, é muito importante pensar no contexto social e no seu público-alvo. Do contrário, o uso da tecnologia por si só não traz benefício para a aprendizagem. Esse processo faz parte do conceito de tecnologia educacional.

Embora houvesse uma certa dificuldade de definir o conceito de tecnologia educacional, nem no Brasil e nem internacionalmente, como retratado no livro “Manual da Tecnologia Educacional” de Ligia de Oliveira Auricchio, publicado em 1978, gosto de partir da mesma definição de tecnologia educacional dada por Paul Saettler (1968 apud AURICCHIO, 1978) de considerar os recursos tecnológicos como um meio de aprendizagem e não o fim. Levando em conta essa definição de Saettler, o recurso tecnológico precisa ser utilizado para facilitar a transmissão e sistematização de um conteúdo.

Mesmo depois de 40 anos ou mais, não tenho encontrado uma definição única sobre o conceito de tecnologia educacional, o que dificulta a implementação adequada desse conceito nas escolas.

De modo a facilitar a identificação dos principais aspectos que devem ser analisados para implementação do conceito de tecnologia educacional, criei um acrônimo chamado “FERA”. Com ele, o professor pode avaliar se um recurso tecnológico contempla os seguintes aspectos:

Pela minha experiência, sem levar em conta esses aspectos da definição de tecnologia educacional, dificilmente um recurso tecnológico pode ser benéfico para a aprendizagem. Isso significa também que, mesmo havendo a disponibilidade de recursos tecnológicos caros e sofisticados na escola, isso não se traduz, necessariamente, em melhor aprendizado.

Obviamente, fiz toda essa explanação no contexto das aulas presenciais. E na EaD? Como fica?

É verdade que, com a pandemia atual, alunos e professores tiveram que se adaptar rapidamente como puderam. Dessa forma, o uso de alguns recursos tecnológicos passaram a ser primordiais para fazer o básico: o contato entre professor e aluno. No entanto, será que a utilização desse recurso tecnológico permite uma transposição direta de uma aula presencial? Se você é professor ou professora que está passando por isso, deixe nos comentários contando a sua experiência.

Sem ler os comentários, minha opinião é que, provavelmente, não. Não é possível ter a mesma experiência de aula presencial no ensino remoto, sem adaptações. Ou seja, enquanto havia o ensino presencial, os recursos tecnológicos eram inseridos de forma “tímida” no cotidiano da sala de aula, mas sem pensar no potencial de aprendizagem propriamente dito ou, até mesmo, subutilizando-o.

Quando se fala em subutilização, é quando algumas tarefas podem ser muito bem executadas sem o uso desses recursos tecnológicos. Por exemplo, quando se prepara uma apresentação com textos muito longos e apenas os lê em aula. Ou mesmo quando um professor deixa de apresentar o material em diferentes formatos que poderiam ser muito bem aproveitados nas mídias digitais como: figuras, esquemas, animações, vídeos e jogos.

O único problema é que, nem sempre, os professores têm facilidade ou acesso a esses recursos. Embora cada recurso em separado possa estar disponível em diferentes plataformas, não é exatamente fácil ou conveniente juntá-las em uma plataforma de comunicação utilizada pela instituição de ensino, por exemplo. E é nesse aspecto que eu vi uma grande vantagem nesse recurso chamado nearpod.

A explicação sobre o que é o nearpod e as suas funcionalidades está no vídeo a seguir (estará disponível a partir das 21h). 

No vídeo, comentei que esse quadro comparativo entre o Power Point e o nearpod seria explicado em mais detalhes aqui no post. Se você quiser, pode ir diretamente às explicações do item de seu interesse, clicando em cada item na lista abaixo da tabela:

Créditos da imagem: autoria própria.

  1. Slides interativos em tempo real
  2. Incorpora vídeos direto do YouTube
  3. Precisa baixar um aplicativo para ser aberto
  4. Número de acessos
  1. Slides interativos em tempo real

Quando se monta uma apresentação no Power Point, só é possível colocar recursos interativos como enquetes, perguntas ou joguinhos, por um link externo que leva o usuário para fora do ambiente de apresentação.

E quem já deu aula sabe que quanto mais se tira o aluno de um ambiente para outro mais difícil é de recuperar a atenção dele. Principalmente, se esse segundo ambiente for muito mais interessante que o conteúdo da aula. 

Então a vantagem de criar essas apresentações no nearpod é permitir o controle de conteúdo apresentado, sem tirar o foco do aluno.

  1. Incorpora vídeos direto do YouTube

Uma das dificuldades do Power Point ao se trabalhar com vídeos, é não permitir que o vídeo seja salvo fora dele. Isso economizaria bastante o tamanho do seu arquivo final. Porém, o que acontece na prática é o seguinte: o Power Point copia o vídeo que foi anexado a ele e passa a ter um tamanho gigantesco, tornando-o inviável para enviar como anexo por e-mails e consumindo bastante o consumo de dados para baixar o arquivo.

Já no caso do nearpod, os vídeos podem ser anexados direto do YouTube, por exemplo, sem a necessidade de baixá-lo para o computador. E, assim como explicado no item anterior, isso previne a saída do aluno da apresentação da aula.

  1. Precisa baixar um aplicativo para ser aberto

Uma das grandes dificuldades de se trabalhar com qualquer arquivo do pacote Office, como no caso do Power Point, é o fato de exigir um software que seja capaz de abrir arquivos com a mesma extensão. 

Já no nearpod, como o acesso é feito direto pelo navegador, a apresentação pode ser facilmente acessada, desde que haja conexão com a internet.

  1. Número de acessos

Para a versão gratuita, o nearpod permite receber o acesso de até 40 estudantes, o que pode ser um limitador para professores com turmas grandes. Já na versão paga, que começa a partir de 10 dólares por mês, aproximadamente, R$ 60 reais por mês, na cotação atual do dólar mais os impostos do cartão de crédito, é possível aumentar para 75 alunos por sessão.

O que não ficou claro para mim é se o limite do número de alunos é por cada apresentação de aula criada ou o total de apresentações criadas pelo professor. Vou fazer um teste com a minha própria apresentação para descobrir isso e atualizo futuramente este post… (você pode conferir esse material no menu do blog no link “Materiais”).

Então, se o intuito é trabalhar com turmas pequenas, a versão gratuita será suficiente. Já em turmas numerosas, seria interessante pensar em um plano especial pela escola, entrando em contato pelo suporte do nearpod.

Acho que essa é uma das poucas vantagens que o Power Point leva vantagem em relação ao nearpod.

Para não ser injusta com o produto do “tio” Gates, acredito que os recursos gráficos como: o tipo de fonte, cores, tamanhos e o uso de tabelas e itens são mais amplos no Power Point do que no nearpod. Mas, a disponibilidade de recursos dinâmicos do último, com certeza, acaba compensando tais vantagens do Power Point.

E você? Já conhecia o nearpod? O que achou desse recurso?

Referência citada:

Auricchio, L. O. (1978). Manual de tecnologia educacional. Rio de Janeiro (RJ: F. Alves. 

Primeiro ano do projeto “Como Aprender?” e respondendo às perguntas do Quora

Publicado em 16/04/2021 por Luzia Kikuchi

No último dia 10 de abril, este projeto completou 1 ano de existência! Agradeço a todo mundo que acompanha e apoia este projeto tanto por aqui quanto pelas redes sociais.

E uma das plataformas onde este projeto está presente é na Quora onde conta com mais de 7.300 seguidores atualmente e com aproximadamente 150.000 visualizações de posts.

O que é o Quora?

Para quem não conhece a Quora, ela é uma rede social onde os usuários criam perguntas sobre qualquer assunto e as encaminham para pessoas que sejam possivelmente capacitadas para respondê-las. Sejam especialistas, sejam as que tenham alguma vivência, etc. É uma plataforma dedicada ao compartilhamento de conhecimento de diversos assuntos e de diversas formas.

Lá no espaço do Quora, tento levar alguns de meus posts publicados aqui no blog para ajudar a responder as perguntas que recebo por lá. Porém, são tantas perguntas e, muitas vezes, repetidas, que não dou conta de dar um retorno para todas. Também faço a triagem de algumas respostas, de outros usuários, relacionadas ao ensino e a aprendizagem, e compartilho-as no meu espaço. 

Tirando as perguntas legítimas, com pedido de ajuda, algumas são curiosas e até engraçadas. Por isso, como vídeo comemorativo de um ano deste projeto, resolvi responder algumas delas, em um formato bem-humorado, que você pode conferir neste link (Ele estará disponível a partir das 21h).

E, nesse vídeo, também respondi às perguntas mais encaminhadas no Quora e também as que recebo frequentemente por mensagem diretas nas redes sociais. 

Dessa forma, se você veio para este post pelo vídeo, vou citar as perguntas correspondentes citadas nele, para ficar mais fácil de localizar os respectivos detalhes:

Pergunta 1: Como dar conta de revisar todos os conteúdos do vestibular já estudados? Qual seria um bom método? 

Nesta pergunta, citei os estudos de Taylor e Rohler (2010) que mostram a eficácia de intercalar atividades práticas durante o aprendizado de um novo conteúdo matemático. Esse material pode ser encontrado no post “Como organizar os estudos?”

Nesse mesmo post, também falo sobre a “Falácia do Planejamento”, termo cunhado pelo psicólogo Daniel Kahneman no livro “Rápido e Devagar: duas formas de pensar”, que comento na pergunta 2 “Já tentei várias vezes fazer uma rotina de estudo, mas acabo deixando ela de lado sem nem perceber. Como montar e manter uma boa rotina de estudos?”

Pergunta 13, “A pessoa que possui o curso de licenciatura em matemática só pode dar aulas ou existe outras profissões que também requer o curso?”

No vídeo fiz uma observação de que algumas vagas de emprego não requerem necessariamente um curso superior específico na área.

Para exemplificar isso, podemos usar exemplos de alguns concursos públicos mais procurados:

INSS – analista do Seguro Social com formação em qualquer áreadiploma de conclusão de curso de nível superior de graduação em qualquer área de
formação.

PF – Agente de Polícia Federal: diploma, devidamente registrado, de conclusão de curso superior em nível de graduação, fornecido por instituição de ensino superior reconhecida pelo MEC.

Outro exemplo de vaga na iniciativa privada que eu consultei no site vagas.com.br

* como as oportunidades podem mudar conforme a disponibilidade, acessem diretamente pelo link e filtrem por áreas, que fica no canto inferior esquerdo.

Analista pleno de produto: formação em Administração, Economia, Marketing, Engenharias, Tecnologia e afins.

Inclusive, em algumas empresas, formação na área de Jornalismo também é aceita para esse mesmo cargo de analista de produto. Eu mesma já trabalhei para esse mesmo cargo em uma empresa de Tecnologia em Educação, mesmo a minha formação sendo em Licenciatura em Matemática.

Em nenhum momento, os entrevistadores – que eram os próprios diretores da empresa – fez distinção se o meu diploma era de Licenciada ou de Bacharel, por exemplo. Apenas perguntaram sobre a minha experiência prévia na área e fui contratada em período experimental. Foi durante esse tempo que consegui demonstrar a minha competência para o cargo e fui contratada, para uma posição permanente, seis meses depois.

Já em um post anterior, falei sobre o artigo 62 na Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e sobre a Medida Provisória nº 746 (22 de setembro de 2016), que se transformou em Lei Ordinária nº 13.415 (16 de fevereiro de 2017).

Essa Lei Ordinária nº 13.415 (16 de fevereiro de 2017) refere-se sobre aquela “polêmica” de que os cursos de licenciatura deixariam de ser obrigatórios para lecionar nas escolas. Mas, na verdade, essa lei flexibilizou justamente a implementação do novo currículo do Ensino Médio e, principalmente, dos cursos técnicos.

Agora, o curso de licenciatura pode ser exigido para outros cargos além de lecionar na escola básica? Sim. E, normalmente, são em carreiras relacionadas à área de Educação. No último processo seletivo da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), por exemplo, as seguintes vagas exigiam a formação de licenciatura:

– Supervisor de Curso;

– Supervisor de Conteúdo.

Também há casos de concursos para professor de Ensino Superior que também exigem formações específicas de Licenciatura ou pós-graduação na área de Educação ou Ensino, dependendo da característica da vaga.

Então, respondendo à pergunta, o licenciado PODE dar aula e TAMBÉM PODE trabalhar em outras áreas, se quiser.

E a última pergunta: “Uma pessoa que se especializa em práticas pseudocientíficas pode se considerar um doutor?”.

No vídeo comentei que há duas possíveis interpretações para essa pergunta: uma que se refere ao médico e outra ou ao título acadêmico.

Em relação ao uso do termo “doutor”, também mencionei que, no Brasil, existe um certo uso equivocado dessa expressão para certas profissões.

Um desses equívocos seria o uso deste termo para os profissionais das áreas de saúde, que não exercem a profissão de médicos ou médicas. Também igualmente me refiro a advogados que, apesar de não terem grau acadêmico de doutor, tradicionalmente são chamados de doutores. Neste último caso, parece ainda que remonta a uma tradição que veio do decreto assinado por Dom Pedro I em 1827. Mas, tem caído em desuso nos dias mais atuais.

Atualmente, a regra que vale parece ser a do dicionário. Embora, no caso do dicionário Houaiss, ainda se faça menção a esta definição (embora esteja marcado “por extensão” aos cargos de juízes e delegados), mas não se faz a menção para aqueles que são apenas bacharéis em Direito.

8 p.ext. título que, por disposição legal, compete aos magistrados judiciários (juízes e delegados)

Fonte: Dicionário Houaiss Online

E de onde vem essa tradição de chamar de “doutor” aqui no Brasil?

Segundo a pesquisadora e historiadora Tania Bessone, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), aqui no Brasil, a partir do século XIX, exigiam-se dos futuros médicos a defesa de uma tese ao final do curso de Medicina, seguindo a tradição de outros países da época. Portanto, podemos dizer, de certa forma, que os médicos da época também faziam jus ao título acadêmico de doutor.

Já a origem do título acadêmico, remonta no século XI, quando foi formalizado pelas primeiras universidades criadas na Europa. No fim de seus estudos, os estudantes defendiam uma tese pública e passavam a ser considerados como aptos para ensinar. Isso mesmo! Para ensinar, exigia-se o título de doutor. Isso, provavelmente, é explicado ao contexto da época, pois o ensino era exclusivo para uma classe privilegiada da população que tinham acesso às universidades. Não existia ainda o ensino democrático universal como nos dias de hoje.

Já no site pós-graduando existe um post escrito pela Teresa Nunes no qual é levantada a hipótese de que há uma questão cultural, do Brasil colônia, pela qual chamamos os médicos e advogados de doutores: somente pessoas muito ricas tinham o privilégio de estudar na Europa, quando não existiam universidades ainda no Brasil. E, por extensão, ficou o costume popular de chamar pessoas com condições financeiras privilegiadas de doutores. Mesmo que não tenham nenhum tipo de titulação acadêmica ou sequer sejam médicos ou doutores.

Uma questão importante que é levantada por esse post do site pós-graduando é que, no fim das contas, a grande parte da população não sabe exatamente o que faz uma pessoa com título acadêmico de doutor. Em teoria, são formados para serem pesquisadores/cientistas. Mas, quantas pessoas da população sabem o que um cientista faz? Dessa forma, ficar contestando a utilização do termo “doutor”, somente para quem tem doutorado, não deixa de ser o mesmo tipo de vaidade de médicos e advogados que fazem questão de utilizar o termo ainda nos dias de hoje.

E o uso da palavra “doctor” no inglês?

No vídeo, eu comento sobre o uso da palavra “doctor” na língua inglesa e que também pode ser entendida, por extensão, ao uso da palavra doutor para denominar médicos.

Segundo a médica ginecologista e obstetra, Melania Amorim, ela afirma que, no caso dos Estados Unidos, o sistema de ensino é diferente. Por lá, o estudante realiza uma formação de ensino superior generalista, conhecida como college, e depois se especializa em uma área. No caso dos médicos, ao se formar, recebem o título de Medical Doctor, tratando-se de um grau acadêmico específico para médicos e usa-se o termo abreviado M.D. (Lembra do seriado House M.D.?)

Mas, mesmo no inglês, existe outro termo menos comum para se referir a médicos que é physician. Este sim, seria o termo equivalente ao médico, na língua portuguesa, ou o graduado em Medicina.

Então existe ou não doutor em pseudociência?

Bom, depois de esclarecer um pouco sobre o uso da palavra “doutor”, para se referir aos médicos e a origem do título acadêmico, agora entro na discussão filosófica sobre o que é ciência e o que é uma pseudociência. No vídeo explico a conclusão de tudo isso. Aqui dou apenas as explicações que omiti no vídeo.

Para se fazer ciência, é necessário utilizar um bom método científico, com o intuito de responder a uma pergunta inicial, bem definida, com formulação de hipóteses correlatas para encontrar uma resposta que, possivelmente, explica a pergunta inicial. Esses resultados obtidos não podem ser tomados como conclusões para casos em que não estão contemplados na pesquisa. Quando fazemos isso, estamos praticando uma pseudociência.

Para o filósofo argentino Mario Bunge, que faleceu aos 100 anos de idade no início de 2020, pseudociência é uma doutrina ou prática sem fundamento científico, mas que é vendida como ciência. Para o filósofo, na ciência, acredita-se somente naquilo que pode ser provado de modo conclusivo ou plausível, ou que implica proposições verdadeiras.

Bunge sempre foi muito crítico a alguns teóricos, muito lidos no mundo inclusive, e sempre tentou definir proposições muito claras para caracterizar a ciência e pseudociência. Como exemplo, você pode assistir este trecho de uma entrevista no qual ele critica as ideias de teóricos como Nietzsche, Foucault e Bruno Latour.

Além desses teóricos, Bunge também é bastante crítico do marxismo. Neste artigo é possível entender esses contrapontos das ideias de Bunge e, em quais aspectos, o filósofo argentino pode ter se equivocado.

Embora Bunge tenha sido um crítico ferrenho* de diversas teorias amplamente conhecidas pelo mundo, como um bom filósofo e cientista, sempre se mostrou aberto a participar de debates e discussões intelectuais. Isso é notável em muitas das palestras e entrevistas disponíveis no YouTube. Cito duas delas que acho interessante:

*Ferrenho: que se caracteriza pela austeridade; implacável, severo.

Fonte: Dicionário Michaelis Online

Transcrevo também um trecho do post da Revista Questão de Ciência, onde Bunge dá algumas recomendações para o estudante que queira iniciar a sua carreira em filosofia:

“Recomendo-lhe que dê prioridade aos problemas, não aos autores; que, para tratar de problemas filosóficos, se informe sobre o que podem contribuir a matemática e as ciências da realidade; e que escreva ensaios e os discuta com companheiros de estudo e com amigos. O pensador solitário perde a capacidade de comunicar-se e acaba louco como Husserl, o inventor da fenomenologia ou egologia.” (Fonte: Mario Bunge, 100 anos: um filósofo contra a pseudociência).

Se você quiser saber mais sobre a vida e um pouco do trabalho desenvolvido por Mario Bunge, recomendo a leitura desse post, no site da Revista Questão de Ciência, que é produzida pelo Instituto Questão da Ciência, presidida pela Natalia Pasternak (talvez você já tenha a visto em entrevistas para esclarecer alguns assuntos envolvendo a atual pandemia).

Eu também falo um pouco mais sobre as ideias de Mario Bunge no post que explico as diferenças entre opinião, fé e ciência. 

E, por fim, se você quiser ler mais a respeito da epistemologia de Mario Bunge, aplicado ao ensino de Ciências, existe este artigo escrito por Cupani e Pietrocola (2002) para o Caderno Brasileiro de Ensino de Física.

Caso você tenha sugestões, críticas ou queira complementar as ideias apresentadas neste post, deixe aqui nos comentários!

Como evitar erros na hora de escolher o curso da faculdade?

Publicado em 02/04/2021 por Luzia Kikuchi

Atualizado em 09/04/2021 por Luzia Kikuchi

A partir da semana que vem*, o MEC (Ministério da Educação) iniciará as inscrições para as vagas nas universidades públicas pelo SISU (Sistema de Seleção Unificada).

*segundo o cronograma disponível no site do MEC, começa a partir do dia 06/04/2021 e vai ate 09/04/2021 – confira no site do MEC para verificar se não houve alteração.

O que é o SISU?

O SISU é um sistema informatizado criado pelo MEC que permite, a todos que participaram da versão mais atual do ENEM, escolher as vagas ofertadas em diferentes cursos de universidades públicas espalhadas pelo Brasil.

Para isso, o sistema classifica os candidatos de acordo com a nota obtida no ENEM e apresenta as notas mínimas/médias necessárias para ingresso em um determinado curso e universidade. No momento da inscrição, ele apresentará na tela os requisitos e, caso o candidato(a) não obtiver a nota suficiente para concorrer àquele curso, uma mensagem será exibida na tela. É possível escolher até 2 opções de cursos e que podem ser modificadas durante o período das inscrições.

Para outras dúvidas frequentes, consulte diretamente no site do MEC.

E o que é o ProUni?

ProUni (Programa Universidade para Todos) é um sistema também do MEC que permite concorrer às bolsas de estudo para estudar em faculdades e universidades privadas pelo país. O 1º período de inscrições para o ProUni deste ano já se encerrou (08 a 12 de março), mas quem já tiver inscrito no ProUni também pode inscrever-se simultaneamente no SISU.

Porém, para poder se inscrever no ProUni, existem critérios específicos que podem ser consultados no site do MEC.

E, para quem está nesse momento crucial de escolher o curso, é natural que surjam indecisões e muitas dúvidas de escolher a carreira do ensino superior a seguir. Ainda mais quando se pode ter acesso às vagas de universidades espalhadas por todo o Brasil! 

Na minha época, a localização da universidade (de preferência a mais próxima de casa) já era um critério de escolha para se inscrever no vestibular. Fora os custos de inscrição, não muito baratos, que acabavam limitando o número de concursos a prestar. Hoje, com esse sistema unificado do ENEM, os/as estudantes podem ter mais escolhas com um investimento único na taxa de inscrição. Já é um avanço muito grande para o acesso às universidades e também de diversificar a origem dos estudantes dentro das instituições de ensino superior. Portanto, vejo o SISU como uma conquista muito positiva para a democratização do acesso ao ensino superior. Sem contar a implementação sucessiva de política de ações afirmativas que eram inexistentes na época.

Embora muitas mudanças no processo de ingresso tenham surgido, uma coisa ainda continua sendo uma grande dúvida de estudantes: a escolha do curso mais adequado para prosseguir os seus estudos no ensino superior.

Então, eu tentei reunir neste post, de acordo com a minha experiência e de relatos de amigos e pessoas que já passaram por essa fase, cinco erros mais cometidos pelos estudantes na hora de escolher a carreira do vestibular. Parte delas pode ser aplicado também à escolha do curso no ProUni.

  1. Escolher o curso pela menor nota de corte

Independente de qual forma de ingresso, SISU ou vestibular próprio da instituição, as vagas nas universidades públicas possuem uma nota mínima para aprovação que se chama “nota de corte”.

Se você tiver indeciso(a) ou com medo de não obter a aprovação e escolhe um curso levando em conta apenas a nota de corte, sinto lhe informar, mas você corre um sério risco de se arrepender futuramente. 

Por quê? 

Lembre-se que na universidade você se formará para ser um profissional ou especialista de uma área. Para isso, deverá estudar muitas coisas de forma aprofundada; coisa que não acontece quando está na escola básica. Por exemplo, se você não gosta de Exatas, e escolhe o curso menos concorrido dessa área só porque estava mais “fácil” de ingressar, a chance de desistir do curso ou não conseguir se formar é muito grande, pois não terá motivação suficiente para continuar a estudar um assunto que não gosta.

Claro que existem casos raros de uma pessoa acabar gostando da área depois de ingressar e se tornar um(a) ótimo(a) profissional. Mas, são exceções. Portanto, sempre pense bem no seu perfil vocacional antes de qualquer escolha.

  1. Escolher o curso porque seus pais querem

Este item é polêmico. Mas, eu preciso dar o meu ponto de vista. Lembre-se que quem vai fazer o curso é você e não seus pais. Imagine ficar quatro a cinco anos da sua vida, até mais dependendo do curso, estudando algo que não gosta. Se tiver a felicidade de poder escolher o mesmo curso que seus pais esperam de você, ótimo. Mas, como lidar quando você realmente não tem vocação para aquele curso?

Imagine que você seja uma pessoa que não tem muita afinidade para ter contato com as pessoas e vai estudar Medicina ou Enfermagem, por exemplo, só porque era o desejo de seus responsáveis. No melhor dos casos, você pode até se tornar um(a) médico(a), mas é bem provável que será um(a) profissional frustrado(a). Sabe aqueles profissionais que trabalham de má vontade? Pois é, você quer se tornar mais um deles?

  1. Escolher o curso pelo salário

Ok, escolher uma carreira porque ela tem futuro no mercado é uma coisa. Porém, escolher um curso porque ele está pagando bem hoje, também é um grande erro. Mesmo porque o mercado é muito dinâmico e versátil.

Dependendo de como estiver a economia, ou com o avanço tecnológico, algumas profissões podem sofrer uma baixa requisição. Por isso, é mais importante você se preocupar em ser um(a) profissional multidisciplinar. Por exemplo, você pode se formar como um físico ou matemático, aprender a programar em alguma linguagem de programação, e trabalhar como analista de modelos em uma empresa como o booking.com. Para quem conhece o Nerdcast, tem um dos convidados regulares chamado Caio Gomes, que fez exatamente essa trajetória.

Outro exemplo é: você imaginaria um psicólogo trabalhando fora do consultório?

Pois é, empresas como o Google ou Facebook também contratam pesquisadores na área de Psicologia para estudar comportamentos em redes sociais, por exemplo. É o caso do André Souza, também participante regular do Nerdcast. Ele ficou conhecido também por ter sido entrevistado pelo programa Fantástico, da Globo, como podem conferir nesta matéria, com uma história de vida muito interessante. Inclusive, o André também é outro exemplo de formação multidisciplinar: ele fez graduação na área de Letras, mas se especializou em Psicologia Cognitiva na pós-graduação.

Se vocês quiserem saber um pouco sobre a experiência desses dois profissionais, recomendo três episódios do nerdcast:

Nerdcast 475: Profissão Cientista

Nerdcast 732: Morando fora do Brasil

Nerdcast 634: Cientistas em empresas de tecnologia (inserido em 09/04/2021)

Resumindo, a sua formação não necessariamente é a que definirá o seu emprego no futuro. Dependendo do seu conhecimento e experiência, você poderá atuar em diferentes profissões que, talvez, nem existam ainda hoje, mas poderá existir no futuro. Eu mesma sou licenciada em matemática, mas trabalhei na área de Produto e Marketing por um tempo em uma empresa de tecnologia educacional.

Claro que é importante ressaltar que, para certas profissões, há um conhecimento técnico mínimo necessário para exercê-la. Por exemplo, um advogado só pode atuar como tal, se cursar a faculdade de Direito e passar no exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Um professor de ensino básico (ensino fundamental e médio) só pode dar aula, se tiver um diploma de Licenciatura* com a habilitação para a disciplina que irá lecionar. 

* Artigo 62 na Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da educação básica que diz o seguinte:

Art. 62. A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal. (BRASIL, 1996)

Vale ressaltar que existe uma Medida Provisória de nº 746 (22 de setembro de 2016) que se transformou na Lei Ordinária Nº 13.415 (16 de fevereiro de 2017) cujo Art. 61, inciso IV, estabelece o seguinte:

Art. 61. IV – profissionais com notório saber reconhecido pelos respectivos sistemas de ensino para ministrar conteúdos de áreas afins à sua formação para atender o disposto no inciso V do caput do art. 36. (BRASIL, 2017)

No caso, o art. 36 dispõe o seguinte:

Art. 36. O currículo do ensino médio será composto pela Base Nacional Comum Curricular e por itinerários formativos específicos, a serem definidos pelos sistemas de ensino, com ênfase nas seguintes áreas de conhecimento ou de atuação profissional: I – linguagens; II – matemática; III – ciências da natureza; IV – ciências humanas; e V – formação técnica e profissional. (BRASIL, 2017)

Ou seja, um profissional reconhecido como de notório saber em uma área técnica, pode dar aula no Ensino Médio APENAS para disciplinas de formação técnica e profissional. Pela LDB de 1996, apenas os profissionais com diploma de Pedagogia e Licenciatura poderiam atuar no Ensino Básico, pois não havia a obrigatoriedade da formação técnica e profissional contemplada no currículo. Com a Lei 13.415, na qual essa formação técnica passou a ser incluída como parte do conteúdo obrigatório, foi aberta uma exceção para a contratação de profissionais com formação de área técnica para lecionar no Ensino Básico. Por exemplo, um Bacharel em Ciências da Computação poderia dar área de Linguagem de Programação assim como um Arquiteto poderia dar aula de Linguagem Arquitetônica.

Portanto, não confunda! Ainda é OBRIGATÓRIO o diploma de Licenciatura para lecionar nas outras áreas básicas do saber. Essa lei não extinguiu essa obrigatoriedade!

  1. Escolher o curso “do momento”

Este item é quase parecido com o anterior, mas com a diferença de que o curso pode estar em alta por conta de um aquecimento momentâneo do mercado de trabalho. Muito dessa especulação de profissões é divulgada pelas mídias sociais, por isso, é preciso ter bastante cuidado na hora de tomar uma decisão.

Embora todo conhecimento seja válido, escolher cursos com habilitações muito específicas pode te deixar defasado no mercado e te dificultar a encontrar um emprego, caso essa profissão seja substituída ou possa ser preenchida por outros profissionais com formações em áreas mais abrangentes.

Por exemplo, quando eu cursava o Ensino Médio, no início dos anos 2000, um curso da moda era de webdesign. Mas, todos nós sabemos o quanto o mercado de internet e tecnologia muda muito rápido. Sendo assim, um profissional que se habilitou só para fazer webdesign, com ferramentas disponíveis naquela época, rapidamente ficará defasado. Nesse caso, melhor seria fazer um curso de formação mais geral de tecnologia (por exemplo, Ciência da Computação) e, depois, se especializar na área de Design ou UX (User Exeperience) ou experiência de usuário, caso esse seja o seu interesse.

  1. Escolher o curso sem pensar nas perspectivas de futuro

Aqui vocês devem estar pensando:

“Ué, Luzia? Você acabou de dizer que não devo escolher o curso pelo dinheiro e nem pelo que está em alta. Assim você me enlouquece!”.

Calma, vou explicar! rs Neste caso, eu quero dizer que, independente do curso que escolher, você precisa se avaliar e pensar COMO e O QUE gostaria de fazer com essa formação.

É claro que, com pouco mais de 17 anos de idade, essa é uma decisão difícil. Mas, algumas profissões já pressupõem alguns passos para poder atuar no mercado. Por exemplo, se você decidir cursar uma faculdade de Odontologia, para atuar como dentista, precisará adquirir equipamentos, arranjar um local para ser o seu consultório e isso demanda dinheiro.

Se você não tiver um planejamento de como juntar esse dinheiro para começar a sua carreira depois de formado, pode cair numa grande ilusão de futuro próspero assim que terminar o curso. Há também a opção de trabalhar para o serviço público, mas você precisa estar ciente e estar disposto(a) a trabalhar nesse setor. E será que esse curso, com os conhecimentos adquiridos nele, vai te permitir atuar em outras áreas similares? Tente pesquisar a respeito.

Outro exemplo que vai para o lado oposto deste último exemplo é quando o curso te dá uma formação muito generalista. Por exemplo, um economista pode dividir espaço do mercado de trabalho com engenheiros e administradores, dependendo do tipo de vaga e empresa. Obviamente, cada um desses profissionais têm um tipo de campo de atuação como o acadêmico, social, finanças, estratégia de empresas e etc. Dependendo da atuação que você decidir seguir, talvez precise fazer uma especialização correspondente, para ter mais competitividade no mercado de trabalho. Então meu conselho é que sempre pesquise quais são os tipos de trabalho existentes para o profissional que você gostaria de ser no futuro.

Mas, vale ressaltar que, muitas vezes a oportunidade de emprego surge independente da sua formação. Então sempre esteja aberto(a) para aprender. O aprendizado não ocorre apenas na faculdade e tampouco termina nela. É um processo contínuo em sua vida.

Conte aqui nos comentários, quais outras dúvidas você tem em relação à escolha de carreira no vestibular!

Também faço toda essa explicação em formato de vídeo, para aqueles que preferirem. O vídeo estará disponível a partir das 21h.