Como desenvolver o pensamento crítico e as habilidades para entender o mundo?

Publicado em 25/06/2021 por Luzia Kikuchi

Muito se fala sobre a necessidade de “desenvolver o pensamento crítico” para entender melhor o mundo. Na área de Educação, já virou quase que um “bordão” entre os educadores.

Mas, a pergunta que não cala é: como e o que é necessário para desenvolver o pensamento crítico?

Para chegarmos a essa resposta, é importante relembrar o conceito que expus no post anterior, sobre as formas de desenvolver a capacidade de abstração. E um dos requisitos importantes é acumular conhecimentos prévios suficientes, em sua memória de longo prazo. E, para obter esses conhecimentos, é necessário “aguçar” a nossa curiosidade em experimentar coisas novas.

Com tanta fonte de informação abundante, no contexto atual, estimular a curiosidade parece ser um trabalho relativamente fácil. Porém, será que existe uma fonte de informação que seja mais eficaz para o acúmulo de conhecimento a longo prazo?

A resposta mais próxima para essa pergunta foi publicada em um estudo feito por Stanovich e Cunningham (1993), que avaliou as formas mais comuns de se obter conhecimento como: programas de televisão, artigos de revistas e matérias de jornais. Dentre essas fontes, desejava-se analisar qual ou quais delas eram mais eficazes para manter as informações na memória de longo prazo e influenciar positivamente o desenvolvimento cognitivo. E a conclusão é que a leitura de informações escritas parecem ser mais eficazes do que a exposição a vídeos.

No entanto, um estudo que foi publicado três anos depois por pesquisadores da Universidade de Syracuse e da Hamilton College, ambas localizadas em Nova York, tentou verificar se vídeos são realmente ineficazes para o acúmulo de conhecimento a longo prazo e também no desenvolvimento cognitivo, como apontado em 1993 pelo estudo de Stanovich e Cunningham.

Os resultados encontrados são interessantes. Aparentemente, a aquisição de conhecimento cultural pode estar ligado ao tipo de conteúdo audiovisual que os participantes foram expostos. Por exemplo, programas de cunho educativo parecem ter tanta eficácia quanto a leitura de materiais escritos. Embora assistir a vídeos seja um esforço cognitivo menor comparada à atividade de leitura, caso o estudante esteja engajado em aprender com o material do vídeo, ele pode ser tão eficaz quanto realizar uma leitura (então assista a mais vídeos do “Como Aprender?” 😉 – o vídeo de hoje estará disponível às 21h ).

Por outro lado, este estudo também confirmou, o que já tinha sido apontado pelo estudo de 1993, que pessoas que assistem mais a desenhos animados ou programas de entretenimento acabam se envolvendo menos com atividades educativas, incluso a leitura, sendo menos estimuladas para desenvolver as suas habilidades cognitivas.

Daniel Willingham, no capítulo 2 do seu livro “Por que os alunos não gostam da escola?”, compilou algumas informações importantes sobre como desenvolver o pensamento crítico, que vou enumerar em tópicos:

  1. É melhor ter conhecimento superficial do que nenhum conhecimento
  2. Para ter um pensamento crítico, é necessário ter uma base de conhecimento prévio
  3. Adquira o hábito de ler
  4. Encontrar um material que faça sentido para você
  1.  É melhor ter conhecimento superficial do que nenhum conhecimento

Uma vez, estava assistindo a um episódio do “Masterchef Brasil: a Revanche” e um dos participantes, Helton Oliveira, que era um dos nomes promissores para concorrer ao prêmio, acabou sendo eliminado numa prova contra o Vitor Bourguignon.

Embora seja inegável que Helton, apesar da pouca idade, tem um talento nato comparado ao Vitor, o último acabou vencendo pela experiência e conhecimento que tinha sobre cozinha.

Em uma das eliminações, a chefe, Paola Carosella disse ao Helton que, apesar de sua habilidade, era necessário estudar e ter mais conhecimento para se tornar um chefe de cozinha respeitável. Se quiser ler o que ela disse na íntegra, tem esta matéria aqui.

O motivo de eu ter citado essa passagem do Masterchef Brasil tem tudo a ver com o que Willingham citou em seu livro: “ter conhecimento superficial é melhor que não ter nenhum”. Na fatídica competição, Vitor tinha mais conhecimento de técnicas de cozinha do que Helton naquele momento. E isso acabou tornando-se uma vantagem em momentos cruciais. Se você assistir às duas temporadas que Helton participou, em muitos momentos, ele hesitou em como preparar um prato por não conhecer a nomenclatura de alguns deles ou de técnicas de preparo. Obviamente, isso não desmerece o talento do garoto, mas ficou evidente que somente o talento não é suficiente. É necessário ter também o conhecimento.

  1. Para ter um pensamento crítico, é necessário ter uma base de conhecimento prévio

Pensar criticamente sobre um assunto no qual não se sabe absolutamente nada, é quase impossível. Por isso, antes de mais nada, é necessário preencher a sua “biblioteca de conhecimentos”. Antes de pensar em adquirir habilidades, estude sobre o assunto, pratique, mas sempre busque por mais referências e outras fontes. Por mais que no início seja muito difícil ter uma opinião a respeito de algum assunto, quanto mais você estudar a respeito dele, mais será capaz de opinar criticamente no futuro. Lembrando sempre de tentar consultar fontes confiáveis (livros escritos por especialistas, portais especializados, periódicos científicos, etc.) e não acreditar apenas em opinião baseada no “achismo” de algumas pessoas, que nem se certificaram em profundidade ou veracidade sobre um assunto.

  1. Adquira o hábito de ler

Mesmo que você não seja ainda um leitor ávido ou uma leitora ávida, comece aos poucos. No post anterior, dei dicas de como adquirir o hábito de leitura e aplicativos que podem se adaptar às diferentes necessidades, para que você possa aos poucos desenvolver o seu ritmo de leitura.

E lembre-se que o livro não precisa ser chato para ser útil. Você precisa encontrar aquele que se adapta ao seu estilo. Conforme você desenvolver o hábito, será capaz de expandir para diferentes estilos de escrita. Novamente, o hábito se desenvolve aos poucos, como já dizia Charles Duhigg em seu livro “O Poder do Hábito”.

  1. Encontrar um material que faça sentido para você

Todo mundo já se deparou com algum assunto que se interessa mais e outros menos. E não tem problema em ser assim. O que precisamos encontrar, muitas vezes, é o melhor “canal” para aprender certos tipos de assuntos. Por exemplo, por que é muito mais fácil lembrar-se de uma situação engraçada do que outra sem graça? Mesmo que já esteja cientificamente comprovado que a repetição leva a perfeição, fazer tarefas de forma repetitiva e sem significado é bastante desafiador para manter a motivação. É por isso que existem os jogos educativos, a criação de narrativas e também de desenvolvimento de materiais de forma ativa, para que cada pessoa possa encontrar aquele melhor “canal” para se interessar sobre um assunto e, assim, continuar praticando.

Acredito que quanto mais cedo estimulamos as crianças indo a museus, levando a teatros, cinemas e oferecendo diferentes materiais de leitura, mais cedo elas serão capazes de encontrar o melhor material para buscar o seu conhecimento. O que elas precisam é de diversidade e oportunidade de buscar mais informações e não se limitar apenas a materiais audiovisuais, por exemplo.

Agora, se você já é um adulto e não teve a mesma oportunidade. Não se limite. Experimente. Aprenda algo novo, coloque uma meta de conhecer ou aprender sobre algo que não sabia antes. O conhecimento é cumulativo, então, por menor que seja, ela ajudará a formar novas conexões em seu cérebro e isso ajudará a criar pensamentos mais críticos e também de estimular a criatividade.

Publicado por Luzia Kikuchi

Adora aprender sobre o funcionamento do cérebro para que possa entender certos tipos de comportamentos dos seres humanos e assim poder ajudar a si mesma e também a outras pessoas.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: