Como evitar o plágio no seu trabalho acadêmico?

Publicado em 23/10/20202 por Luzia Kikuchi

Talvez você já tenha ouvido falar sobre algumas discussões sobre plágio no meio artístico, principalmente, no meio musical com acusações de que um artista x copiou o artista y e não está pagando devidamente os direitos autorais, entre outras.

No meio artístico, a consequência mais imediata da constatação de um plágio é o autor tentar reivindicar os seus direitos autorais entrando com um processo na justiça. E isso pode custar uma boa dor de cabeça emocional quanto financeira.

No YouTube, por exemplo, a constatação de um possível plágio e a reinvindicação de direitos autorais pode acontecer de duas formas: 

  1. Abrindo um chamado (ou, nos termos do YouTube, aplicar um strike) no qual o criador de conteúdo, que possivelmente usou o conteúdo sem autorização prévia, pode ter o seu vídeo bloqueado para transmissão na plataforma até que o suposto autor, detentor dos direitos autorais, e o criador de conteúdo entrem em um acordo. Dependendo do número de strikes, o canal pode até ser desativado da plataforma, como ocorreu recentemente com um famoso canal de entretenimento chamado “Rato Borrachudo”, que gerou uma comoção na internet. Felizmente, os dois criadores, tanto aquele que sinalizou com o strike quanto o dono do canal Rato Borrachudo, entraram em um acordo e o canal continuou no ar.
  2. Outra opção é o autor do conteúdo aplicar um chamado de “reinvindicação de direitos autorais”. Nesse caso, o criador que postou o suposto conteúdo protegido por direitos autorais fica impedido de ter os ganhos de monetização com esse vídeo em seu canal e todos os ganhos serão totalmente revertidos em prol do criador original do conteúdo. A vantagem nesse caso é que o vídeo continua no ar e o seu canal não corre o risco de ser excluído da plataforma.

Embora existam muitas controvérsias em relação à forma que o YouTube permite a aplicação dessas reivindicações, principalmente, porque a legislação nos Estados Unidos (onde fica a matriz) e a brasileira compreendem de formas diferentes ao que se entende como utilização justa de material protegido por direitos autorais, na maioria dos casos, existem regras básicas que devem ser seguidas (Lei Federal Nº 9.610/98) para evitar o plágio em seus trabalhos intelectuais, industriais, etc.

E no meio acadêmico? Como ocorre o plágio?

Já no meio acadêmico, o plágio tem consequências “menos graves”, pelo menos em termos econômicos, comparado aos exemplos anteriores que citei. No entanto, em alguns casos, como uma dissertação ou uma tese, ela pode culminar em uma cassação do respectivo título obtido.

O grande problema do plágio no meio acadêmico é que muitas pessoas não têm noção do que pode ser considerado plágio ou não. Isso se agravou ainda mais com o advento da internet e do Google, que acaba facilitando a disseminação de trabalhos com cópias literais de um lugar para o outro. Quem nunca entrou em um blog ou um portal e viu um artigo completamente igual ao outro? No melhor dos casos, o criador do conteúdo referencia de onde retirou o material, mas, em outros, até se perde quem é realmente o criador original daquele texto.

Um exemplo clássico de plágio, que é pouco discutido nas escolas, é quando o professor pede para que o estudante faça uma pesquisa e escreva uma monografia sobre um determinado tema e ele simplesmente copia e cola o texto encontrado na internet, sem citar a fonte. A falta de orientação e advertência nessa fase do ensino básico acaba perpetuando a prática no ensino superior na qual os alunos copiam e colam textos encontrados na internet, sem a devida referência, e apresentam como se fossem dissertações suas. Na minha experiência com alunos de graduação, toda vez que encontrava algo desse tipo nos trabalhos dos meus alunos, sempre fiz uma ação educativa de anular o trabalho feito e solicitar a apresentação de um novo, com as devidas orientações de como fazer corretamente as citações.

Contudo, existe um outro tipo de plágio que é feito de forma inocente: reescrever as ideias de outro autor, mas sem fazer a devida citação da fonte. Esse tipo de prática é mais comum do que se imagina e muitos nem imaginam que estão cometendo uma ilegalidade nesse caso. Obviamente, em termos de gravidade, comparado com o primeiro exemplo, na qual a reprodução é feita de forma ativa, a segunda pode ter nuances. Porém, não deixa de ser grave. E é aqui que eu pretendo deixar algumas dicas para evitar esse tipo de “deslize”.

Dica 1: Sempre anote as referências completas em um documento

O processo de escrita nem sempre é linear, ainda mais quando se trata de trabalhos longos como um TCC, dissertação ou tese. Até mesmo de artigos científicos que, muitas vezes, são resultados de estudos muito longos. Normalmente, vamos escrevendo aos poucos e retomamos em dias subsequentes.

Por isso, é importante manter o registro de todas as suas referências utilizadas em um documento, para que eles sejam devidamente incorporados no final do trabalho. Além disso, quando for parafrasear a ideia de um autor, anote imediatamente, dentro dos parênteses, de onde aquele dado foi retirado, se possível, com o número da página para futura consulta.

Segundo as normas da ABNT, a citação com o número da página só é necessária quando o trecho foi retirado de forma literal. Porém, para efeitos de consulta, pelo menos enquanto estiver escrevendo o texto, é recomendável deixar anotado o número da página para saber se a ideia foi realmente reescrita ou está citada de forma literal.

No Word, pelo menos na versão 15 para Mac, existe um recurso chamado “citações” que permite a gravação das referências completas usadas em seu texto e, assim, poder ser rapidamente utilizado sem a necessidade de consultá-lo manualmente toda vez que for precisar.

Eu confesso que, pessoalmente, não utilizo esse recurso e ainda prefiro fazer manualmente, pois, ele tem a desvantagem de colocar automaticamente, no final do documento, as referências completas utilizadas. E, no caso de trabalhos muito longos, prefiro separar os capítulos por arquivo, do que ter todo texto num único documento.

Recomendo ler o capítulo 4, do livro “The Psychology of Effective Studying, pois há muitos exemplos de trechos que podem ser considerados plágios.

Dica 2: Planeje tempo suficiente para ler, escrever e revisar o seu texto

Segundo o livro “The Psychology of Effective Studying” do professor Paul Penn, da Universidade de East London, uma das principais causas do plágio acadêmico inocente é a procrastinação. Isto é, se você deixa o seu trabalho para última hora, não terá tempo suficiente para ler e anotar as referências de forma cuidadosa para serem citadas no seu texto e, depois, para revisá-lo adequadamente antes de entregá-lo.

Por isso, sempre planeje bem a prioridade de suas tarefas. Em um vídeo anterior, eu dei 5 erros mais comuns sobre produtividade e nela citei o erro número 1, que é não dar prioridade a organização. Eu mesma cometi esse erro muitos anos atrás, quando deixava os textos e as referências desorganizadas e espalhadas no meu computador ou em vários pendrives. Com isso, tinha muita dificuldade para encontrar determinado trecho de um material e aquilo acabava tornava-se inutilizado. Ou seja, para poder fazer uma revisão mais eficiente, você precisa ter o seu material organizado. Caso contrário, precisará de um tempo muito maior para revisar o seu texto.

Dica 3: Tente consultar os materiais originais

Nas normas ABNT, há um recurso que se usa a “citação da citação” que é representado pela palavra em latim apud. No entanto, esse recurso deve ser evitado na medida do possível, para que uma ideia original não seja distorcida. Não usar a citação original deve ser somente em casos que seja muito difícil encontrar a fonte original do material (ex.: materiais disponíveis apenas fisicamente, muito antigos ou em idioma inacessível, etc.).

Com essas dicas, você estará menos suscetível a cair no problema do plágio nos seus trabalhos daqui em diante.

Como priorizar tarefas e ser mais produtivo?

Publicado em 16/10/2020 por Luzia Kikuchi

Confesso a vocês que eu tenho um problema: sou uma “maníaca” por otimização e “algoritmização” até de tarefas muito simples como lavar a louça. No caso desse afazer doméstico em específico, eu gosto de separar todas as louças nas seguintes categorias: copos e xícaras; tigelas e vasilhas pequenas; pratos; panelas e talheres. Nesta última ainda há uma subdivisão: facas, garfos, colheres e outros.

Fica mais ou menos assim as louças organizadas antes de eu lavar.

E qual seria a ordem prática de tomar um tempinho para organizar as louças em categorias? Para mim, tem uma razão simples: sensação de progresso. Quando você olha para aquela pilha de louças em cima da pia, dá uma sensação de que o trabalho levará uma eternidade para ser completa. Mas, quando começa a separar a louça em categorias similares e vai colocando uma ordem, logo irá perceber que aquele “amontoado” era só um volume e, na verdade, a pilha de louças que realmente precisa ser lavada é muito menor do que parecia inicialmente.

E, na vida, muitas coisas funcionam dessa forma. Quando você tem um grande problema, parece ser impossível de ser solucionado. Mas, se começar a separá-lo em pequenas partes e começa a resolver pelo que sabe e pode ser resolvido a curto prazo, quanto menos se espera, terá a solução do problema por completo.

Então, para qualquer tipo de tarefa que tenho para resolver, desde a mais simples até a mais complexa, eu sempre sigo um mantra: “priorizar as mais simples” e depois organizar para resolver as mais complexas. Porém, como podemos classificar uma tarefa como “simples” ou “complexa”?

Bem, essa categorização já é bastante pessoal, mas como eu já apresentei em um post anterior, você precisa domar o seu cérebro “festeiro”. E, basicamente, ele quer recompensas rápidas. Então, se você estiver muito atarefado, tente resolver aquelas que podem ser solucionadas com um pouco mais de agilidade, ou seja, as tarefas simples. Dessa forma, você consegue dar uma recompensa para o seu cérebro “festeiro” e terá uma sensação de progresso na sua lista de afazeres e ter uma noção da complexidade de cada uma das tarefas.

Você e suas tarefas ao fundo.

Porém, resolver apenas tarefas simples têm o seguinte risco: você pode ficar só resolvendo aquilo que é “emergencial” e nunca resolver um problema por completo. No mundo corporativo, costuma-se dizer que “alguém vive de apagar incêndio”, ou seja, de resolver tarefas somente a curto prazo, sem um planejamento meticuloso que ajude a melhorar um processo por completo a longo prazo. O preço disso é um desgaste constante de sempre estar ocupado, mas, curiosamente, sempre estar com a sensação de atraso nas entregas. Por isso, saber categorizar dentro de uma mesma tarefa, o que é mais urgente e o que é mais importante de ser resolvido é crucial. 

Por exemplo, vamos voltar para o exemplo da pia cheia de louças novamente. Imagine que eu tenha que lavar as louças e colocar as roupas para lavar na máquina de lavar. Vamos supor que eu comecei bem: separei as louças em tipos e aquelas que são mais fáceis de lavar, pois não têm gordura ou sujeira difíceis de serem limpadas. Por último, ficaram aquelas panelas cheias de gordura da comida que você preparou no almoço em família. Então eu começo a lavar os copos, alguns pratos que só tinham migalhas de pães. E, de repente, paro. Resolvo ir para a máquina de lavar roupa e colocar todas as roupas sujas dentro dela. 

Porém, se eu colocar as roupas coloridas e brancas todas juntas, elas correm o risco de manchar. Então, eu começo a separar, roupa branca, coloridas, escuras… Mas, daí eu percebo que existem também roupas delicadas que vão estragar se colocadas juntas com outras para “bater” na máquina. O que eu faço? Vou ter que lavá-las na mão. Mas, daí o seu cérebro já começa a doer, a preguiça bate e acaba lembrando que nem terminou de lavar a louça. Mas, quando volta, olha para aquela panela e pratos cheio de gordura e não tem mais ânimo para continuar. Resolve voltar para a máquina de lavar e chega a conclusão inevitável de que não vai conseguir lavar todas as roupas de uma vez só. Por preguiça, resolve colocar tudo na máquina e “seja o que Deus quiser”. Acredita que já “resolveu” pelo menos uma tarefa e vai fazer outra coisa.

Tempo depois, quando a máquina apita ao terminar, chega a conclusão do inevitável: roupas brancas manchadas, outras rasgadas. Você terá que lavá-las novamente, mas do jeito que deveria ter feito desde o começo: separando-as por cores e tipos de tecido. Você perdeu tempo e dinheiro, porque gastou água, sabão, energia e mais a reposição das roupas que estragou. Ou seja, achou que resolveu uma tarefa, mas ela volta novamente a você. E, assim, perpetuando o seu dia com afazeres simples que não se resolvem. (E lembre-se que, nessa situação, ainda não terminou de lavar a louça também).

Você tendo que lavar suas roupas tudo novamente.

Dei essa situação hipotética, que pode até ser “ingênua”, mas, quando se trata de tarefas mais abstratas, é muito comum as pessoas ficarem “patinando” em tarefas e mais tarefas e com a sensação de que nada terminam. Sempre estão com pendências para resolver. E, muitas vezes, parecem estar trabalhando de forma proativa e eficiente, mas, na verdade, estão utilizando tempo e energia da forma errada. Lembre-se: trabalhar o tempo todo não é sinônimo de produtividade. É a qualidade da sua entrega, mesmo que sejam tempos pequenos, como falei no post sobre o método se/então, para evitar procrastinação.

E isso vale para qualquer coisa: dos estudos ao trabalho. Então, ficar passando de uma tarefa para outra, o famoso “multitarefa” é contra produtivo, como demonstrei na tarefa de lavar louça e roupa anteriormente. Então, a melhor forma de organizar o seu tempo é priorizar, dentro de uma mesma tarefa as etapas de resolução: do mais simples ao complexo. E, além disso, você precisa estipular um tempo específico do seu dia para resolver a tarefa por completo.

Por exemplo, você precisa estudar Matemática e História. Mas, matemática você tem facilidade para entender e está com as tarefas em dia, mas precisa praticar com um simulado com questões mais desafiadoras. Já a parte de História, precisa ler, tentar escrever um texto com suas próprias palavras e resolver algumas questões da tarefa. Qual dessas disciplinas você vai estudar primeiro? História ou Matemática?

Se você prefere Matemática, a sua tendência é tentar começar por ela primeiro. O problema é que História está com mais pendências que Matemática. Então começo por História e deixo de lado o simulado de Matemática? Errado também. O que você precisa estipular é o tempo adequado para cada uma. Você está bem em Matemática, mas precisa continuar praticando, mas talvez não precise ficar praticando muitos exercícios, fazer alguns de níveis diferentes já é suficiente (eu já disse nesse post, sobre a importância da prática intervalada nos estudos). Terminou de estudar Matemática? Ótimo! Agora vá para a disciplina de História, depois de um intervalo.

Comece resolvendo a leitura e tente responder algumas questões sobre o texto. Veja quantos acertou ou errou e pare. Deixe descansar, volte no dia seguinte e tente começar a revisar por aquelas que errou no dia anterior. Dependendo do seu desempenho nas questões, você pode também tentar escrever um texto sobre o assunto, só com o que você tem em sua memória. Assim, você vai saber se lembra de informações o suficiente e saber o que revisar. 

Depois que já conseguiu compensar uma parte do atraso de História e obteve algum progresso, volte para a Matemática, siga fazendo o simulado com mais alguns exercícios. Eventualmente, se você estudou um pouco menos de horas no dia anterior para Matemática para estudar História, então, a partir do momento que as disciplinas estão em dia, você pode dar um pouco mais de atenção na primeira que estudou menos horas. E assim por diante.

Conseguiu captar mais ou menos a ideia?

E dentro dessas suas tarefas, sempre coloque um tempo de descanso. Seja para tomar um café ou fazer alguma atividade de lazer que goste. O importante é que você resolva uma tarefa de cada vez, mas sempre se dê uma recompensa para que o seu cérebro continue motivado a concluir suas tarefas.

Pausas são importantes para continuar a ser produtivo.

Uma sugestão para manter uma prioridade de tarefas é ter um organizador de tarefas no alcance da sua visão. Neste post eu dei várias opções como sugestão para serem utilizadas.

E se você tem dificuldades para manter-se concentrado ou concentrada, então recomendo ler este post. E para manter metas de longo prazo, também dei 5 dicas de como organizar o seu planejamento para concluir objetivos de longo prazo.

Então? Essas dicas te ajudaram? Conte nos comentários se você tem alguma técnica para priorizar tarefas do seu dia a dia que dê resultado.

No vídeo, eu compilei essas ideias classificando-os em 5 erros que muita gente faz achando que está sendo mais produtivo.

Como ensinar plano cartesiano: entendendo algumas origens históricas

Publicado em 09/10/2020 por Luzia Kikuchi

Plano cartesiano é um dos primeiros conceitos de Geometria Analítica que aparecem em livros didáticos de Matemática. Normalmente, ele é trabalhado nos anos finais, entre 8º e 9º ano do Ensino Fundamental.

No post sobre arte e lógica, eu havia comentado que o nonogram poderia ser uma ótima forma de introduzir o conceito de plano cartesiano para os estudantes. Além dele, citei também as planilhas do Excel, diagramas de ponto cruz, batalha naval entre outros, que você pode consultar nesse mesmo post.

Porém, é preciso esclarecer que, trabalhar com essas soluções didáticas seria para reforçar o conceito de coordenadas, que costuma ser a dúvida de muitos estudantes. Afinal de contas, não é fácil compreender por que o eixo x chama-se abscissa e o eixo y de ordenada ou por que na notação de coordenada começa-se sempre pelo eixo horizontal e não pelo vertical.

Muitas vezes, as atividades envolvendo plano cartesiano limitam-se a apresentar muitas notações algébricas e interpretação de gráficos, mas com poucas atividades lúdicas de transição para ajudar na compreensão dos conceitos. E ensinar apenas as notações, sem um mínimo de contextualização, só reforça o estereótipo de que a matemática é muito arbitrária* e que é dependente de intensa memorização de conceitos.

* a palavra “arbitrária” pode ter diversos sentidos, mas aqui estou utilizando com o significado de que segue uma norma própria estabelecida por outra pessoa e não tem fundamentação lógica.

Podemos dizer que, em partes, a Matemática é apresentada dessa forma por conta do processo de didatização desses conteúdos que foram escolhidos para serem ensinados nos livros escolares. Isto é, inicialmente, parecia ser “mais fácil” trabalhar apenas com o produto final das notações, por meio de algoritmos, sem considerar todo o processo envolvido na construção do plano cartesiano. Porém, isso teve um preço: uma imensa quantidade de alunos que não compreendem os conceitos de coordenadas, equações, gráficos e funções. Isso não afeta apenas a compreensão dos tópicos em Matemática, mas como de outras áreas afins como Física e Química, principalmente.

Porém, mudar esse processo didático também não é uma tarefa tão simples, pois é necessário recorrer a conhecimentos de história da Matemática e também de tempo e disponibilidade para trabalhar com tarefas que ajudem a construir o conceito de plano cartesiano contextualizado à realidade atual do aluno. Neste post, darei algumas sugestões de como fazer isso.

De onde vem o conceito de plano cartesiano?

O crédito pela notação do sistema cartesiano, é dado a René Descartes, filósofo e matemático francês, do século XVII. Inclusive o plano cartesiano deriva de seu nome. 

Embora Descartes tenha sido responsável por unir a Álgebra com a Geometria, fazendo nascer assim o conceito de Geometria Analítica como conhecemos hoje, segundo o livro “História da Matemática: uma visão crítica, desfazendo mitos e lendas” de Tatiana Roque, alguns registros históricos mostram que as ideias primitivas de plano cartesiano podem ser vistas no trabalho de Nicolas Oresme, no século XIV. No entanto, diferente do sistema cartesiano, os diagramas feitos por Oresme não apresentam uma correlação algébrica para sua interpretação, ainda que essas representações trabalhassem, de certa forma, com grandezas envolvendo movimento (ROQUE, 2012). E essa interpretação de Oresme é uma consequência do pensamento pertencente à época, na qual a grandeza era vista de forma qualitativa e não quantitativa. Desse modo, segundo Tatiana Roque, o pensamento de Oresme também envolve uma questão filosófica que vai muito além de trabalhar apenas com grandezas da forma como vemos em Física ou em Matemática, nos dias de hoje.

De onde surgiram os nomes coordenadas, abscissa e ordenadas?

Essas nomenclaturas não foram definidas por Descartes, mas por Leibniz em 1692, segundo o livro de Howard Eves: “Introdução à História da Matemática”. Quanto ao significado das palavras abscissa ordenada já é um pouco mais difícil de remontar a origem do significado, já que nos livros de história da matemática que consultei, quase não há alguma menção nesse mérito.

No entanto, a explicação mais próxima que encontrei para compreender o significado dessas palavras foi procurando a etimologia* delas. Muito provavelmente, vem do Latim, sendo que abscissa significa “parte de uma linha” na qual nomeamos o eixo na horizontal. Já a ordenada algo próximo a “linhas empilhadas” que corresponde ao eixo na vertical. Verificando o significado dessas palavras em latim, esses nomes começam a fazer um pouco mais de sentido.

*etimologia é uma área da gramática que estuda a origem das palavras.

E por que abscissa também é chamada de eixo x e ordenada de eixo y?

Bom, isso já se deve à forma como Descartes deu nome aos valores desconhecidos de uma equação com as últimas letras do alfabeto (x, y, z). E como uma de suas propostas era transformar operações algébricas para linguagem geométrica, muito provavelmente esse deve ser o fator que influenciou a convenção da nomenclatura para coordenadas (x, y). Não vou entrar no mérito da demonstração que Descartes fez em seu livro La géométrie, mas, se vocês quiserem ler mais a respeito, recomendo consultar o livro “História da Matemática” de Carl Boyer.

Por que a letra x é frequentemente usada para representar valores desconhecidos?

Descartes também foi o responsável por sistematizar as últimas letras do alfabeto para representar as variáveis ou valores desconhecidos em Matemática. Porém, essa sistematização parece vir muito mais do acaso do que uma escolha deliberada por parte do matemático.

Segundo o livro “Unknown Quantity: a real and imaginary History of Algebra” de John Derbyshire, há uma menção de um trecho do livro “Classic Math”, escrito por Art Johnson, sobre o motivo pelo qual a letra é comumente usada para representar variáveis ou valores desconhecidos. Segundo Art Johnson, quando Descartes enviou o seu manuscrito de La géométrie para impressão, a impressora estava com limitação para imprimir as últimas letras do alfabeto: xy e z. O editor então perguntou a Descartes se haveria qualquer problema em substituir algumas daquelas letras que ele havia usado para representar os valores desconhecidos em suas equações. O matemático respondeu que não e, assim, o editor optou por substituir boa parte dos valores desconhecidos por já que as letras e zsão mais usadas no vocabulário francês do que a letra x. E assim, a letra x tornou-se padrão para representar um valor desconhecido.

Compreendendo inicialmente essa parte histórica da matemática, principalmente, em relação às nomenclaturas, agora vamos para a sugestão de algumas atividades que podem ser feitas como forma de aproximar o contexto do uso de coordenadas na vida real.

Uso de mapas para localização de pontos

No cotidiano, o principal uso de coordenadas está na forma de se localizar em um mapa. Antigamente, para consultar um endereço em um mapa impresso, era necessário utilizar um conhecimento de coordenadas no qual o endereço era localizado em uma coordenada, formada por uma letra e número, para ser consultado em uma determinada página do mapa. Essa era uma forma de contextualizar um conceito de coordenadas para os estudantes na prática. No entanto, já nos dias de hoje, com modernos sistemas de mapas digitais, esse exemplo se tornou arcaico e poucos estudantes podem entender essa tentativa de contextualização, que pode ser tão longe quanto um problema fictício apresentado em um livro didático.

Porém, outra forma de construir esse contexto seria motivar os estudantes a construir os próprios mapas para caminhos relativamente familiares, por exemplo, como o trajeto feito todo dia da casa para a escola ou vice-versa. E essa foi uma das atividades propostas na tese de doutorado de Afrânio Austregésilo Thiel, defendida na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2013.

A atividade em questão foi proposta para uma turma de 9º ano do Ensino Fundamental para introduzir o conceito de plano cartesiano aos alunos. O objetivo principal dessa atividade é familiarizar o estudante com diferentes tipos de representações de uma localização: seja por desenhos, por linguagem natural (a escrita) para posteriormente apresentar uma nova possibilidade como gráficos e notações algébricas.

Um exemplo dessa representação seria algo desse tipo:

Exemplo de um mapa fictício representando o caminho de casa até a escola por desenhos.
Crédito da imagem: desenho próprio.

Se o estudante fosse explicar esse trajeto em linguagem natural, poderia ser algo desse tipo:

“Para chegar da minha casa até a escola, é preciso chegar até a primeira esquina, virar à direita e em seguida à esquerda”.

Obviamente, esse recurso linguístico pode variar de aluno para aluno, de acordo com representações do próprio mapa.

Posteriormente, é possível imprimir um mapa local em uma folha quadriculada e pedir para que os estudantes localizem a sua casa e a escola com uma marcação X de cores diferentes. Depois, orientando-se pelas retas da própria malha quadriculada, construir duas retas que têm um ponto em comum e que formam um ângulo de 90º (perpendicular). Essas retas perpendiculares entre si serviriam como eixo de referência para medir as respectivas distâncias entre um ponto e outro marcado no mapa, iniciando uma orientação de plano cartesiano.

Exemplo de um mapa impresso numa folha quadriculada.
Créditos: Google Maps.

No próximo passo, é importante que os estudantes façam a discussão entre eles para resolver qual seria a melhor forma de fazer as marcações nesse eixo construído como referência para poder medir a distância a partir dele.

Se você quiser continuar a ver os próximos passos das atividades, que é bastante extenso, recomendo ler diretamente na tese de Thiel (2013).

Essas são algumas formas de introduzir o conceito de plano cartesiano, sem necessariamente recorrer diretamente na representação formal do plano, das representações gráficas e da linguagem algébrica. Esses dois últimos em especial, é a forma como costumeiramente é apresentada nos livros didáticos, mas, para quem já teve a experiência de dar aula sobre esse conteúdo, nem sempre é frutífera. Por isso, mais do que o resultado imediato em si, enquanto professor, é importante apresentar outros métodos. 

Alguns estudantes poderão estar mais interessados na parte histórica e talvez queiram ler mais sobre a história de Descartes, outros já poderão ficar interessados em estudar cartografia e suas relações. Poderão ter ainda aqueles que pensem em encontrar soluções digitais para construção de mapas entre outras. O aprendizado se dá por estímulos diversos, por isso, é importante apresentar opções e respeitar as preferências pessoais. Além disso, a aprendizagem não ocorre necessariamente focando apenas na memorização de conteúdos, mas no processo de saber utilizar melhor as suas competências e habilidades para lidar com problemas do dia a dia.

Como memorizar usando o palácio da memória – ela é realmente eficaz para o aprendizado? 

Publicado em 02/10/2020 por Luzia Kikuchi

Quem já assistiu o seriado Sherlock já deve ter visto as icônicas formas que o famoso detetive usa para reconstruir as suas lembranças da cena de um crime. E esse método é chamado de palácio da memória.

Embora Sherlock Holmes seja um personagem fictício criado por Arthur Conan Doyle, o método realmente existe e se trata de uma técnica utilizada na Grécia Antiga* chamada Método de Loci ou técnica da mnemônica.

*Para consultar mais informações sobre o assunto, procure o livro do historiador Frances A. Yates “The art of memory” (A arte da memória) cujo original data de 1966 pela Routledge, mas foi reimpresso por outras editoras posteriormente.

Mesmo não conhecendo a palavra “mnemônica”, talvez, pela descrição da técnica, você já deve ter utilizado em algum momento de sua vida, pois ela consiste em criar ou associar imagens para memorizar certas informações. No livro de Frances Yates (1966), é explicado que os gregos utilizavam com bastante frequência tal recurso para contar histórias. Isto é, ao contar uma história, você cria imagens e cenários dentro de sua mente, organizando-os de uma forma lógica as informações mais importantes para poder lembrar e recontar a outra pessoa.

E essa técnica parece ser bastante eficiente para aprender o vocabulário de um novo idioma ou até mesmo para compreender informações de um texto.

E como funciona na prática?

Além das imagens, você pode também criar associações de palavras-chave. Por exemplo, imagine que você tenha que memorizar algumas expressões em Espanhol, sendo um falante nativo do idioma Português. Darei dois exemplos: “sacapuntas” (apontador) e paraguas (guarda-chuva).

Veja como associar essas duas palavras:

– A função do apontador é sacar (tirar) a ponta velha do lápis;

– O guarda-chuva “para a água” que cai do céu em cima da sua cabeça.

Porém, existem outras palavras que já não são tão simples de fazer tais associações. Veja como exemplo “tenedor” (garfo) e “cuchillo” (faca). Para esses dois casos, exige-se um pouco mais de criatividade.

A forma como criei o meu palácio da memória para esses dois objetos foi o seguinte:

– Quando penso em garfo, vem o formato de um tridente em minha mente. Depois, o tridente me lembra o objeto carregado pela imagem do diabo. Normalmente, quando você vê a imagem do diabo, relaciona-se com medo ou temor*. Finalmente, aquele objeto carregado por alguém que me causa temor é tenedor.

* Obviamente, temor também tem outro sentido de profundo respeito e obediência, que é exatamente ao contrário. Por isso, é necessário criar o sentido que seja mais imediato para a sua mente.

– Já no caso da faca, por alguma razão, “cuchillo” me lembra “cutícula”, que é igualmente um objeto cortante para cortar unhas. E, na minha mente, ao lembrar de faca, normalmente faço o gesto de cortar um objeto segurando-o na mão (por exemplo, um pão), e cutícula usa-se na mão, dessa forma lembro-me que é faca.

Veja que essas associações funcionam como “gatilhos” mentais para lembrar-se das palavras-chave. Mas, elas só fazem sentido no contexto de minhas memórias. Talvez, se você repetir o mesmo repertório, não vai funcionar tão bem quanto para mim.

E é aí que está o pequeno problema no uso de mnemônicos: quando se faz uma associação direta como nos dois primeiros exemplos dados (apontador e guarda-chuva), eles parecem ser suficientemente eficazes para outras pessoas repetirem e dificilmente você esquecerá da associação também. Já no caso de “garfo” e “faca” o caminho percorrido para chegar nessa imagem é um pouco mais longo. Dessa forma, além de ser difícil de ser replicado por outra pessoa que vive num contexto diferente do meu, também há uma chance de eu também esquecer o caminho para resgatar essas associações.

E essas constatações foram demonstradas por diversos estudos de mnemônica relatados no artigo de 2013 de John Dunlosky e outros, que já citei em posts anteriores. Como o artigo é bastante extenso, o próprio autor informa que você pode pular diretamente no item de seu interesse que não haverá comprometimento para entender o estudo. A seção correspondente a mnemônica está no item 5 “Keyword mnemonic”. Nessa seção, há um gráfico comparativo demonstrando que a técnica de criar a palavra-chave mnemônica demonstrando que ela não é a mais eficaz para retenção de informações a longo prazo. Por outro lado, o uso da repetição teria sido muito mais eficaz para memorização das palavras. O que faz um certo sentido quando pensamos no contexto de idiomas.

Existe também outro estudo feito em 2012 pelos pesquisadores Eric Legge e outros, da Universidade de Alberta, que compararam a eficácia da memorização de palavras novas utilizando um “palácio da memória virtual”, por meio de um software que auxilia na criação de cenários. Da mesma forma como constatado no estudo de Dunlosky, o estudo trouxe que os participantes tiveram dificuldades para reter os dados na mesma ordem e até se atrapalharam em associar as respectivas imagens criadas no “palácio da memória virtual” com as palavras que deveriam memorizar.

Qual o veredito?

Se você está na dúvida se a técnica mnemônica ou palácio da memória é realmente eficaz para memorizar informações, a resposta de acordo com esses estudos é que ela depende da intensidade e frequência que você utilizará esse método. É semelhante à eficácia dos mapas mentais, que expliquei em posts anteriores. Ou seja, se você treinar o seu cérebro apoiando-se nessa técnica, provavelmente, terá um benefício a longo prazo de melhorar a retenção de informações de sua memória. Porém, de nada adianta usar essa técnica pontualmente e não a exercitar continuamente. Isso demonstra que, para um aprendizado de longo prazo, é preciso reforçar o processo apoiando-se em diversas técnicas de estudo para ajudar na retenção das informações a longo prazo. Para ter uma ideia de quais técnicas de estudo existem, você pode consultar este artigo de 2006 de Martin Eppler.

Então, se você quiser ter uma memória extraordinária que nem a do Sherlock Holmes, o jeito é começar praticando! rs

Veja também o vídeo no qual expliquei os exemplos dos mnemônicos com esquemas gráficos.