Como priorizar tarefas e ser mais produtivo?

Publicado em 16/10/2020 por Luzia Kikuchi

Confesso a vocês que eu tenho um problema: sou uma “maníaca” por otimização e “algoritmização” até de tarefas muito simples como lavar a louça. No caso desse afazer doméstico em específico, eu gosto de separar todas as louças nas seguintes categorias: copos e xícaras; tigelas e vasilhas pequenas; pratos; panelas e talheres. Nesta última ainda há uma subdivisão: facas, garfos, colheres e outros.

Fica mais ou menos assim as louças organizadas antes de eu lavar.

E qual seria a ordem prática de tomar um tempinho para organizar as louças em categorias? Para mim, tem uma razão simples: sensação de progresso. Quando você olha para aquela pilha de louças em cima da pia, dá uma sensação de que o trabalho levará uma eternidade para ser completa. Mas, quando começa a separar a louça em categorias similares e vai colocando uma ordem, logo irá perceber que aquele “amontoado” era só um volume e, na verdade, a pilha de louças que realmente precisa ser lavada é muito menor do que parecia inicialmente.

E, na vida, muitas coisas funcionam dessa forma. Quando você tem um grande problema, parece ser impossível de ser solucionado. Mas, se começar a separá-lo em pequenas partes e começa a resolver pelo que sabe e pode ser resolvido a curto prazo, quanto menos se espera, terá a solução do problema por completo.

Então, para qualquer tipo de tarefa que tenho para resolver, desde a mais simples até a mais complexa, eu sempre sigo um mantra: “priorizar as mais simples” e depois organizar para resolver as mais complexas. Porém, como podemos classificar uma tarefa como “simples” ou “complexa”?

Bem, essa categorização já é bastante pessoal, mas como eu já apresentei em um post anterior, você precisa domar o seu cérebro “festeiro”. E, basicamente, ele quer recompensas rápidas. Então, se você estiver muito atarefado, tente resolver aquelas que podem ser solucionadas com um pouco mais de agilidade, ou seja, as tarefas simples. Dessa forma, você consegue dar uma recompensa para o seu cérebro “festeiro” e terá uma sensação de progresso na sua lista de afazeres e ter uma noção da complexidade de cada uma das tarefas.

Você e suas tarefas ao fundo.

Porém, resolver apenas tarefas simples têm o seguinte risco: você pode ficar só resolvendo aquilo que é “emergencial” e nunca resolver um problema por completo. No mundo corporativo, costuma-se dizer que “alguém vive de apagar incêndio”, ou seja, de resolver tarefas somente a curto prazo, sem um planejamento meticuloso que ajude a melhorar um processo por completo a longo prazo. O preço disso é um desgaste constante de sempre estar ocupado, mas, curiosamente, sempre estar com a sensação de atraso nas entregas. Por isso, saber categorizar dentro de uma mesma tarefa, o que é mais urgente e o que é mais importante de ser resolvido é crucial. 

Por exemplo, vamos voltar para o exemplo da pia cheia de louças novamente. Imagine que eu tenha que lavar as louças e colocar as roupas para lavar na máquina de lavar. Vamos supor que eu comecei bem: separei as louças em tipos e aquelas que são mais fáceis de lavar, pois não têm gordura ou sujeira difíceis de serem limpadas. Por último, ficaram aquelas panelas cheias de gordura da comida que você preparou no almoço em família. Então eu começo a lavar os copos, alguns pratos que só tinham migalhas de pães. E, de repente, paro. Resolvo ir para a máquina de lavar roupa e colocar todas as roupas sujas dentro dela. 

Porém, se eu colocar as roupas coloridas e brancas todas juntas, elas correm o risco de manchar. Então, eu começo a separar, roupa branca, coloridas, escuras… Mas, daí eu percebo que existem também roupas delicadas que vão estragar se colocadas juntas com outras para “bater” na máquina. O que eu faço? Vou ter que lavá-las na mão. Mas, daí o seu cérebro já começa a doer, a preguiça bate e acaba lembrando que nem terminou de lavar a louça. Mas, quando volta, olha para aquela panela e pratos cheio de gordura e não tem mais ânimo para continuar. Resolve voltar para a máquina de lavar e chega a conclusão inevitável de que não vai conseguir lavar todas as roupas de uma vez só. Por preguiça, resolve colocar tudo na máquina e “seja o que Deus quiser”. Acredita que já “resolveu” pelo menos uma tarefa e vai fazer outra coisa.

Tempo depois, quando a máquina apita ao terminar, chega a conclusão do inevitável: roupas brancas manchadas, outras rasgadas. Você terá que lavá-las novamente, mas do jeito que deveria ter feito desde o começo: separando-as por cores e tipos de tecido. Você perdeu tempo e dinheiro, porque gastou água, sabão, energia e mais a reposição das roupas que estragou. Ou seja, achou que resolveu uma tarefa, mas ela volta novamente a você. E, assim, perpetuando o seu dia com afazeres simples que não se resolvem. (E lembre-se que, nessa situação, ainda não terminou de lavar a louça também).

Você tendo que lavar suas roupas tudo novamente.

Dei essa situação hipotética, que pode até ser “ingênua”, mas, quando se trata de tarefas mais abstratas, é muito comum as pessoas ficarem “patinando” em tarefas e mais tarefas e com a sensação de que nada terminam. Sempre estão com pendências para resolver. E, muitas vezes, parecem estar trabalhando de forma proativa e eficiente, mas, na verdade, estão utilizando tempo e energia da forma errada. Lembre-se: trabalhar o tempo todo não é sinônimo de produtividade. É a qualidade da sua entrega, mesmo que sejam tempos pequenos, como falei no post sobre o método se/então, para evitar procrastinação.

E isso vale para qualquer coisa: dos estudos ao trabalho. Então, ficar passando de uma tarefa para outra, o famoso “multitarefa” é contra produtivo, como demonstrei na tarefa de lavar louça e roupa anteriormente. Então, a melhor forma de organizar o seu tempo é priorizar, dentro de uma mesma tarefa as etapas de resolução: do mais simples ao complexo. E, além disso, você precisa estipular um tempo específico do seu dia para resolver a tarefa por completo.

Por exemplo, você precisa estudar Matemática e História. Mas, matemática você tem facilidade para entender e está com as tarefas em dia, mas precisa praticar com um simulado com questões mais desafiadoras. Já a parte de História, precisa ler, tentar escrever um texto com suas próprias palavras e resolver algumas questões da tarefa. Qual dessas disciplinas você vai estudar primeiro? História ou Matemática?

Se você prefere Matemática, a sua tendência é tentar começar por ela primeiro. O problema é que História está com mais pendências que Matemática. Então começo por História e deixo de lado o simulado de Matemática? Errado também. O que você precisa estipular é o tempo adequado para cada uma. Você está bem em Matemática, mas precisa continuar praticando, mas talvez não precise ficar praticando muitos exercícios, fazer alguns de níveis diferentes já é suficiente (eu já disse nesse post, sobre a importância da prática intervalada nos estudos). Terminou de estudar Matemática? Ótimo! Agora vá para a disciplina de História, depois de um intervalo.

Comece resolvendo a leitura e tente responder algumas questões sobre o texto. Veja quantos acertou ou errou e pare. Deixe descansar, volte no dia seguinte e tente começar a revisar por aquelas que errou no dia anterior. Dependendo do seu desempenho nas questões, você pode também tentar escrever um texto sobre o assunto, só com o que você tem em sua memória. Assim, você vai saber se lembra de informações o suficiente e saber o que revisar. 

Depois que já conseguiu compensar uma parte do atraso de História e obteve algum progresso, volte para a Matemática, siga fazendo o simulado com mais alguns exercícios. Eventualmente, se você estudou um pouco menos de horas no dia anterior para Matemática para estudar História, então, a partir do momento que as disciplinas estão em dia, você pode dar um pouco mais de atenção na primeira que estudou menos horas. E assim por diante.

Conseguiu captar mais ou menos a ideia?

E dentro dessas suas tarefas, sempre coloque um tempo de descanso. Seja para tomar um café ou fazer alguma atividade de lazer que goste. O importante é que você resolva uma tarefa de cada vez, mas sempre se dê uma recompensa para que o seu cérebro continue motivado a concluir suas tarefas.

Pausas são importantes para continuar a ser produtivo.

Uma sugestão para manter uma prioridade de tarefas é ter um organizador de tarefas no alcance da sua visão. Neste post eu dei várias opções como sugestão para serem utilizadas.

E se você tem dificuldades para manter-se concentrado ou concentrada, então recomendo ler este post. E para manter metas de longo prazo, também dei 5 dicas de como organizar o seu planejamento para concluir objetivos de longo prazo.

Então? Essas dicas te ajudaram? Conte nos comentários se você tem alguma técnica para priorizar tarefas do seu dia a dia que dê resultado.

No vídeo, eu compilei essas ideias classificando-os em 5 erros que muita gente faz achando que está sendo mais produtivo.

A história de Armação dos Búzios: uma cidade antiga dos tempos do descobrimento do Brasil

Publicado em 25/09/2020 por Luzia Kikuchi

Quando eu estava no Ensino Fundamental, aprender história e geografia era um tanto “surreal”. Por falta de experiência de vida, eu não conhecia tantos lugares e também não tinha oportunidade de viajar para tantos locais para conhecer o relevo, o clima e a história de uma região. Portanto, meus conhecimentos históricos e geográficos limitavam-se a uma memorização mecânica de informações de um livro didático para serem reproduzidos em uma avaliação e, com isso, garantir uma nota com o objetivo de obter a aprovação no final do ano. Os conteúdos pareciam vazios de significado, como se aquilo não fizesse parte do meu cotidiano.

Porém, depois de muitos anos, quando comecei a ter mais chances de viajar com frequência e conhecer lugares inimagináveis em minha infância, estudar e conhecer um pouco mais sobre a história e a geografia de um lugar passou a ser uma atividade essencial e muito agradável. A cada lugar novo que conheço, parece fazer mais sentido associar os eventos históricos e naturais. Dessa forma, tenho escolhido lugares não apenas para turistar, mas também para aprender um pouco sobre aquele local.

E neste post vou contar um pouco sobre uma cidade que conheci recentemente: Armação dos Búzios, no Rio de Janeiro.

Armação dos Búzios, ou simplesmente Búzios, é uma cidade localizada na Região dos Lagos, no litoral norte do estado do Rio de Janeiro, a cerca de 165 km da capital fluminense. Juntamente com Cabo Frio e Arraial do Cabo, é um destino muito procurado pela beleza de suas praias. (Especialmente em Cabo Frio e Arraial do Cabo, a cor da areia e do mar se assemelham muito às praias do Caribe).

A história que vou contar a seguir é baseada nos relatos encontrados no site Rio de Janeiro Aqui.

Os navegadores portugueses parecem ter passado brevemente por essa região em 1502, mas foi só pelo século XVII e XVIII que ela foi ocupada de forma definitiva, com a expulsão definitiva dos corsários franceses que haviam tentado ocupar inicialmente a Baía de Guanabara ou a atual cidade do Rio de Janeiro.

Até a metade do século XIX, a principal atividade econômica de Búzios foi a pesca de baleias. Aparentemente, nesses tempos remotos, esses animais eram frequentemente vistos na região. Além disso, o nome “Armação” se deve a uma instalação feita na praia para pesca e extração da carne e óleo da baleia. Inclusive, o local onde os ossos dessas baleias eram depositados, após a extração da matéria-prima, chama-se Praia dos Ossos até hoje. Com o desaparecimento das baleias por essa região, os moradores da cidade passaram a viver da pesca.

Assim, até por volta de 1940, Búzios era apenas um pequeno vilarejo de pescadores, distribuídos principalmente na praia do Canto até a praia da Armação. Algumas casas construídas no século XVIII ainda podem ser vistas na Rua das Pedras, em frente a orla da praia da Armação. E no final desta rua, existe até hoje a igreja de Sant’Anna que foi erguida em 1740.

Porém, foi em 1964 que essa cidade foi revelada ao mundo, com a visita da atriz francesa Brigitte Bardot. Por ser um local desconhecido por muitos, e afastado da badalada capital fluminense, Brigitte pode passear tranquilamente sem ser importunada por fotógrafos a todo momento. Já em 1999, a cidade de Búzios decidiu homenageá-la construindo uma estátua de bronze localizada num trecho da praia da Armação que foi batizada com o nome de “Orla Bardot”.

Mas, antes mesmo da visita de Brigitte, na década de 50, essa orla já era frequentada por outra pessoa muito conhecida pelos brasileiros: o ex-presidente Juscelino Kubitschek (JK).

Assim como Brigitte, JK também recebeu sua homenagem pela cidade e em 2006 foi construída uma estátua em sua homenagem, que se localiza igualmente na Orla Bardot.

Segundo relatos, JK costumava se hospedar em uma pousada chamada “Solar do Peixe Vivo” que ficava logo atrás de onde está o monumento dele. A construção existe até hoje e foi tombada como patrimônio histórico da cidade, porém, em seu lugar, funcionou por um tempo o restaurante Sollar que passou a se chamar “do Jeito Buziano”, mas este também aparentemente não funciona mais aqui e o imóvel encontra-se desocupado.

O que eu notei é que a cidade tem um certo “apreço” por estátuas de bronze! Além de Brigitte e JK, existe também uma estátua que fica no meio do mar chamada “Três Pescadores”, em homenagem aos pescadores de Búzios. A obra foi encomendada pela prefeitura, patrocinada pela VISA e inaugurada no ano 2000. Quando a maré está baixa, é possível caminhar até a estátua. A obra é tão bem-feita e realística que, de longe, dá até para se confundir com pescadores trabalhando no meio da praia! rs 

Essa estátua também fica na Orla Bardot, em frente ao monumento de JK. Se você se posicionar no mesmo ângulo de visão do ex-presidente, dá até a impressão que ele está observando os três pescadores.

Com a revelação dessa cidade ao mundo, Búzios foi cada vez mais ocupada por estrangeiros e pessoas com grande poder aquisitivo que construíram mansões e casas de veraneio. É interessante notar que um dos principais estrangeiros que ocuparam o local foram os argentinos na década de 70, em busca de qualidade de vida*, e que até hoje podem ser notados com bastante frequência na população buziana.  

* Caso queira saber mais sobre esse aspecto, pode ler este artigo de Harguindeguy (2007).

Com a popularização do turismo na região, Búzios que fazia parte do município de Cabo Frio, até então, obteve a sua emancipação em 1996. E apesar de contar com uma população relativamente pequena de 30.000 habitantes, a cidade chega a receber 1 milhão e meio de turistas no ano, sendo considerado um dos destinos mais luxuosos da região dos Lagos. Porém, como fiz a visita em tempos de pandemia, a cidade está atualmente com o acesso autorizado apenas para moradores e hóspedes com reserva em hospedagem da cidade (isso significa que não é possível fazer uma visita de “bate-volta” das cidades vizinhas). Por conta disso, os preços nos dias úteis estavam bem acessíveis, levando em consideração que é uma cidade tipicamente turística. No entanto, nos finais de semana, os preços dos restaurantes à beira mar parecem ficar mais caros, devido ao aumento de movimentação de clientes que frequentam as praias.

Uma coisa bem peculiar que notei em Búzios é em relação à vegetação costeira. Em São Paulo e mais ao Sul do Brasil (que é onde tenho mais familiaridade), estamos acostumados a ver a vegetação de Mata Atlântica, que são árvores frondosas, altas e de mata bem fechada. Já em Búzios, em alguns trechos, é possível notar a vegetação de caatinga, que é mais comum em regiões semiáridas, mais afastadas do mar. Algo um pouco contra intuitivo do que costumamos aprender de forma geral em Geografia.

Observe a presença de cactos na costa na praia de João Fernandinho em Búzios.
Crédito da imagem: acervo pessoal.
Compare com a vegetação de Mata Atlântica na praia de Toninhas em Ubatuba.
Crédito da imagem: acervo pessoal.

Procurei a respeito do clima e vegetação dessa Região dos Lagos e encontrei um artigo publicado, em 2007, na Revista Tamoios da UERJ pela Heloísa Coe e outros autores. Nele é explicado que essa peculiaridade ecológica da região é devido a um fenômeno chamado ressurgência que resulta no resfriamento da temperatura superficial da água em determinadas épocas do ano, especialmente entre a primavera e o verão, tornando essa região mais seca do que o restante do litoral costeiro do Rio de Janeiro. 

Por conta também desse fenômeno, as águas da Região dos Lagos costumam ser mais geladas comparadas às outras praias do Rio. Além disso, diferente da capital fluminense e também do litoral de São Paulo que costuma ter um clima bastante quente e úmido, em Búzios, o vento seco ajuda a amenizar os dias de calor.

E qual seria a vantagem de saber sobre essas informações geográficas? Por ser uma região mais seca, a Região dos Lagos, que compreende – além de Búzios – os municípios de Cabo Frio, Arraial do Cabo, Iguaba, São Pedro da Aldeia e Araruama, é um lugar que chove muito pouco. Diferente do litoral norte de São Paulo, como Ubatuba, que costuma chover com bastante frequência. Isso significa que você poderá aproveitar melhor a praia em quase qualquer época do ano. A única desvantagem é que, conforme explicado pelo fenômeno das ressurgências, as águas são mais frias. Como não sou geógrafa, limito-me a explicar de forma bem superficial sobre tais fenômenos e ocorrências ecológicas dessa região. Mas, se vocês quiserem saber mais a respeito, podem ler o artigo da Heloísa Coe e outros, citado anteriormente.

Ficou curioso ou curiosa para conhecer Armação dos Búzios? A seguir estão algumas dicas de como chegar e aproveitar melhor a cidade.

Como chegar em Búzios?

*Há duas formas principais para chegar em Búzios: via terrestre (carro ou ônibus) ou via aérea. O mais comum é a via terrestre. Porém, na situação atual de pandemia, a única opção para chegar em Búzios é de carro, já que a entrada na cidade está sendo controlada e permitida apenas para moradores e hóspedes com reserva. Por isso, entrada de ônibus e excursões de um dia estão proibidas no momento. Para quem é hóspede, no momento da reserva, é gerado um QR Code para ser apresentado aos guardas que controlam o acesso na entrada da cidade. Este código só tem validade de 24 horas, sendo necessário a emissão de um novo se precisar sair e voltar nos dias seguintes.

*Lembrando que essas informações podem mudar a qualquer momento, já que a situação da pandemia está constantemente em atualização.

A opção de via aérea já é um pouco mais recente e, por enquanto, limitada para duas cidades: de São Paulo, pelo aeroporto de Guarulhos (GRU), e de Belo Horizonte, pelo aeroporto de Confins (CNF), respectivamente atendida pelas companhias aéreas Gol e Azul. O aeroporto fica na cidade vizinha, em Cabo Frio (cerca de 30 km de Búzios). Por conta da pandemia, os voos foram suspensos e sem uma data prevista para retorno. Porém, segundo informação de um jornal local, voos partindo de Guarulhos seriam retomados a partir de 04/09/2020, para aquelas que quiseram aproveitar o feriado do dia 07 de Setembro. O preço para ida e volta estimado para essa data foi de R$ 277,65, mas é possível que o preço médio varie, depois que a situação se normalizar. Não consegui localizar voos futuros nem pelo site da empresa e nem pelo Google Flights para ter uma noção dos preços.

Normalmente, costumo viajar de transporte público, mas para manter as medidas de prevenção de isolamento social e por conta da limitação de entrada na cidade de Búzios, optamos por sair de São Paulo (capital) direto de carro, com parada na cidade do Rio de Janeiro somente para abastecimento de combustível e pegar um lanche para continuar viagem. A distância total foi de 628 km.

A hospedagem foi feita pelo Airbnb, em um apartamento localizado em frente à praia da Armação que fica a 2 km do centrinho comercial de Búzios.

Como é andar de carro na cidade do Rio de Janeiro?

Para quem é de fora do Rio, sempre há um receio de andar de carro por conta dos frequentes relatos de violência nos noticiários. Nosso trajeto foi feito seguido toda Rodovia Presidente Dutra, entrando na cidade pela Avenida Brasil para chegar até a Avenida Presidente Vargas, em frente à estação Central do Brasil, onde abastecemos o carro.

A duração média de uma viagem da capital paulista até a capital fluminense, é de 6h e meia. Porém, por conta de um acidente na Serra das Araras (continuação da via Dutra onde começa a serra para chegar na baixada fluminense), levamos 4 horas a mais do previsto e acabamos levando um pouco mais de 10 horas para chegar até o posto.

O que percebemos é que a Avenida Brasil, pelo menos fora do horário de pico, aproximadamente às 15 h, é bem movimentada e não tem congestionamento. Na volta, viemos pela Linha Vermelha (Via Expressa Presidente João Goulart), passando por volta das 11h da manhã e também não havia trânsito e o fluxo era bem movimentado.

Segundo relatos, tanto a Avenida Brasil quanto a Linha Vermelha são bastante conhecidas pelos assaltos do tipo “arrastões” nos horários de congestionamento e de abordagens à mão armada, no horário de pouco fluxo. Novamente, eu não moro no Rio, então não sei o quanto esse tipo de incidente é frequente, mas é bom ter cautela como em qualquer outra cidade grande urbana. Na nossa experiência, a viagem foi bem tranquila. Mas o fato de termos passado pelas vias por volta das 15h e 11h da manhã, respectivamente, pode ser uma dica para quem pretende seguir viagem.

Uma coisa que é realmente inconveniente para andar de carro na cidade do Rio de Janeiro é o estacionamento. Eles são escassos e caríssimos, chegando a custar R$ 14,00 a hora com acréscimo de R$ 8,00, sucessivamente, por hora adicional. Uma diária pode custar facilmente em torno de R$ 50,00. Por isso, se puder, prefira ir de transporte público para economizar.

Depois de sair da cidade do Rio de Janeiro, para seguir viagem à Búzios, é necessário pegar a ponte Rio-Niterói. Não recomendo pegá-la no horário de pico como pegamos (entre 18h e 20h – sentido Niterói), pois é quando muitos que trabalham na capital e moram fora da cidade estão retornando.

Passando a ponte Rio-Niterói, basta seguir a BR-101 (conhecida popularmente como Rio-Vitória) até a altura de Rio Bonito para depois pegar a Via Lagos ou RJ-124 até Búzios. O percurso durou 4h desde a saída do posto onde abastecemos o carro no centro do Rio, por conta do congestionamento na ponte Rio Niterói. Porém, na volta, levamos por volta de 3h, com trânsito tranquilo.

As rodovias que passamos, em geral, são bem conservadas, duplicadas e iluminadas em boa parte dos trechos, principalmente nas áreas que cruzam cidades. Somente quando já está próxima da entrada de Búzios, na RJ-106 (Rodovia Ernani do Amaral Peixoto), que a estrada vira uma pista simples (uma para cada sentido) e a noite fica bem escura para transitar, pois não tem iluminação pública. Em alguns trechos, inclusive, não havia faixas de divisão das vias. Porém, como reparei que estavam em obras, é possível que tenha sido apagado após o recapeamento da pista e ainda não haviam pintado. Durante o dia essa via é bem tranquila, mas se for transitar a noite, redobre a atenção.

O que fazer em Búzios?

Depois que chegar em Búzios, boa parte das atrações principais podem ser feitas a pé, principalmente, se você se hospedar perto do centrinho da cidade na Rua das Pedras. Lá você pode encontrar lojas de roupa, mercadinhos, lembrancinhas, restaurantes, cafés e drogarias. Nesse centrinho passamos apenas em dois lugares: no Big Dogs, que servem cachorros-quentes com combinações de ingredientes mais usados na Argentina, como o chimmichurri, e ficam deliciosos. E o Maria Maria Café, que é uma cafeteria de frente para a praia do Canto, bem simpática, que tem uma boa variedade de café, quentes e gelados, doces e tortas salgadas. Há também um curso de barista para quem tiver interesse.

Dizem que Búzios, comparada a outras praias da Região dos Lagos, possui hospedagens mais caras em alta temporada. No nosso caso, como a cidade estava com entrada limitada de visitantes, encontramos um preço bem acessível para uma hospedagem em frente à praia, com uma diária de R$ 250 para duas pessoas. Não estava incluso o café da manhã, mas como o quarto já vinha equipado com cozinha e geladeira, foi possível comprar algumas coisas do mercado, o que ajuda a economizar também. Sem contar que era possível tomar café na varanda olhando para o mar!

Vista do entardecer da varanda onde ficamos hospedados.
Crédito da imagem: acervo pessoal.

Minha sugestão de passeio, depois de andar pelo centrinho de Búzios, é seguir a Rua das Pedras* no sentido da Orla Bardot, na Praia da Armação, que é onde se encontram as três estátuas que citei anteriormente: da Brigitte, do JK, respectivamente, e dos Três Pescadores quando você olha para o mar a partir da estátua do JK.

* A Rua das Pedras muda de nome no sentido Orla Bardot quando você vir no mapa. Ela chama-se Av. José Bento Ribeiro Dantas. Porém, para perguntar aos locais, dificilmente eles saberão por esse nome. Mais fácil falar da Rua das Pedras, quando estiver no centrinho e Orla Bardot, se estiver no outro sentido.

Nessa rua também existem vários restaurantes mais charmosos como o Madame Bardot, com mesas à beira mar. Seguindo ainda a orla, já perto do final dela, há uma hamburgueria chamada Porto Brew que serve sanduíches e cerveja artesanal. Comi duas vezes lá e vale a pena o custo benefício. Um sanduíche, acompanhado de uma pequena porção (batata frita, doce ou anéis de cebola) com um molho a sua escolha sai R$ 25. Um chopp custa em média de R$ 12 a R$ 15. Já no happy hour (nessa época era das 17h às 19h) dois chopps saiam por R$ 15.

Se você olhar para o mar, na altura do Porto Brew, há um cais escrito Porto Veleiro, que também tem um restaurante. Provavelmente, é daqui que saem os passeios guiados de barco para outras praias da região, mas como a prefeitura não liberou esse serviço, por conta da pandemia, apenas o restaurante estava funcionando. Pedimos um prato executivo que estava R$ 25 por pessoa que acompanha arroz, pirão e salada. Estava delicioso e o prato é bem servido! O diferencial deste lugar é almoçar no cais à beira mar. O único inconveniente é que venta muito e seus guardanapos e chapéus podem voar se você não se cuidar.

Bom, continuando no sentido que você estava vindo do centro, vai se deparar com uma bifurcação: se seguir à esquerda, chegará na Igreja de Sant’anna (construção de 1740). Há um portão na entrada, mas ele é aberto aos visitantes. A igreja estava fechada quando passei por lá, mas você pode aproveitar o caminho para sair do outro lado e chegar na Praia dos Ossos. A orla dela é bem pequena, mas, daqui é possível também pegar barco táxi para chegar a algumas praias principais de Búzios. Inclusive você pode ir até o centrinho de barco a partir daqui, se não quiser caminhar os 2 km de orla. A passagem custa em torno de R$ 10. 

E, se continuar andando na orla dela até o fim, terá uma rua íngreme que dá acesso à praia Azeda e Azedinha. Para acessar a primeira, você deve seguir essa ladeira até o fim quando encontrará uma viela que dá acesso a uma escada de madeira do lado esquerdo. Descendo-a você chegará na praia Azeda. Se continuar andando pela orla, no canto, próxima à costa, encontrará a praia Azedinha. Essa praia também é bem pequena, mas tem as ondas mais calmas e adequada para crianças e também para prática de snorkel (mergulho em águas rasas).

Agora, se naquela bifurcação anterior, decidir seguir à direita, é possível encontrar vários restaurantes, cafés e lojinhas com um preço mais em conta do que no centrinho. Então, se quiser economizar um pouquinho, vale a pena procurar nessa região. Eu recomendo o Café Nina para tomar um café e comer variados tipos de bolos e tortas ou o Sukao Bar onde há muitas variedades de suco natural.

E se você continuar em frente nessa rua, vai passar um pequeno lago chamado Lagoa dos Ossos e mais à frente, perto do cruzamento com uma rua principal, do lado direito, nos finais de semana, há passeios de bugs sendo oferecido a um preço de R$ 50 por pessoa. Também existe um estacionamento* com preço único de R$ 20 a diária.

*Lembrando que em Búzios, estacionar na rua, principalmente onde as guias estão pintadas de azul, exigem a utilização do tíquete zona azul. E você precisa pagar no momento da chegada. Nós vimos vários carros sendo multados porque as pessoas estavam esquecendo de fazer isso. Para mais informações clique aqui.

Chegando nesse cruzamento, se você seguir à esquerda, até o fim da rua, vai chegar na praia João Fernandes. Lá tem vários restaurantes e barzinhos à beira mar. Porém, como passamos lá no final de semana, o preço já estava mais “salgado”. Uma porção ou prato custava em torno de R$ 70,00 por pessoa e uma água custava R$ 8,00. Não sei se eles mudam o preço durante a semana, como em alguns restaurantes que vi na Orla Bardot.

A praia João Fernandes é bonita, mas o mar é bastante agitado. Então, se quiser águas mais tranquilas vá para a praia ao lado chamada João Fernandinho. Para chegar lá, se a maré estiver baixa, você pode caminhar toda orla da João Fernandes e atravessar umas pedras. Mas, o recomendado é ir pela rua paralela à orla até chegar em uma escadaria bem pavimentada de concreto.

João Fernandinho é uma praia mais reservada e existe um pequeno bar e restaurante que, no horário que chegamos, ainda estava fechado. As águas são praticamente sem onda, então é melhor para levar crianças, mas esteja alerta, pois ela afunda um pouco conforme avança para o mar.

Existem outras praias como a Tartaruga, Ferradura, Ferradurinha, Forno e Manguinhos. Mas, não tivemos tempo de passar por todas elas.

Acho que as imagens falam por si só. Então, se você quiser conhecer um pouco de Búzios, assista ao vídeo que produzi que mostra apenas imagens de alguns lugares que passamos por lá.

Se você ficou com alguma dúvida ou queira contribuir com alguma informação que não citei neste post, fique à vontade para deixar nos comentários!

Desafios matemáticos do Ian Stewart

Publicado em 28/08/2020 por Luzia Kikuchi

Hoje apresento a vocês um livro que está me deixando entretida por meses (isso porque não dou conta de resolver todos os desafios tão rápido assim). Trata-se do “Almanaque das curiosidades matemáticas” de Ian Stewart.

Este autor é britânico, professor da Warwick University e que se tornou mundialmente conhecido pelos livros de divulgação científica relacionado à Matemática. Ele já tem mais de dez livros publicados e traduzidos em vários idiomas.

Eu comprei os primeiros livros do Ian Stewart em 2012, mas foi quando comecei o doutorado que comecei a conhecer outros livros dele. Gosto muito do seu senso de humor e da forma como contas as curiosidades matemáticas.

Um trabalho muito relevante do Ian Stewart é mostrar que a Matemática não é tão “linear” quanto parece nos livros didáticos. Para quem estuda um pouco de História da Matemática, já chegaria a essa constatação, mas a grande maioria dos livros de história são muito técnicos e, provavelmente, de difícil acesso à população em geral (sem contar que, na maioria das vezes, são bem caros). Talvez um livro que consegue apresentar a história com uma narrativa menos técnica é o Rainha das Ciências do Gilberto Garbi, mas ainda assim não deixa de ser um livro facilmente lido por leigos.

Já no caso do Almanaque das Curiosidades Matemáticas, obviamente, há problematizações muito específicas para quem entende matemática, mas outras que são bem simpáticas e que valem como desafio para uma tarde monótona de domingo.

Um desses desafios que eu postei no meu instagram, foi a dos gatos da Sra. Smith. Que usa um pouco de charada e conhecimento matemático. Mais especificamente, de probabilidade, como podem ver a seguir:

Para quem já está acostumado a resolver problemas de probabilidade, não é muito difícil chegar na resposta, já que se trata de um conceito de probabilidade clássica e condicional (sabe aquela história dos “sorteios de uma bolinha”?).

Porém, o que eu achei desafiador nesse problema é encontrar todas as soluções possíveis. Quando você calcula essa probabilidade, chegará a uma equação de segundo grau (sim, aquela que usa a fórmula de Bháskara, que muita gente fala que “não serve para nada” no cotidiano). Porém, para encontrar todas as soluções, é necessária uma certa dose de engenhosidade para obter os resultados.

Felizmente, o autor não é tão “carrasco” assim com o leitor (afinal de contas, trata-se de um livro de divulgação para trazer mais simpatizantes para a área de Matemática) e molda o problema na menor solução possível para essa equação. Porém, na resolução ele não explica como obter as próximas soluções, e foi aí que decidi me aventurar a calcular isso da maneira mais rápida possível.

Para isso, você pode usar uma planilha do Excel e formatar alguns macros (fórmulas) para calcular vários valores ao mesmo tempo. Afinal de contas, a tecnologia veio para facilitar algumas tarefas mecânicas. E é assim que deveríamos aproveitar melhor o uso de Tecnologias na Educação. (Não vou falar sobre esse tópico neste post para não me prolongar e fugir do assunto. Mas, uma hora quero falar sobre o ensino de tecnologias na Educação).

Outra forma é criar gráficos no Geogebra e verificar a intersecção das duas retas que compões este problema. Essa também seria uma forma muito mais inteligente de calcular as soluções, além de trabalhar com Geometria Analítica, por exemplo.

Os dois arquivos com essas alternativas podem ser consultados neste link ou em Materiais Complementares no menu do blog.

Se você quiser conhecer qual é esse desafio, eu apresento neste vídeo e deixei a minha gata, Nala, para fazer a narração da resolução. Espero que gostem!

Para quem quiser conhecer os dois livros que citei neste texto, segue:

Título: Almanaque das Curiosidades Matemáticas
Autor: Ian Stewart
Editora: Zahar
Crédito da imagem: amazon.com.br

Título: Rainha das Ciências
Autor: Gilberto Geraldo Garbi
Editora: Livraria da Física
Crédito da imagem: amazon.com.br

Conte nos comentários se você gosta de desafios matemáticos. Me indique algum que você acha interessante!

Como evitar as revistas predatórias?

Publicado em 14/08/2020 por Luzia Kikuchi

O post de hoje tem o objetivo de informar sobre essa questão, para evitar que você aceite convites “aparentemente” atraentes para “turbinar” o seu currículo acadêmico.

Bem, primeiro vou explicar o que são essas revistas predatórias. Para isso, vou descrever o seu modus operandi para tentar ilustrar. Obviamente, pode haver alguma leve diferença entre um caso e outro, mas vou relatar a minha experiência.

Essas empresas ou editoras entram em contato ativamente com o autor citando um artigo de congresso ou até mesmo de uma dissertação ou tese recém defendida, e fazem um convite para publicar o seu trabalho em formato de livro ou para ser o capítulo de uma coletânea de outros trabalhos sobre o mesmo tema. A abordagem é bastante convincente, pois elogiam o trabalho, dizem que por ser um material relevante foi previamente “selecionado” pelos editores e por isso te convidam para publicação. Pedem para entrar em contato caso tenha interesse.

Você, inocente, lisonjeado(a) com os elogios (tudo que um aluno de pós-graduação gostaria de receber depois de árduos anos para desenvolver esse trabalho), vê a oportunidade de ter uma publicação (quem não quer ter um livro de sua autoria, não é mesmo?) e resolve responder ao e-mail para saber os passos necessários para a publicação.

Então, o suposto editor diz que “como o seu trabalho já está aprovado” pelo corpo editorial, ele não passará por nenhuma revisão de conteúdo. Informa que por não receber subsídios do governo, devido ao corte de custos, o próprio autor precisa arcar com a despesa de publicação, que gira em torno de 300 a 500 reais. Tal custo inclui apenas a diagramação do livro, sem revisão técnica (gramatical ou ortográfica) e alguns exemplares para divulgação, além do serviço de emissão do DOI* e da indexação do trabalho nos principais buscadores. Esse valor pode até subir um pouco de acordo com o número de exemplares físicos que poderão ser impressos ou para produção de banners de divulgação.

*DOI sigla para Digital Object Identifier (Identificador de Objeto Digital) é um número único produzido para identificar documentos de origem digital. Ele serve para evitar a utilização ou distribuição indevida do conteúdo desse documento e também para que seja facilmente localizado, caso o documento não esteja mais disponível no local onde foi armazenado inicialmente. Algo muito comum na internet.

Quanto ao número de cópias físicas, varia de editora para editora. Algumas prometem alguns exemplares incluso no pacote, para que o autor possa fazer a divulgação, ou dizem que o livro será disponibilizado na Amazon ou livrarias conhecidas do mercado com encomenda sob demanda (há impressão quando o cliente comprar o livro), mas também incentivam a disponibilização do e-book gratuitamente no site da editora… Eles argumentam que é para incentivar a divulgação e que os materiais que estão disponíveis gratuitamente são apenas aqueles que foram custeados com dinheiro público. Porém, isso não é totalmente verdade, pois quando questionados sobre alguns autores também estarem disponibilizando gratuitamente o mesmo material das livrarias, dizem que é por opção do autor, para fins de divulgação.

E por que ela passa a ser considerada como uma possível revista predatória? Porque a principal fonte de renda dessas editoras é a taxa cobrada dos autores para diagramar o trabalho e não há nenhum trabalho de validação científica. É praticamente um “drive-thru”: aceite o convite, pague a taxa e estará publicado.

O maior problema disso não é o serviço em si prestado. Não tem nenhum problema se você, autor ou autora, ciente de que está lidando com um serviço de editoração, optar por transformar seu trabalho acadêmico em um livro. Conheço muitas pessoas que fazem isso. Mas, nesse caso, o contrato já está acordado para tal. O problema dessas supostas “editoras” é que elas prometem mais do que realmente podem cumprir. Convencem um autor a publicar afirmando que são revistas ou livros classificados no estrato Qualis, que são indexadas nos buscadores de periódicos de relevância e que publicar o seu trabalho com elas é a garantia de ter o seu trabalho divulgado e reconhecido por mais pessoas.

E para quem está na área acadêmica, sabe o quanto uma publicação é valiosa para conquistar a vaga em um concurso público numa universidade, ou até mesmo para progressão, se já ocupa uma vaga numa instituição. E para ter mais chances de reconhecimento, nada melhor do que ter o seu trabalho divulgado e citado por mais pessoas.

Então, ludibriado de que se trata de uma revista com rigores metodológicos científicos sérios, publica o seu trabalho, que pode até ser relevante, mas, por estar publicado em um periódico que não atende as normas mínimas de rigor científico, acabará perdendo credibilidade. Já pensou em perder todo o seu trabalho científico por conta disso? O problema que, uma vez publicado, você não poderá publicar o mesmo texto em outro periódico. E é por isso que precisamos ficar atentos a isso.

E como fazer para não cair em uma “cilada” dessas? Vou citar as principais:

  1. Não aceite convites para publicação de um trabalho já publicado

Antes de tudo, preciso esclarecer que quando você publica um trabalho em um congresso ou evento similar, ele fica disponível nos anais desse evento. Tecnicamente, o evento detém o direito autoral de publicação do seu trabalho, possuindo inclusive um ISSN próprio. Então, no mínimo, é estranho quando chega um convite de uma pessoa, que você nunca viu na sua vida, por e-mail, dizendo para publicar esse mesmo trabalho sem fazer nenhuma alteração relevante em seu conteúdo. Desconfie. Nenhuma revista científica séria pede esse tipo de conduta. 

A única exceção em relação ao convite é quando um editor te convida a publicar o trabalho sobre alguma temática específica. Mas, nesse caso, eles pedem que seja enviado um texto original e não a republicação do mesmo trabalho já apresentado em algum evento. E ainda assim, o seu trabalho passará por uma revisão editorial. A não ser que você já seja alguém muito renomado na área, o que eu acho pouco provável para quem está lendo sobre este assunto. Além disso, eles não farão o convite para você ter que pagar para publicar, não acha?

Já no caso de dissertações e teses, tecnicamente, você pode torná-lo um livro se você quiser. Mas, aqui, merece um novo cuidado que menciono na dica 2.

  1. Tenha clareza do tipo de contrato que você estabelecerá com a editora

Se um dia você receber um convite para transformar a sua dissertação ou tese em um livro, primeiro verifique as credenciais dessa editora. Quanto tempo ela tem no mercado, qual tipo de publicação ela costuma fazer, quem é a sua equipe editorial, entre outras.

E o mais importante é o contrato que estabelecerá com ela: se você terá que bancar com os custos de diagramação, se existe um revisor de texto, como funcionará a cessão de direitos autorais, como será a divulgação do material (se será gratuito ou pago) e como será o contrato da porcentagem que receberá pelas vendas, quando houver. Lembre-se que, se não houver vendas, provavelmente, você não receberá nenhuma comissão. Então avalie se isso realmente vale a pena.

E para verificar a credibilidade da equipe editorial, passamos para a próxima dica.

  1. Verifique a comissão editorial dessa revista

Antes de tudo, desconfie de revistas que não têm a relação da equipe científica que avalia os trabalhos. Mesmo quando eles indicam o corpo científico, algumas ainda usam indevidamente o nome desses acadêmicos. Portanto, na dúvida, pegue alguns nomes e tente acessar o currículo Lattes desses pesquisadores para verificar se eles indicam que fazem parte dessa revista na sessão “Membro de corpo editorial”.

Participar como revisor ou editor de um periódico é algo relevante para o currículo. Por isso, na maioria dos casos, se a revista for legítima, os pesquisadores mencionarão que fazem parte dela. A não ser que seja um pesquisador com uma carreira muito consolidada (leia-se muito famoso) ou que pouco atualiza o Lattes. Esta última possibilidade é mais compatível com pesquisadores sêniores que não são muito adeptos das tecnologias. Mas, normalmente, para quem continua ativo na universidade, é muito difícil não atualizar o Lattes. Então observe quanto tempo essa pessoa atua na área e o que vem fazendo nos últimos anos.

  1. Verifique se essa revista já não foi citada numa dessas listas

Esta dica vale principalmente para os periódicos internacionais, pois não existe ainda uma suposta lista com possíveis revistas predatórias brasileiras.

E, para isso, existem dois sites que podem ser consultados: o Beall’s List** ou Preda Qualis. Este último foi desenvolvido em parceria entre a USP, UNESP e UFABC, baseando-se na Beall’s List, que filtrou algumas revistas citadas como possíveis predatórias, mas que constava na DOAJ. O DOAJ normalmente verifica as credenciais dos periódicos antes de indexar em seu acervo, portanto, é mais uma forma de verificar a credibilidade da publicação.

O Beall’s list, apesar de ter sido uma iniciativa muito importante para os pesquisadores, ainda enfrenta muitas controvérsias em relação à metodologia adotada pelo seu criador Jeffrey Beall, professor e bibliotecário da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, para classificá-las como possíveis revistas predatórias. Por isso, alguns dizem para que essa lista seja usada com certa cautela.

**Essa informação sobre o site Beall’s List foi obtida através do perfil do instagram @the_science_etal administrado pela Vanessa de Oliveira e pelo Sebastião Silva Júnior, ambos doutores na área de Ciências Biomédicas. O instagram deles têm diversas dicas relacionadas a área acadêmica de especialização dos autores e também para quem pretende fazer pós-graduação no exterior.

E, por último, é usar o famoso provérbio: “Quando a esmola é demais, o santo desconfia”. Publicar um artigo científico em uma revista séria, que tenha relevância científica não é tão rápida e simples. A revisão por pares garante a idoneidade e seriedade da pesquisa que foi feita e isso leva tempo. Além disso, revistas prestigiadas costumam receber muitas propostas para publicação, o que também explica o processo não ser tão imediato. Se uma editora não esclarece esses passos ou simplifica muito o seu processo de publicação, desconfie.

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