Como começar bem o ano nos estudos?

Publicado em 04/02/2022 por Luzia Kikuchi

Todo ano fazemos a mesma coisa: criamos uma lista de planos, planilhas, metas e desejos que queremos conquistar ao final do ano. Isso pode ser tanto no trabalho, nas finanças e também nos estudos. A grande pergunta é: você sabe o que é essencial para cumprir essas metas?

Já existe um ditado popular que diz: “o papel aceita tudo”. Isso quer dizer que podemos escrever os planos mais ambiciosos possíveis, conquistas inimagináveis, mas a grande diferença está na execução: como você vai se planejar para executá-las? Existe um prazo? Uma forma de mensurar os avanços? É algo que você pode realizar sozinho(a) aos poucos? Entre outras coisas que as técnicas de planejamento estratégico apresentam por aí e que talvez já tenho ouvido em algum lugar.

Eu não pretendo trazer para você neste texto a repetição dessas técnicas. E muito menos ficar repetindo nomenclaturas complicadas que não fazem diferença alguma. O mais importante é saber separar o que é essencial para a sua vida. E já que estamos falando sobre estudos, vou me focar especificamente neste tema.

Organização: a regra número 1 de tudo

Não sei se você é adepta(o) ao reality show “Masterchef”. Se assiste ou já assistiu, deve ter percebido que a organização do local de trabalho é essencial para uma boa execução de tarefas. É comum ver competidores desse reality show se atrapalhando com os passos do prato ou misturando ingredientes que não deviam, por não terem criado uma organização mínima em sua bancada. Obviamente, sempre há exceções e, talvez, a própria edição do programa acabe enaltecendo esses erros desses competidores “atrapalhados”, para chamar a atenção do público. Mas, se o “caos” fosse a regra, os restaurantes, hospitais e hotéis não colocariam regras estritas de organização, não é mesmo? Aliás, quanto mais refinado o serviço, mais exigentes são nessas estruturas e métodos.

Por isso, a regra número 1 para executar uma boa tarefa é organizar. E a organização não precisa ser algo complexo e sofisticado como muita gente pensa. Ela precisa ser funcional. Ou seja, algo que funciona para a sua realidade de forma natural e que seja possível de ser mantida por um bom tempo. Essa é a diferença, inclusive, entre arrumar organizar objetos dentro de um armário, por exemplo. Quando você arruma, está apenas colocando uma ordem temporária nas coisas, mas que não necessariamente tem uma lógica ou um método. E é por não ter essa regra determinada é que, em pouco tempo, o que estava arrumado, vira um caos. Já quando você organiza, está criando uma ordenação metodológica que pode ser repetida várias vezes e que funciona sem muito esforço.

E isso serve também para os estudos. Para que você possa manter uma rotina, ela precisa ter uma organização mínima e que seja rapidamente executável. E, para isso, eu separei quatro passos essenciais para quem não sabe ainda por onde começar:

  1. O que você precisa estudar?

Imagine que você precisa se preparar para um vestibular de uma universidade. Vou colocar o nome fictício de “Uni-X”. Para se preparar para a prova da “Uni-X”, você precisa saber, minimamente, quais são os conteúdos que são cobrados nela. E, normalmente, essas informações vêm no manual do vestibulando. Por isso, leia atentamente e anote todos os tópicos que cairão nessa prova. Isso serve também para quem vai prestar o ENEM ou concursos públicos. A dica vale para os três casos.

E para anotar, você pode usar o bom e velho caderno ou, se quiser ser mais prática(o), pode usar organizadores virtuais como o Google Keep, que eu já apresentei em um desses meus posts. Lá você pode separar os conteúdos por disciplinas ou por temas, o que for mais conveniente para você.

E por que é importante anotar os tópicos que se precisa estudar?

Se tem uma coisa que devemos desconfiar, é da nossa memória. E isso é porque o nosso “cérebro festeiro”* resolve sempre dar uma “escapadinha” das tarefas mais difíceis e sempre escolher as mais fáceis. E, para não ser “ludibriada(o)” pelo “cérebro festeiro”, você precisa ter uma organização do que precisa estudar, o que já foi estudado e o que está faltando. Ter uma lista visível é uma forma concreta de controlar o que já foi e o que falta. Se você confiar só na sua memória, pode ter certeza que uma hora vai escolher estudar só os tópicos que tem mais facilidade e adiar os mais difíceis. Portanto, anote e organize o que precisa estudar.

*Se você não faz ideia do que estou falando quando menciono o “cérebro festeiro”, pode ler este post aqui.

E depois dessa organização da lista de conteúdos, o próximo passo é muito importante para adotar uma estratégia específica de estudos.

  1. Por que você precisa aprender esse conteúdo?

Quando você se faz essa pergunta é basicamente definir o objetivo de aprendizagem. É necessário entender o conteúdo em pouco tempo? Precisa aprender esse tópico para aprender outro mais complexo? É para uma prova de escola/faculdade/concurso/vestibular?

Se você fizer essas perguntas para si, a próxima pergunta é quase que uma  consequência dessa resposta: onde vou pegar os materiais de referência para praticar/aprender esse conteúdo.

  1. Quais são os materiais essenciais que você vai precisar?

A primeira coisa que você precisa procurar são exemplos de materiais de prova. Por exemplo, se é o ENEM, pegue modelos de provas dos anos anteriores. A mesma coisa se for um vestibular específico ou concursos. Se for a prova da escola/faculdade, tente descobrir qual é o estilo de prova daquele professor. Se você for uma pessoa bastante comunicativa, pode até tentar “pescar” essa informação com o professor. Mas, o que mais funciona, normalmente, é perguntar para ex-alunos(as).

E se você se enquadrar no caso que não existem provas ou simulados para se basear, alguns sites úteis que pode te ajudar a treinar esses conteúdos de maneira autoinstrucional são:

Khan Academy: é um site com videoaulas e conteúdos gratuitos sobre todas as disciplinas que imaginar, inclusive, de Ensino Superior. Inserindo o código TFZQK3G5, você pode entrar na turma que criei para este projeto.

Responde aí: é um site com muitos exercícios resolvidos de disciplinas de Ensino Superior de diversas universidades. Para acessar ao conteúdo completo, é preciso ser assinante. Mas, eles também tem uma parte gratuita para acesso.

Coursera: possui conteúdos gratuitos de cursos produzidos por diversas universidades e instituições renomadas.

E-cálculo: é um site criado há bastante tempo pela Pró-Reitoria de Graduação da Universidade de São Paulo e que traz os principais conteúdos dos cursos de Cálculo I dos cursos de Exatas do Ensino Superior.

REA: o repositório de Recursos Educacionais Abertos (REA) da Universidade Virtual do Estado de São Paulo possui diversos simuladores, infográficos e jogos de diversas áreas que podem te ajudar a treinar e entender tópicos específicos de cada curso.

Existem muitos outros sites por aí, se você buscar no Google. Mas esses da lista são os que eu já experimentei, cujos conteúdos são muito bem produzidos.

E já tendo todos esses passos, o último e crucial é aquele que colocará todo esse plano em ação e o que determinará se você começará o ano bem ou não nos estudos.

  1. Como você vai se organizar para estudar?

Como eu disse no começo deste post: “o papel aceita tudo”. Não adianta você organizar todo material, se não começar a colocar o seu estudo em prática. Mas, lembre-se que a rotina precisa ser algo factível para a sua realidade. Se você tem o dia todo para estudar e não tem outras responsabilidades, talvez possa avançar um pouquinho mais rápido do que outra pessoa que trabalha meio período e vai estudar só de noite, por exemplo.

Mas, uma coisa que eu percebo que muitos estudantes têm dificuldade é saber o ritmo de estudos ou o ritmo de aprendizagem para absorver os conteúdos. Quanto tempo é necessário para aprender todos os conteúdos necessários para uma prova?

Bom, essa pergunta não é tão simples de ser respondida. Na verdade, para respondê-la, existem dois métodos: o pragmático e aquele que te trará um resultado um pouco mais a longo prazo.

No livro “Por que os alunos não gostam da escola” de Daniel Willingham, que já citei em outras ocasiões, e também baseado em diversos artigos científicos da área de psicologia cognitiva que falam sobre a curva do aprendizado, cita-se dois tipos de aprendizado: “em massa” e o espaçado.

O aluno que aprende “em massa” é aquele que estuda na véspera da prova uma grande quantidade de conteúdo e de forma repetitiva. Já o espaçado é aquele que estuda pouco a pouco, mas de forma constante e que deixa alguns intervalos de descanso sobre o conteúdo. 

Podemos dizer que o método pragmático seria o do primeiro aluno, que pode até tirar uma boa nota na prova. Mas, a diferença é que, uma semana depois, ele já deve ter esquecido quase tudo. 

Já o segundo estudante, que estuda de forma mais espaçada, a tendência é que ele lembre de mais coisas e consiga manter esse aprendizado por mais tempo. Então, se tiver uma “prova surpresa”, uma semana depois da primeira, o segundo estudante se sairá melhor na avaliação. Ou seja, ele será o que, provavalmente, vai aprender a longo prazo.

Embora o primeiro método pragmático possa até te trazer um resultado em pouco tempo, quando se trata de uma carga muito grande de conteúdo, vai ser muito mais difícil de manter-se motivada(o). Por isso, tente dividir o seu tempo de estudo de uma forma que consiga estudar um pouco a cada dia. De preferência, alterne os assuntos das disciplinas para dar esse tempo de espaçamento e permitir que o seu cérebro consiga consolidar aquilo que está aprendendo.

E quanto tempo eu vou levar para estudar tudo desse jeito?

É claro que, se nós tivéssemos todo o tempo do mundo, essa dica que eu acabei de dar seria a mais adequada para aprender um conteúdo de verdade. Contudo, infelizmente, temos prazos.

Dessa forma, a melhor maneira de medir o tempo e ter uma noção de quanto tempo você leva para estudar um conteúdo é: medindo com um cronômetro. De acordo com a complexidade do assunto que está estudando, ele pode até variar um pouco, mas é bastante útil para ter uma estimativa.

Outra coisa importante é tentar focar em métodos mais efetivos de prática e de consolidação de informações. Por isso, não perca tempo copiando trechos de livros ou anotando as falas exatamente da forma como o professor disse em aula. Essa prática além de ser muito passiva, não tem muita eficácia no aprendizado. A não ser que você esteja sendo alfabetizado e o objetivo principal é ter fluência na escrita. Se não for esse o seu caso, não perca tempo fazendo essas anotações passivas.

Em vez disso, use os dois métodos que já ensinei por aqui como o método Cornell ou os mapas conceituais.

Sinto que eu não avanço, que não sou capaz de aprender nada!

Entenda que aprender, muitas vezes, dói. Sabe quando a gente não está acostumado a correr e dói o pulmão só de correr um pouquinho? É a mesma coisa.

Uma coisa fundamental da aprendizagem é que precisamos ter conhecimentos prévios. Não tem como pular etapas. Então, se você sentir que algum conteúdo está complexo demais, volte uns passos. Tente entender um pedaço do assunto que não está entendendo primeiro e depois volte. Não entendeu ainda? Tente encontrar alguém que possa tirar essa dúvida. Não tem ninguém? Procure outros materiais na internet: livros, sites, apostilas, exercícios, vídeos, o que seja.

Mas, acima de tudo, continue tentando entender esse conteúdo de outros jeitos. Dê um tempo, volte. Uma hora, “a ficha vai cair”. O nosso cérebro é maravilhoso: quando menos esperamos, ele vai ligar alguma coisa que está lá no fundo e conecta com algo mais recente e dá aquele “click”. E tudo começa a fazer sentido. Tudo que nós vivenciamos e praticamos vira a nossa “bagagem”. Por isso, a maior lição que eu poderia te ensinar para aprender mais é que você nunca pare de ser curiosa(o). Quanto mais vivência de coisas diferentes você tiver guardadas aí no seu cérebro, mais será capaz de associar e aprender coisas novas.

No vídeo, eu dei um resumo de tudo isso que escrevi aqui e você pode usar para indicar a alguém que está começando nos estudos (ou se você não entendeu nada do que eu escrevi ou estiver com preguiça sem tempo de ler 😊).

Então, vamos começar o ano bem nos estudos?

Publicado por

Luzia Kikuchi

Uma entusiasta em neurociência, apaixonada por ensino-aprendizagem e uma eterna aprendiz de professora.

4 comentários em “Como começar bem o ano nos estudos?

  1. Incrível, ótimo post muito detalhado e rico. Qualidade sensacional, pena que muitas pessoas não se interessam por blog, mas adorei o seu blog me serve de inspiração para futuros projetos, além de ajudar no desenvolvimento pessoal

    1. Ah, que bom que gostou do blog, Maurício! 🥰 O YouTube é ótimo para alcançar um público mais amplo, mas, na concepção dos conteúdos, para mim, sem o blog, os vídeos do YouTube não existiria. Eu acho que é fundamental a existência dos dois modelos de comunicação. Até porque há pessoas que preferem ler do que assistir vídeos. E também há informações que ficam cansativas quando explicadas no formato multimídia. Muito feliz em te ver por aqui também! Um abraço!

  2. Olá, estou pesquisando a respeito de como estudar para realizar um projeto de extensão na minha faculdade. Você poderia me disponibilizar qual a bibliografia que usou para esse post?

    1. Oi, Laura! Depende o que exatamente você pretende abordar no seu projeto de extensão. Pois, este post, é um compilado de vários posts que escrevi anteriormente, cujos links aparecem ao longo do texto. Se você voltar em alguns deles, eu coloco os links dos artigos científicos citados e também coloco a referência do livro utilizado quando pertinente ao assunto. Então dê uma olhadinha para ver se eles te atendem 😊 Abraços!

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