Como escolher o seu orientador? 4 pontos a considerar na sua escolha

Publicado em 06/08/2021 por Luzia Kikuchi

Se você estiver na universidade, talvez, em algum momento, vai se deparar com a escolha de um orientador ou uma orientadora. Pode ser quando estiver terminando uma graduação, com um trabalho de conclusão de curso, ou se escolher fazer uma iniciação científica. Se estiver pensando em ingressar na pós-graduação, aí a escolha de quem vai te orientar no trabalho será fundamental para nortear os seus dois a cinco anos na pós.

Basicamente, o orientador* tem a função de conduzir os passos fundamentais para você iniciar a sua pesquisa assim como conduzir o processo até a finalização bem-sucedida do seu trabalho.

* A partir daqui, vou optar por utilizar a palavra “orientador” de forma canônica, mas considere que pode ser de qualquer gênero, ok?

Ás vezes, a escolha do orientador não está totalmente sob o nosso controle. Principalmente, quando ingressamos em alguns programas de mestrado ou doutorado nos quais só é possível indicar alguns nomes, em ordem de preferência, no formulário de inscrição para o processo seletivo, mas não garante necessariamente que aquele professor será eleito como o seu orientador.

Porém, para quem já passou por alguma das situações de ter que escolher um orientador, sabe que, nem sempre, esse “casamento” dá certo. Muitas vezes, passa por “divórcios” muito delicados ou até mesmo do abandono do curso, antes mesmo de sua conclusão.

Nos meus 14 anos que estive envolvida com a universidade e a pesquisa, já ouvi todo tipo de história que daria para virar um livro, só para contar cada um desses “causos”. Alguns, poderiam ter sido evitados no início, outros, talvez poderia ter sido mitigados*, com uma boa conversa com esse “ser soberano” do qual você depende para finalizar o seu trabalho de pesquisa.

* mitigar é o mesmo que aliviar ou diminuir ou tornar algum processo menos penoso ou severo.

Para ser um pouco mais objetiva, minha intenção neste post é ajudar aqueles que estão no processo de iniciar a escolha de um orientador, por qualquer um dos objetivos que citei anteriormente. Assim, separei quatro erros que muitas pessoas cometem, no momento de escolher a pessoa que te guiará até o final da sua pesquisa. Levantei esses quatro aspectos, considerando a minha experiência e também os relatos de colegas que passaram pelo mesmo processo.

  1. Orientador famoso

O primeiro erro que vejo muita gente cometer é escolher um orientador só porque ele é um pesquisador muito famoso ou já muito consolidado na carreira, que exerce cargos importantes como coordenação ou direção.

Obviamente, quando você está começando do zero, sua intenção é ter o melhor tutor possível para que comece a sua carreira acadêmica com o “pé direito”. No entanto, essa escolha exige cautela pelos seguintes motivos:

  1. O orientador que já tem muitos compromissos, pode não ter tanto tempo para te guiar nas minúcias. Se você é um estudante que aprende rápido e que é bastante independente para buscar informação, talvez, ter um orientador desse não te trará prejuízos grandes e seja benéfico para a sua carreira;
  2. Ele pode ter uma agenda muito cheia e ser difícil de se comunicar em momentos cruciais do seu trabalho. Isso pode gerar muita insegurança, principalmente, para aqueles estudantes iniciantes na pesquisa;
  3. Orientadores que já estão consolidados, dificilmente tem paciência para explicar detalhes básicos para iniciantes. Obviamente, toda regra tem sua exceção, mas, no geral, por estarem muito ocupados, é possível que ele não consiga ler o seu trabalho muitas vezes, a ponto de passar um “pente fino” para te apontar erros ou melhorias.

Por isso, se você, ainda assim, querer ser orientado por alguém muito consolidado em uma área, leve em consideração o quanto você consegue ser independente para buscar soluções de problemas que enfrentará durante a pesquisa.

Vamos agora para o segundo erro mais comum:

  1. Orientador que não tem afinidade com o assunto

O segundo erro mais comum no momento de escolher um orientador é escolher uma pessoa que não tem afinidade com o assunto de sua pesquisa.

Quando eu digo, “não ter afinidade”, significa que aquele orientador não está muito interessado no assunto que você vai pesquisar. Pessoalmente, pode até ser uma pessoa agradável, mas, infelizmente, existem orientadores que aceitam orientar estudantes, mas não estão necessariamente interessados no conteúdo da pesquisa do seu aluno. Não se sabe muito o motivo de alguns professores fazerem isso, mas, existem duas hipóteses mais ouvidas pelos corredores da universidade. Uma delas seria para “inflar” o número de integrantes para o seu laboratório ou grupo de pesquisa. Já que, quanto maior for o número de pessoas, maior a chance de expandir as colaborações e, eventualmente, ter mais chances de obter verbas de agências de fomento para suas pesquisas. É quase uma equação simples: mais integrantes = mais publicações, mais visibilidade e mais verba.

A segunda hipótese mais ouvida é que, provavelmente, o programa de pós-graduação exija que alguns professores tenham um número mínimo de orientandos. Dessa forma, quando não encontram o estudante ideal, pegam assim mesmo só para cumprir com os números exigidos pelo programa.

E, em ambas hipóteses, na hora que você for pedir orientação para o seu trabalho, vai sentir que não consegue avançar muito em suas conversas e o orientador também não estará preocupado se conseguirá ou não terminá-lo.

Contudo, é interessante fazer uma ressalva que nenhum orientador é obrigado a saber de tudo nos mínimos detalhes do que está sendo conduzido pelo seu orientando. Mas, espera-se que, como professor responsável por esse estudante, tenha, minimamente, uma noção de como a pesquisa está sendo conduzida e que seja capaz de esclarecer alguns pontos, em momentos necessários como, por exemplo, no exame de qualificação ou na defesa final. Isso também se aplica em situações nas quais é preciso emitir um parecer para pedir uma bolsa de estudos ou, para quem já estiver recebendo uma bolsa, justificar qualquer divergência na avaliação de um relatório de pesquisa, por exemplo.

Então, mesmo que ele seja muito “gente boa”, considere esses riscos no momento de avaliar se aquele é o orientador mais adequado ou não.

  1. Orientador sem afinidade pessoal

O terceiro erro mais comum, por outro lado, é escolher aquele orientador com quem não se tem muita afinidade pessoal. É estranho dizer isso, sendo que, no item anterior, acabei de dizer que o orientador pode ser muito simpático, mas que talvez não seja adequado para uma boa condução da sua pesquisa, se ele não tiver interesse pelo seu trabalho.

O problema nesse quesito é quando se percebe que as desavenças pessoais começam a interferir no seu trabalho. Por exemplo, seus gostos e preferências incomodam o seu orientador, mesmo que isso não tenha relação com a sua pesquisa. Isso pode ser notado durante as conversas, quando ele te desmerece ou não se mostra aberto para te ouvir. Ou seja, você quer fazer de tudo para aprender com esse professor(a), mas ele parece não estar muito interessado(a) em compartilhar esse conhecimento com você porque, simplesmente, “não vai com a sua cara”.

Nesse caso, mesmo que o orientador tenha um currículo invejável, se ele não se mostrar aberto para interagir ou de ensinar algo, seu trabalho vai ser mais difícil do que precisa ser. E, de difícil, basta a sua pesquisa, não é mesmo?

  1. Orientador “controlador”

E o quarto e último erro é escolher um orientador muito “controlador”. Este tipo de orientador, no início, pode até parecer “mais cômodo” para o estudante, já que é ele quem dita toda regra do seu trabalho. No entanto, no momento que você resolver fazer de um jeito diferente, ou ter ideias inovadoras, vai ter muitos conflitos e dificilmente será aceito por esse orientador controlador.

E o problema desse tipo de orientador, que controla tudo nos mínimos detalhes, é que não está dando a oportunidade para o estudante pensar e tomar as decisões por conta própria. Não aceita bem os erros e não os vê como um processo do próprio aprendizado. Consequentemente, esse orientando ficará sempre inseguro, não sendo capaz de criar uma independência para realizar e aprender a fazer pesquisa por conta própria.

E como reconhecer um bom orientador?

Um bom orientador precisa saber dosar a capacidade do estudante, de acordo com a fase em que ele está. Se está muito “cru”, ensina o passo a passo. Se não está atendendo às expectativas, chama e conversa e não desliga simplesmente o vínculo. Ou seja, tem bom senso e não deixa o ego tomar conta dele.

Embora o currículo seja importante, não escolha um orientador pela “grife”. Ou seja, escolhê-lo(la) porque ele(a) já é muito conhecido(a) ou porque trabalha em um laboratório muito importante. Considere esses quesitos quando você já tiver uma certa maturidade para a pesquisa. Se estiver começando, leve mais em consideração o quanto aquele professor está disposto a te preparar como um futuro cientista.

Se tiver oportunidade de conversar com esse futuro orientador, faça isso antes de optar por essa pessoa formalmente no formulário de inscrição, por exemplo. Tente enviar um e-mail se apresentando e perguntar se teria disponibilidade para marcar um horário para poder conversar a respeito do seu trabalho. Fazendo isso, você já conseguirá ter uma prévia de como será a sua relação com esse orientador.

Eu, felizmente, tive muita sorte com os meus dois orientadores tanto durante a iniciação científica quanto na pós-graduação. Por isso, não passei por esses quatro casos que citei anteriormente. No entanto, presenciei outros muito tristes de estudantes que desistiram do curso, foram desligados injustamente do programa ou até mesmo foram abandonados por seus orientadores em momentos cruciais do trabalho. Eventualmente, também ocorre a troca de professor para orientação, por motivos diversos que não sejam, necessariamente, por incompatibilidade entre o estudante e o professor. Mas, também há casos em que se pode recorrer a essa opção por conta da relação tornar-se insuportável entre o orientador e o estudante.  Então, para evitar tais situações, espero que essas dicas tenham ajudado a escolher o seu próximo orientador.

E se você tiver dúvidas em como desenvolver um projeto de pesquisa, já tem um post aqui no blog onde eu expliquei o passo a passo.

No vídeo do canal, eu encenei esses quatro tipos de orientador, para que fique guardado na sua memória, na hora de fazer a sua escolha (o vídeo estará disponível a partir das 21h).

Publicado por

Luzia Kikuchi

Adora aprender sobre o funcionamento do cérebro para que possa entender certos tipos de comportamentos dos seres humanos e assim poder ajudar a si mesma e também a outras pessoas.

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