Como fazer anotações de aula mais produtivas?

Publicado em 06/11/2020 por Luzia Kikuchi

No post anterior, falei sobre como ter um aproveitamento melhor das aulas online e comentei que explicaria em um post separado sobre o motivo das anotações manuscritas serem mais eficazes para aprendizagem do que digitar no computador.

Existem diversas formas de fazer anotações de aula: umas preferem copiar todo o conteúdo apresentado na lousa ou nos slides, anotar as palavras do professor, fazer resumos com ênfase em materiais visuais como canetas coloridas, gráficos, etc. e, com o advento da tecnologia, ainda há aqueles que gravam os áudios de aula e aqueles que fazem todas essas ações com a ajuda de um computador. Porém, o que de fato ajuda a memorizar e aprender melhor?

Segundo o estudo conduzido por Morehead e outros colaboradores (2019), 577 estudantes universitários da Universidade Estadual de Kent, nos Estados Unidos, com 55 perguntas a respeito de seus hábitos de anotações durante as aulas e a forma como estudam apoiando-se nelas. O que foi constatado é que a forma de fazer anotações e os hábitos de estudos dos universitários atuais diferem muito pouco dos estudantes da década de 70. Com a exceção talvez do aparato tecnológico utilizado: o computador. Mas, o que será que é mais eficaz para a aprendizagem? Fazer as anotações à mão ou no computador?

Por que fazer anotações no computador pode não ser eficaz?

Segundo estudos anteriores, que já apresentei nos posts passados, as anotações de aula devem ser feitas com o propósito de testar os seus conhecimentos. Ou seja, fazer cópias literais de um conteúdo de referência (lousa, apresentação digital ou as palavras literais do professor) não ajuda na memorização deste conteúdo. E quando se usa o computador, devido a facilidade de anotar o conteúdo enquanto acompanha a aula, a tendência é que suas anotações fiquem com transcrição de forma literal, como um escrevente que anota o que está sendo dito durante uma audiência, por exemplo.

Escrevente em um tribunal

No estudo de Morehead, também é citado que o barulho causado ao digitar pode distrair tanto quem digita quanto os colegas que estão ao lado durante a aula. Por isso, anotar usando o computador parece não ser eficaz para aprendizagem porque tendemos a seguir hábitos já conhecidos como pouco eficazes para os estudos.

O que há de tão especial em fazer as anotações à mão, em termos cognitivos?

Deixando à parte a questão de não fazer anotações literais ou passivas que não passem por uma transformação do conhecimento e que você sempre deve tentar ativamente reconstruir o seu aprendizado com as suas próprias palavras, existe alguma outra razão cognitiva na qual escrever à mão tenha mais benefícios do que digitar as anotações no computador?

Em um estudo feito em 2008 com adultos, por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), foi constatado que escrever à mão ativa uma região do cérebro responsável pelo aprendizado da linguagem. Dessa forma, quando uma pessoa escreve uma palavra de forma manuscrita conseguirá memorizar por um tempo maior essa informação do que se tivesse escrito apenas no computador. Para constatar tais fatos, os pesquisadores usaram aparelhos de ressonância magnética para comprovar o estado de ativação do cérebro.

Dessa forma, usar o bom e velho caderno de papel e fazer as anotações à mão parecem ser bem mais efetivas para aprender a longo prazo.

E quanto às canetas digitais que vêm em tablets e alguns tipos de smartphones?

Ainda existem poucos estudos que retratam a diferença de eficácia entre as anotações em papel e caneta à tinta com as canetas digitais. Particularmente, encontrei uma pesquisa relativamente recente conduzida em 2019, por pesquisadores da Universidade de Osaka no Japão, que analisou a capacidade de aprendizagem de vocabulário um grupo de voluntários adultos usando a caneta digital.

Para conduzir o teste, os pesquisadores separaram os voluntários em dois grupos: o primeiro que tinha familiaridade com a caneta digital e outro grupo que não tinha o hábito de uso desse dispositivo. E com a ajuda de um eletroencefalograma (um aparelho que mede a atividade elétrica do cérebro por meio de eletrodos colocados no couro cabeludo) analisaram a diferença no nível de sobrecarga cognitiva causada ao usar a caneta digital para escrever certas palavras simples até outras mais sofisticadas.

Os resultados mostraram que a capacidade de aprendizagem não é afetada de acordo com o dispositivo. No entanto, o nível de sobrecarga cognitiva dependerá do nível de familiaridade de uso desses aparatos. Ou seja, se você tem familiaridade para escrever com caneta digital, ela será tão eficaz quanto escrever com caneta e papel convencional.

Um teste similar foi conduzido por pesquisadores franceses e publicado na Computers & Education, em fevereiro de 2020, mas conduzido com crianças em idade de pré-alfabetização. Embora o estudo seja ainda preliminar, os indícios mostraram que o uso de canetas digitais pode ser tão eficaz ou até superior para prática da escrita, mas também dependerá da capacidade motora de cada criança. Os pesquisadores comentam que a eficácia poderá ser superior por conta da exigência de coordenação motora fina para controlar a pressão da escrita de uma caneta digital, que costuma ser muito mais sensível do que uma caneta à tinta convencional.

Ponto crítico: usar ou não usar dispositivos digitais na sala de aula?

Sabemos que vivemos em uma sociedade cada vez mais dependente de aparatos tecnológicos digitais como computadores, celulares e tablets. Portanto, é natural que esses dispositivos passem a fazer parte da rotina da sala de aula e este ambiente também passe a ser remodelado de acordo com a nova realidade.

Porém, o ponto crucial no uso dessas tecnologias é saber se tanto o estudante quanto o professor estão preparados para integrá-lo na sala de aula. Por exemplo, outro estudo feito por um grupo de pesquisadores do MIT verificou o impacto do uso de computadores e dispositivos digitais na performance acadêmica na academia militar dos Estados Unidos. De acordo com os resultados obtidos, aqueles que usaram os dispositivos eletrônicos tiveram uma performance ligeiramente menor do que aqueles que não usaram. No entanto, os pesquisadores fazem uma ressalva de que esses resultados retratam o caso de estudantes que podem escolher ou não usar dispositivos eletrônicos, não sendo uma escolha deliberada da instituição.

O principal fator que impactou na performance dos estudantes foi a capacidade de autocontrole e foco de uso dos computadores, tablets ou celulares. Uma grande maioria deles acabavam distraindo-se consultando e-mails ou navegando por websites, dividindo a atenção com a aula. Além disso, a pesquisa apontou uma maior deficiência em fazer as anotações de aula nesses estudantes.

Esses resultados não parecem ser nenhuma novidade para muita gente. Principalmente, se levar em conta na fragilidade de manter o foco quando os dispositivos podem chamar muito mais a atenção do que uma aula com um conteúdo monótono e estudantes que se comportam de maneira passiva. Porém, a minha crítica em relação à pesquisa é que isso não depende só do dispositivo. Mesmo que os estudantes não usem os dispositivos eletrônicos, mas não sabem fazer anotações de aula eficazes, para mim, o problema continua sendo o mesmo. Talvez, por conta de não disputar a atenção com outras tarefas, mesmo aqueles que não fazem anotações eficazes, podem, de certa forma, ter uma performance melhor nos exames do que aqueles que ficaram totalmente distraídos com as suas notificações digitais. Mas, na minha visão, acredito que usar ou não dispositivos digitais na sala de aula depende muito mais da maturidade e autocontrole do usuário. Do professor, exige-se a criatividade de incentivar o aluno a usar esse dispositivo de forma inteligente do que exigir um comportamento meramente passivo.

Publicado por

Luzia Kikuchi

Adora aprender sobre o funcionamento do cérebro para que possa entender certos tipos de comportamentos dos seres humanos e assim poder ajudar a si mesma e também a outras pessoas.

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