Como escolher congressos e eventos acadêmicos

Publicado em 10/07/2020 por Luzia Kikuchi

Com o mundo interconectado que vivemos hoje, é muito difícil não ficar sabendo de eventos para participar. Seja qual for a profissão que você vá seguir no futuro, é muito importante manter-se atualizado sobre as discussões, descobertas e práticas da sua área. E, para isso, normalmente são organizados eventos voltados para os profissionais específicos de uma área.

Na *área médica é muito comum os profissionais apresentarem suas pesquisas em congressos e também de participar nesses eventos para ouvir os colegas. Além dos médicos, os *pesquisadores das universidades também comumente participam de eventos temáticos de alguma área.

* não quero dizer que profissionais de outra área não participam de eventos, apenas cito essas principais, pois é o que comumente ouço como rotina de trabalho do que nas outras profissões.

E quando você chega na pós-graduação, a participação nesses tipos de evento torna-se cada vez mais obrigatória, por duas razões:

  1. Para divulgar sua pesquisa e conhecer outras, além de ser avaliado por seus pares;
  2. Se você é bolsista de alguma agência de fomento, é um dos requisitos obrigatórios para renovar anualmente a sua bolsa de estudo.

Nesse segundo caso, é preciso trabalhar estrategicamente os prazos de aceite de cada evento para que dê tempo de apresentar o certificado de participação nos relatórios anuais. Mas, o fato de ser importante não te obriga a participar simplesmente de todos que surgem na área, pois, se inscrever em todo evento que aparece na sua frente, praticamente, pode-se viver só disso, já que opções não faltam. No entanto, não temos tempo e nem orçamento suficiente para participar de todos eles. 

Então o que fazer?

Crédito da imagem: Andrea Piacquadio

Se posso listar uma das coisas que eu mais participei durante a minha formação é de eventos acadêmicos. Então, vou contar um pouco da minha experiência nesse quesito, apresentando alguns passos essenciais que podem te ajudar a planejar estrategicamente sua participação nesses eventos.

Passo 1: trabalhe como voluntário

Para você entender primeiro a dinâmica de um evento acadêmico, sugiro que participe como ouvinte em algum que seja na sua instituição. Tem muitos deles que são gratuitos e basta se inscrever.

Eu comecei a participar de eventos acadêmicos na graduação, só como ouvinte inicialmente. Em particular, uma experiência que me marcou foi quando me voluntariei para fazer parte da equipe de organização da Semana de Licenciatura em Matemática no Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (não me lembro exatamente do ano, mas acredito que seja 2007). Veja a foto da época:

Eu junto com colegas do curso e os professores do IME-USP.
Crédito da imagem: acervo pessoal.

A vantagem que recebemos pelo nosso trabalho voluntário foi ganhar a inscrição para o evento e assim poder fazer alguns minicursos gratuitamente. Se você está com orçamento curto, mas tiver tempo e disposição para doar, essa é uma ótima opção para começar a aprender como funciona os bastidores desses eventos e também a oportunidade de fazer cursos gratuitamente, quando for o caso. Obviamente, os critérios para seleção dos voluntários podem variar de evento para evento, mas não custa nada procurar o responsável pela organização para saber de mais detalhes.

Passo 2: participe de um evento regional ou nacional

Depois que você já tiver uma ideia de como funciona um evento local, está na hora de pensar em participar de algum evento regional ou nacional. A escolha vai depender da sua disposição e orçamento. Porém, muitos desses eventos costumam ser sediados em cidades diferentes. Se você mora na capital do estado ou uma cidade com população grande, a chance de um evento desse porte vir para o seu local é maior. Então é bom ficar atento ou atenta para saber se não está acontecendo algum caso como esse.

Por que escolher os eventos regionais e nacionais como prioridade?

Se você está começando a sua pesquisa, como iniciação científica ou um mestrado, e nunca enviou algum trabalho para ser avaliado por outras pessoas, pode ser que escrever um artigo já seja muito assustador no começo. Além disso, se for apresentar esse trabalho, vai ser mais um desafio e tanto. Imagine fazer tudo isso em um idioma diferente da sua língua materna e que tenha a participação de especialistas na área. É muita coisa para uma primeira vez que pode causar o famoso “bloqueio” ou “auto sabotagem”.

Por isso, idealmente, comece em eventos menores para se acostumar e depois vá progredindo para outros maiores.

No meu caso, o primeiro evento onde apresentei um trabalho foi durante o mestrado no XIV Encontro Brasileiro de Estudantes de Pós-Graduação em Educação Matemática (EBRAPEM), que foi em Campo Grande no Mato Grosso do Sul, em 2010. Embora o evento tenha sido nacional, o fato de ser um encontro entre estudantes amenizou um pouco a “pressão” na hora da apresentação, pois você acaba falando com pessoas que também estão no mesmo nível que você. Segue alguns registros da época:

Foto na frente do lago da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS).
Crédito da foto: Acervo pessoal.

Minha amiga, Wanessa Trevizan, apresentando o trabalho.
Crédito da foto: Acervo pessoal.

E onde eu consulto esses eventos?

Normalmente, dentro de cada área de pesquisa, há uma sociedade que reúne pessoas de uma área de estudo. Então, a minha recomendação é que você procure o portal da sociedade que pertence à sua área. Por exemplo, no meu caso, eu faço parte da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM) e esse portal reúne alguns eventos regionais e nacionais mais importantes dessa área de pesquisa, como você pode ver na figura 1:

Figura 1 – Consulte o menu eventos do portal da SBEM.
Crédito da imagem: sbembrasil.org.br

Na figura 1, perceba que há um menu nesse portal chamado “Eventos” que é onde encontrará a relação de acordo com a característica. É possível notar também que há um link para eventos internacionais e afins, que vou explicar no passo 3.

Passo 3: intercale com eventos internacionais

Na época que eu fazia mestrado, tive a oportunidade de participar de um evento na Argentina, numa cidade chamada Tandil, que fica a 400 km da capital federal, Buenos Aires. É uma cidade pacata do interior cuja fama se concentra em formações rochosas de formatos curiosos, como essa da foto:

Formação rochosa em Tandil
Crédito da imagem: acervo pessoal.

Eu fugindo da pedra como o Indiana Jones.
Crédito da imagem: Acervo pessoal.

Por ser um evento latino americano, foram aceitos trabalhos em espanhol, português e francês (não me pergunte o porquê deste último, mas talvez seja o fato de alguns pesquisadores franceses estarem presentes no evento – como o Dr. Gérard Vergnaud. Embora tenhamos também o fato de termos um país na América do Sul que é colônia francesa). 

Resolvi enviar meu trabalho para esse evento como forma de progredir em mais um “nível de desafio” em eventos e também por ter uma barreira menor para o idioma, pois, além do espanhol ser relativamente compreensível para falantes da língua portuguesa, a apresentação também era permitida ser feita em português.

Outro ponto positivo de participar de eventos na América Latina é que o custo da viagem é menor, por não ser muito longe, e também o câmbio da moeda também nos favorece na maioria das vezes. No caso da Argentina, em especial nos dias de hoje, o real brasileiro está bem valorizado frente ao peso argentino.

E, assim como o caso dos eventos regionais e nacionais, os internacionais também podem acontecer em alguma cidade que seja próxima de você, não sendo necessário sair do país. Então, vale a pena acompanhar pelo portal das sociedades e prestar atenção em quando será o próximo.

E quando o seu orçamento permitir, também se desafie em participar de um evento em outro continente, como na América do Norte ou Europa (por que não a Ásia ou Oceania também? rs). No meu caso, o primeiro evento desse porte foi em Madrid, na Espanha em 2017, para participar do VIII Congreso Iberoamericano de Educación Matemática (CIBEM). Nessa época eu já estava no doutorado e também era bolsista da CAPES.

Eu e minha colega Andressa Trevizan em Madrid.
Crédito da foto: acervo pessoal.

Esse evento foi muito importante, pois lá tive a oportunidade de receber comentários de pesquisadores da Universidade de Barcelona e um dos trabalhos apresentados virou um artigo publicado no periódico Cadernos de Pesquisa da Fundação Carlos Chagas (FCC). Obviamente, o artigo do periódico foi mais aprofundado em comparação com à versão que foi apresentada no evento. E é neste ponto que quero explicar o próximo passo.

Passo 4: utilize o congresso para receber dicas para o seu trabalho

Quando você está fazendo uma pesquisa, é muito difícil receber feedbacks ou comentários e sugestões constantes sobre o seu trabalho. Muitas vezes, você e o orientador são os únicos que estarão imersos nele (em alguns casos, nem o orientador… Mas, eu deixo essa discussão para um outro post).

Então, quando você envia uma proposta de trabalho para algum evento, o primeiro crivo que você passa é dos avaliadores. Como na maioria dos casos essa avaliação é feita no sistema duplo-cego, isto é, nem você e nem o avaliador sabe de quem se trata, o seu trabalho será avaliado apenas pelo mérito da contribuição à área. E isso é uma ótima forma de se testar para saber se está no caminho certo na sua pesquisa. 

É melhor se testar assim do que ter uma surpresa desagradável no exame de qualificação, ou pior, na defesa final da sua dissertação ou tese.

Além disso, a não ser que o seu trabalho esteja realmente impecável, normalmente nessas avaliações, você receberá algumas sugestões em como melhorá-lo. E, muitas vezes, isso é mais valioso do que o evento em si. Se além disso, você ter o trabalho aceito, melhor ainda! Pois assim terá mais uma chance de receber dicas e sugestões de pessoas que encontrará no evento.

Engana-se quem pensa que eu sempre tive meus trabalhos aceitos em eventos. Pelo contrário, já tive alguns trabalhos rejeitados. Um deles foi pelo fato do tipo do trabalho não estar enquadrado na discussão do evento e um outro foi por falta de profundidade na discussão, que foi causada por falta de tempo para escrever o trabalho (fiquei sabendo do evento cinco dias antes do término e tive que escrever às pressas em inglês!). Por isso, é importante se planejar. Não adianta escrever um trabalho correndo se você não tem nada pronto ainda.

Mas, como eu disse anteriormente, com esses feedbacks consegui melhorá-lo e esses dois trabalhos anteriormente rejeitados foram aceitos em eventos posteriores. Inclusive, o segundo artigo que tentei escrever em inglês, também foi publicado nesse idioma no Cadernos de Pesquisa da FCC como tradução do artigo aceito em português. Porém, dessa vez fiz com mais calma e também enviei para revisão de um especialista depois*.

* Se você quiser saber das dicas para escrever um artigo em inglês, pode acessar um post anterior.

Passo 5: aproveite a viagem do congresso para enriquecimento cultural

Não há oportunidade melhor para viajar do que esses congressos e eventos. Muitas vezes, quando planejamos uma viagem de férias, acabamos escolhendo apenas os lugares populares e deixamos de conhecer outros locais que podem ser tão interessantes quanto.

Por isso, o que eu tenho feito para otimizar o orçamento é programar a viagem de férias perto desses eventos. Assim, você vai guardando o dinheiro aos poucos e une o útil ao agradável.

Aproveite que todo evento sempre reserva um tempo de atividade cultural e curta esses momentos conhecendo a cidade, a cultura ou a paisagem local. Tenha certeza de que esse enriquecimento vai te trazer muitos frutos em termos de criatividade e pensamento flexível no futuro. Além disso, conhecer outras culturas nos ajuda a ser menos julgadores e mais empáticos quando nos deparamos com diferenças. Eu com certeza não seria a mesma pessoa hoje, se eu não tivesse passado por essas experiências no passado.

Deixe nos comentários quais outras dicas você conhece sobre eventos e congressos que eu não citei aqui. Também me conte alguma experiência inusitada que aconteceu em algum dos eventos com você. (Eu tenho algumas, mas deixo para contar numa próxima oportunidade!)

E se você quiser ver ou enviar uma versão resumida desse post para alguém, segue o vídeo:

Publicado por

Luzia Kikuchi

Adora aprender sobre o funcionamento do cérebro para que possa entender certos tipos de comportamentos dos seres humanos e assim poder ajudar a si mesma e também a outras pessoas.

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