Existem mesmo estilos preferenciais de aprendizagem?

Publicado em 18/12/2020 por Luzia Kikuchi

Em uma sociedade composta por pessoas de diferentes hábitos, culturas e experiências diferentes, é natural que cada uma delas construa o seu rol de conhecimentos de formas distintas. Dentro dessa temática, muito se fala sobre os “estilos de aprendizagem” e que o professor deve variar as suas técnicas de aulas para atender aos diversos estilos de aprendizagem dos educandos. No post de hoje pretendo discutir se essa última afirmação é verdadeira ou não.

Existe particularmente três tipos de aprendizagem mais conhecidos: visual, auditiva e sinestésica. Em um modelo chamado VARK*, criado por Neil Fleming e Colleen Mills da Universidade de Lincoln, na Nova Zelândia, ainda há a inclusão de mais uma categoria chamada leitura/escrita, representada pela letra R de “Reading”. Esse modelo consiste na aplicação de um questionário composto por 16 perguntas o qual permite indicar ao estudante, de acordo com suas respostas, o seu estilo preferencial de aprendizagem.

*VARK é um acrônimo para Visual, Aural, Read/Write e Kinesthetic que correspondem, respectivamente, em Visual, Auditiva, Escrita/Leitura e Sinestésica. Para quem quiser conhecer o questionário, segue o link (em inglês).

De acordo com o modelo criado por Fleming e Mills, sugere-se que o VARK pode ajudar o estudante a obter melhores resultados em seu aprendizado, se respeitar o seu estilo de aprendizagem predominante. Obviamente, o aluno pode apresentar mais de uma categoria como de sua preferência, inclusive, apresentando-se em combinações de duas, três ou mais. Nesse último caso, pode ser classificado como multimodal quando o educando não tem uma preferência particular sobre um estilo de aprendizagem ou ainda prefira ter uma combinação de estímulos diferentes para aprender melhor sobre um conteúdo.

Se você quiser conhecer as características de cada uma dessas categorias, assista a este trecho do vídeo:

Esse questionário ficou particularmente popular no meio educacional, tornando-se comum ouvir afirmações de que os educandos não são capazes de aprender quando não tem a oportunidade de se expressarem pelo método de aprendizagem de sua preferência, por isso, é importante que os professores contemplem variados estilos de aprendizagem em suas aulas.

Vamos por partes…

Esse é mais um daqueles casos em que uma pesquisa acadêmica é mal interpretada por leigos ou aplicada e interpretada de forma equivocada. Uma delas é a Teoria das Inteligências Múltiplas, do Howard Gardner, que dedicarei sua discussão em outro post.

Antes de tudo, a pesquisa publicada em 1992 por Fleming e Mills discute que a aprendizagem depende muito mais do aluno do que especificamente do estilo de ensino do professor. Por isso, o propósito principal do VARK é ajudar os estudantes a encontrar um caminho para melhorar a sua aprendizagem, baseando-se nas categorias predominantes respondidas por eles mesmos, mas não para saber o melhor método para treiná-los. Tampouco o questionário deve ser utilizado como fins diagnósticos, conforme esclarecido pelo próprio Fleming.

Lilienfeld, Lynn, Ruscio e Beyerstein publicaram em 2010 um livro intitulado “50 grandes mitos sobre a Psicologia Popular” em que dedicam um capítulo desmistificando sobre a crença sobre os “estilos de aprendizagem”. Os autores ponderam que é muito difícil definir o que seria um estilo de aprendizagem. Por exemplo, o VARK (FLEMMING e MILLS, 1992) adota modalidades sensoriais em suas categorias. Já outros modelos, como o de Honey-Mumford adota categorias de personalidades como “ativisitas”, “reflexivas”, “teóricas” e “pragmáticas”, o que é muito diferente do método classificado por Flemming e Mills (1992). Dessa forma, definir o melhor estilo de aprendizagem pode ter muito mais nuances do que os representados por meio de um questionário de apenas 16 perguntas.

Por essas justificativas, parece ser suficiente concluir que os “estilos de aprendizagem” parece ser um mito propagado no meio educacional. Mas, por que será que essa teoria se popularizou nesse meio?

Lilienfeld e outros autores (2010), no livro citado anteriormente, acreditam que o primeiro motivo seria pelo fato dessa classificação não separar os estudantes em “bons” ou “maus”, mas em aqueles que não tiveram a oportunidade de aprender de acordo com o seu “estilo de aprendizagem”. Esse tipo de interpretação pode causar uma falsa sensação de educação democrática e de inclusão dos alunos que têm dificuldades para aprender.

O segundo motivo é que o assunto parece ser comercialmente interessante para criação de cursos e capacitações de professores, inclusive, sendo muito requisitado por coordenadores e diretores de instituições de ensino, o que ajuda a perpetuar a crença neste modelo.

Meu ponto de vista

Acredito que a necessidade excessiva de apresentar categorias e classificações pode conduzir às práticas equivocadas. Mas, isso não é exclusividade da área de ensino, ocorre também na Medicina.

Por exemplo, o médico psiquiatra Bessel Van Der Kolk, muito conhecido pelo seu livro “The Body Keeps the Score” (Tradução livre: O corpo mantém a marca) critica, por meio de exemplos em seu livro, as excessivas necessidades de categorizações utilizadas pela Medicina para tratamentos de pacientes, sem procurar entender os pormenores de cada um deles e basear-se apenas em dados estatísticos. O autor critica principalmente a falta de abordagem de uma terapia que contemple as causas do sofrimento do trauma e não apenas “curar” os sintomas causados por ele. Nessa linha, Bessel recomenda, por exemplo, abordagens como do psicólogo e biofísico Peter Levine chamado “Experiência Somática”, que leva em consideração algumas reações inerentes do nosso corpo perante o trauma e tenta ajudar na sua cura por meio de uma abordagem neurossensorial. Dessa forma, o tratamento utiliza-se de protocolos gerais de reação do corpo como base, mas a condução da terapia é personalizada.

O motivo de eu ter citado esse exemplo é para explicitar um ponto em comum entre a Medicina e a Educação: lidamos com seres humanos. Não podemos tratar pacientes e alunos como números. Ainda que as categorias dos “estilos de aprendizagem” não tenham uma conotação pejorativa quanto chamar os alunos de “ruins” ou “bons”, elas potencialmente podem limitar a capacidade de desenvolver novas habilidades dos educandos. E isso, sim, pode ser muito prejudicial ao meu ver.

Como educadora, acredito que as técnicas de ensino devem ser variadas para criar novas oportunidades para o aprendiz. 

Por exemplo, no post que falei sobre os mapas mentais, apresentei que essa técnica pode ajudar a estimular novas habilidades. Dependendo do ambiente que o aluno convive, o seu estilo de estudo pode ser limitado a apenas um modo que, muitas vezes, pode não ser o mais eficaz. E é por esse motivo que o professor precisa apresentar novas maneiras de assimilar o conteúdo. Dar autonomia ao aluno para desenvolver novas habilidades de aprendizagem e não os limitar dentro de um único “estilo de aprendizagem”.

Embora eu esteja de acordo que a classificação dos “estilos de aprendizagem” seja uma falácia, algo que eu não concordo são estudos como os de Hussman e O’Loughlin que tentaram argumentar a falácia dos “estilos de aprendizagem” por resultados de desempenho na avaliação aplicada na disciplina de anatomia humana, na Escola de Medicina da Universidade de Indiana. 

Para mim, esse estudo apresenta um problema metodológico quanto ao tipo de avaliação aplicada aos estudantes. Por exemplo, se a avaliação não contempla as habilidades que estão previstas nas categorias do VARK, que foi o modelo utilizado na pesquisa, é evidente que não haverá correlação do desempenho dos estudantes com o método preferido utilizado. Aliás, nenhuma avaliação consegue ser um retrato fidedigno de aprendizagem do estudante. É por isso que, embora a conclusão seja válida, o motivo pelo qual leva a essa conclusão me parece um pouco equivocada.

Ao meu ver, a aprendizagem é um processo contínuo e não se resume a uma avaliação de um curso ou quanto ele memorizou de um conteúdo. Um bom aprendiz é aquele que consegue aprimorar novas habilidades para que possa exercer sua profissão com autonomia e competência. Por isso, em vez de pensar em “estilos de aprendizagem”, acredito que o papel fundamental do professor é trazer atividades que possam despertar o interesse, o senso crítico e a autonomia nos estudantes para resolver problemas que enfrentarão no dia a dia.