Como evitar o plágio no seu trabalho acadêmico?

Publicado em 23/10/20202 por Luzia Kikuchi

Talvez você já tenha ouvido falar sobre algumas discussões sobre plágio no meio artístico, principalmente, no meio musical com acusações de que um artista x copiou o artista y e não está pagando devidamente os direitos autorais, entre outras.

No meio artístico, a consequência mais imediata da constatação de um plágio é o autor tentar reivindicar os seus direitos autorais entrando com um processo na justiça. E isso pode custar uma boa dor de cabeça emocional quanto financeira.

No YouTube, por exemplo, a constatação de um possível plágio e a reinvindicação de direitos autorais pode acontecer de duas formas: 

  1. Abrindo um chamado (ou, nos termos do YouTube, aplicar um strike) no qual o criador de conteúdo, que possivelmente usou o conteúdo sem autorização prévia, pode ter o seu vídeo bloqueado para transmissão na plataforma até que o suposto autor, detentor dos direitos autorais, e o criador de conteúdo entrem em um acordo. Dependendo do número de strikes, o canal pode até ser desativado da plataforma, como ocorreu recentemente com um famoso canal de entretenimento chamado “Rato Borrachudo”, que gerou uma comoção na internet. Felizmente, os dois criadores, tanto aquele que sinalizou com o strike quanto o dono do canal Rato Borrachudo, entraram em um acordo e o canal continuou no ar.
  2. Outra opção é o autor do conteúdo aplicar um chamado de “reinvindicação de direitos autorais”. Nesse caso, o criador que postou o suposto conteúdo protegido por direitos autorais fica impedido de ter os ganhos de monetização com esse vídeo em seu canal e todos os ganhos serão totalmente revertidos em prol do criador original do conteúdo. A vantagem nesse caso é que o vídeo continua no ar e o seu canal não corre o risco de ser excluído da plataforma.

Embora existam muitas controvérsias em relação à forma que o YouTube permite a aplicação dessas reivindicações, principalmente, porque a legislação nos Estados Unidos (onde fica a matriz) e a brasileira compreendem de formas diferentes ao que se entende como utilização justa de material protegido por direitos autorais, na maioria dos casos, existem regras básicas que devem ser seguidas (Lei Federal Nº 9.610/98) para evitar o plágio em seus trabalhos intelectuais, industriais, etc.

E no meio acadêmico? Como ocorre o plágio?

Já no meio acadêmico, o plágio tem consequências “menos graves”, pelo menos em termos econômicos, comparado aos exemplos anteriores que citei. No entanto, em alguns casos, como uma dissertação ou uma tese, ela pode culminar em uma cassação do respectivo título obtido.

O grande problema do plágio no meio acadêmico é que muitas pessoas não têm noção do que pode ser considerado plágio ou não. Isso se agravou ainda mais com o advento da internet e do Google, que acaba facilitando a disseminação de trabalhos com cópias literais de um lugar para o outro. Quem nunca entrou em um blog ou um portal e viu um artigo completamente igual ao outro? No melhor dos casos, o criador do conteúdo referencia de onde retirou o material, mas, em outros, até se perde quem é realmente o criador original daquele texto.

Um exemplo clássico de plágio, que é pouco discutido nas escolas, é quando o professor pede para que o estudante faça uma pesquisa e escreva uma monografia sobre um determinado tema e ele simplesmente copia e cola o texto encontrado na internet, sem citar a fonte. A falta de orientação e advertência nessa fase do ensino básico acaba perpetuando a prática no ensino superior na qual os alunos copiam e colam textos encontrados na internet, sem a devida referência, e apresentam como se fossem dissertações suas. Na minha experiência com alunos de graduação, toda vez que encontrava algo desse tipo nos trabalhos dos meus alunos, sempre fiz uma ação educativa de anular o trabalho feito e solicitar a apresentação de um novo, com as devidas orientações de como fazer corretamente as citações.

Contudo, existe um outro tipo de plágio que é feito de forma inocente: reescrever as ideias de outro autor, mas sem fazer a devida citação da fonte. Esse tipo de prática é mais comum do que se imagina e muitos nem imaginam que estão cometendo uma ilegalidade nesse caso. Obviamente, em termos de gravidade, comparado com o primeiro exemplo, na qual a reprodução é feita de forma ativa, a segunda pode ter nuances. Porém, não deixa de ser grave. E é aqui que eu pretendo deixar algumas dicas para evitar esse tipo de “deslize”.

Dica 1: Sempre anote as referências completas em um documento

O processo de escrita nem sempre é linear, ainda mais quando se trata de trabalhos longos como um TCC, dissertação ou tese. Até mesmo de artigos científicos que, muitas vezes, são resultados de estudos muito longos. Normalmente, vamos escrevendo aos poucos e retomamos em dias subsequentes.

Por isso, é importante manter o registro de todas as suas referências utilizadas em um documento, para que eles sejam devidamente incorporados no final do trabalho. Além disso, quando for parafrasear a ideia de um autor, anote imediatamente, dentro dos parênteses, de onde aquele dado foi retirado, se possível, com o número da página para futura consulta.

Segundo as normas da ABNT, a citação com o número da página só é necessária quando o trecho foi retirado de forma literal. Porém, para efeitos de consulta, pelo menos enquanto estiver escrevendo o texto, é recomendável deixar anotado o número da página para saber se a ideia foi realmente reescrita ou está citada de forma literal.

No Word, pelo menos na versão 15 para Mac, existe um recurso chamado “citações” que permite a gravação das referências completas usadas em seu texto e, assim, poder ser rapidamente utilizado sem a necessidade de consultá-lo manualmente toda vez que for precisar.

Eu confesso que, pessoalmente, não utilizo esse recurso e ainda prefiro fazer manualmente, pois, ele tem a desvantagem de colocar automaticamente, no final do documento, as referências completas utilizadas. E, no caso de trabalhos muito longos, prefiro separar os capítulos por arquivo, do que ter todo texto num único documento.

Recomendo ler o capítulo 4, do livro “The Psychology of Effective Studying, pois há muitos exemplos de trechos que podem ser considerados plágios.

Dica 2: Planeje tempo suficiente para ler, escrever e revisar o seu texto

Segundo o livro “The Psychology of Effective Studying” do professor Paul Penn, da Universidade de East London, uma das principais causas do plágio acadêmico inocente é a procrastinação. Isto é, se você deixa o seu trabalho para última hora, não terá tempo suficiente para ler e anotar as referências de forma cuidadosa para serem citadas no seu texto e, depois, para revisá-lo adequadamente antes de entregá-lo.

Por isso, sempre planeje bem a prioridade de suas tarefas. Em um vídeo anterior, eu dei 5 erros mais comuns sobre produtividade e nela citei o erro número 1, que é não dar prioridade a organização. Eu mesma cometi esse erro muitos anos atrás, quando deixava os textos e as referências desorganizadas e espalhadas no meu computador ou em vários pendrives. Com isso, tinha muita dificuldade para encontrar determinado trecho de um material e aquilo acabava tornava-se inutilizado. Ou seja, para poder fazer uma revisão mais eficiente, você precisa ter o seu material organizado. Caso contrário, precisará de um tempo muito maior para revisar o seu texto.

Dica 3: Tente consultar os materiais originais

Nas normas ABNT, há um recurso que se usa a “citação da citação” que é representado pela palavra em latim apud. No entanto, esse recurso deve ser evitado na medida do possível, para que uma ideia original não seja distorcida. Não usar a citação original deve ser somente em casos que seja muito difícil encontrar a fonte original do material (ex.: materiais disponíveis apenas fisicamente, muito antigos ou em idioma inacessível, etc.).

Com essas dicas, você estará menos suscetível a cair no problema do plágio nos seus trabalhos daqui em diante.

Como evitar as revistas predatórias?

Publicado em 14/08/2020 por Luzia Kikuchi

O post de hoje tem o objetivo de informar sobre essa questão, para evitar que você aceite convites “aparentemente” atraentes para “turbinar” o seu currículo acadêmico.

Bem, primeiro vou explicar o que são essas revistas predatórias. Para isso, vou descrever o seu modus operandi para tentar ilustrar. Obviamente, pode haver alguma leve diferença entre um caso e outro, mas vou relatar a minha experiência.

Essas empresas ou editoras entram em contato ativamente com o autor citando um artigo de congresso ou até mesmo de uma dissertação ou tese recém defendida, e fazem um convite para publicar o seu trabalho em formato de livro ou para ser o capítulo de uma coletânea de outros trabalhos sobre o mesmo tema. A abordagem é bastante convincente, pois elogiam o trabalho, dizem que por ser um material relevante foi previamente “selecionado” pelos editores e por isso te convidam para publicação. Pedem para entrar em contato caso tenha interesse.

Você, inocente, lisonjeado(a) com os elogios (tudo que um aluno de pós-graduação gostaria de receber depois de árduos anos para desenvolver esse trabalho), vê a oportunidade de ter uma publicação (quem não quer ter um livro de sua autoria, não é mesmo?) e resolve responder ao e-mail para saber os passos necessários para a publicação.

Então, o suposto editor diz que “como o seu trabalho já está aprovado” pelo corpo editorial, ele não passará por nenhuma revisão de conteúdo. Informa que por não receber subsídios do governo, devido ao corte de custos, o próprio autor precisa arcar com a despesa de publicação, que gira em torno de 300 a 500 reais. Tal custo inclui apenas a diagramação do livro, sem revisão técnica (gramatical ou ortográfica) e alguns exemplares para divulgação, além do serviço de emissão do DOI* e da indexação do trabalho nos principais buscadores. Esse valor pode até subir um pouco de acordo com o número de exemplares físicos que poderão ser impressos ou para produção de banners de divulgação.

*DOI sigla para Digital Object Identifier (Identificador de Objeto Digital) é um número único produzido para identificar documentos de origem digital. Ele serve para evitar a utilização ou distribuição indevida do conteúdo desse documento e também para que seja facilmente localizado, caso o documento não esteja mais disponível no local onde foi armazenado inicialmente. Algo muito comum na internet.

Quanto ao número de cópias físicas, varia de editora para editora. Algumas prometem alguns exemplares incluso no pacote, para que o autor possa fazer a divulgação, ou dizem que o livro será disponibilizado na Amazon ou livrarias conhecidas do mercado com encomenda sob demanda (há impressão quando o cliente comprar o livro), mas também incentivam a disponibilização do e-book gratuitamente no site da editora… Eles argumentam que é para incentivar a divulgação e que os materiais que estão disponíveis gratuitamente são apenas aqueles que foram custeados com dinheiro público. Porém, isso não é totalmente verdade, pois quando questionados sobre alguns autores também estarem disponibilizando gratuitamente o mesmo material das livrarias, dizem que é por opção do autor, para fins de divulgação.

E por que ela passa a ser considerada como uma possível revista predatória? Porque a principal fonte de renda dessas editoras é a taxa cobrada dos autores para diagramar o trabalho e não há nenhum trabalho de validação científica. É praticamente um “drive-thru”: aceite o convite, pague a taxa e estará publicado.

O maior problema disso não é o serviço em si prestado. Não tem nenhum problema se você, autor ou autora, ciente de que está lidando com um serviço de editoração, optar por transformar seu trabalho acadêmico em um livro. Conheço muitas pessoas que fazem isso. Mas, nesse caso, o contrato já está acordado para tal. O problema dessas supostas “editoras” é que elas prometem mais do que realmente podem cumprir. Convencem um autor a publicar afirmando que são revistas ou livros classificados no estrato Qualis, que são indexadas nos buscadores de periódicos de relevância e que publicar o seu trabalho com elas é a garantia de ter o seu trabalho divulgado e reconhecido por mais pessoas.

E para quem está na área acadêmica, sabe o quanto uma publicação é valiosa para conquistar a vaga em um concurso público numa universidade, ou até mesmo para progressão, se já ocupa uma vaga numa instituição. E para ter mais chances de reconhecimento, nada melhor do que ter o seu trabalho divulgado e citado por mais pessoas.

Então, ludibriado de que se trata de uma revista com rigores metodológicos científicos sérios, publica o seu trabalho, que pode até ser relevante, mas, por estar publicado em um periódico que não atende as normas mínimas de rigor científico, acabará perdendo credibilidade. Já pensou em perder todo o seu trabalho científico por conta disso? O problema que, uma vez publicado, você não poderá publicar o mesmo texto em outro periódico. E é por isso que precisamos ficar atentos a isso.

E como fazer para não cair em uma “cilada” dessas? Vou citar as principais:

  1. Não aceite convites para publicação de um trabalho já publicado

Antes de tudo, preciso esclarecer que quando você publica um trabalho em um congresso ou evento similar, ele fica disponível nos anais desse evento. Tecnicamente, o evento detém o direito autoral de publicação do seu trabalho, possuindo inclusive um ISSN próprio. Então, no mínimo, é estranho quando chega um convite de uma pessoa, que você nunca viu na sua vida, por e-mail, dizendo para publicar esse mesmo trabalho sem fazer nenhuma alteração relevante em seu conteúdo. Desconfie. Nenhuma revista científica séria pede esse tipo de conduta. 

A única exceção em relação ao convite é quando um editor te convida a publicar o trabalho sobre alguma temática específica. Mas, nesse caso, eles pedem que seja enviado um texto original e não a republicação do mesmo trabalho já apresentado em algum evento. E ainda assim, o seu trabalho passará por uma revisão editorial. A não ser que você já seja alguém muito renomado na área, o que eu acho pouco provável para quem está lendo sobre este assunto. Além disso, eles não farão o convite para você ter que pagar para publicar, não acha?

Já no caso de dissertações e teses, tecnicamente, você pode torná-lo um livro se você quiser. Mas, aqui, merece um novo cuidado que menciono na dica 2.

  1. Tenha clareza do tipo de contrato que você estabelecerá com a editora

Se um dia você receber um convite para transformar a sua dissertação ou tese em um livro, primeiro verifique as credenciais dessa editora. Quanto tempo ela tem no mercado, qual tipo de publicação ela costuma fazer, quem é a sua equipe editorial, entre outras.

E o mais importante é o contrato que estabelecerá com ela: se você terá que bancar com os custos de diagramação, se existe um revisor de texto, como funcionará a cessão de direitos autorais, como será a divulgação do material (se será gratuito ou pago) e como será o contrato da porcentagem que receberá pelas vendas, quando houver. Lembre-se que, se não houver vendas, provavelmente, você não receberá nenhuma comissão. Então avalie se isso realmente vale a pena.

E para verificar a credibilidade da equipe editorial, passamos para a próxima dica.

  1. Verifique a comissão editorial dessa revista

Antes de tudo, desconfie de revistas que não têm a relação da equipe científica que avalia os trabalhos. Mesmo quando eles indicam o corpo científico, algumas ainda usam indevidamente o nome desses acadêmicos. Portanto, na dúvida, pegue alguns nomes e tente acessar o currículo Lattes desses pesquisadores para verificar se eles indicam que fazem parte dessa revista na sessão “Membro de corpo editorial”.

Participar como revisor ou editor de um periódico é algo relevante para o currículo. Por isso, na maioria dos casos, se a revista for legítima, os pesquisadores mencionarão que fazem parte dela. A não ser que seja um pesquisador com uma carreira muito consolidada (leia-se muito famoso) ou que pouco atualiza o Lattes. Esta última possibilidade é mais compatível com pesquisadores sêniores que não são muito adeptos das tecnologias. Mas, normalmente, para quem continua ativo na universidade, é muito difícil não atualizar o Lattes. Então observe quanto tempo essa pessoa atua na área e o que vem fazendo nos últimos anos.

  1. Verifique se essa revista já não foi citada numa dessas listas

Esta dica vale principalmente para os periódicos internacionais, pois não existe ainda uma suposta lista com possíveis revistas predatórias brasileiras.

E, para isso, existem dois sites que podem ser consultados: o Beall’s List** ou Preda Qualis. Este último foi desenvolvido em parceria entre a USP, UNESP e UFABC, baseando-se na Beall’s List, que filtrou algumas revistas citadas como possíveis predatórias, mas que constava na DOAJ. O DOAJ normalmente verifica as credenciais dos periódicos antes de indexar em seu acervo, portanto, é mais uma forma de verificar a credibilidade da publicação.

O Beall’s list, apesar de ter sido uma iniciativa muito importante para os pesquisadores, ainda enfrenta muitas controvérsias em relação à metodologia adotada pelo seu criador Jeffrey Beall, professor e bibliotecário da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, para classificá-las como possíveis revistas predatórias. Por isso, alguns dizem para que essa lista seja usada com certa cautela.

**Essa informação sobre o site Beall’s List foi obtida através do perfil do instagram @the_science_etal administrado pela Vanessa de Oliveira e pelo Sebastião Silva Júnior, ambos doutores na área de Ciências Biomédicas. O instagram deles têm diversas dicas relacionadas a área acadêmica de especialização dos autores e também para quem pretende fazer pós-graduação no exterior.

E, por último, é usar o famoso provérbio: “Quando a esmola é demais, o santo desconfia”. Publicar um artigo científico em uma revista séria, que tenha relevância científica não é tão rápida e simples. A revisão por pares garante a idoneidade e seriedade da pesquisa que foi feita e isso leva tempo. Além disso, revistas prestigiadas costumam receber muitas propostas para publicação, o que também explica o processo não ser tão imediato. Se uma editora não esclarece esses passos ou simplifica muito o seu processo de publicação, desconfie.

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Como decidir publicar a sua pesquisa

Publicado em 17/07/2020 por Luzia Kikuchi

Alguma vez na vida você já sofreu com a síndrome do impostor? Trata-se de um padrão psicológico (não é uma doença) no qual as pessoas duvidam constantemente de suas capacidades e de seus méritos atingidos, ainda que elas tenham sido validadas por agentes externos (ex.: prêmios, títulos, pessoas relevantes da área, etc.).

E, curiosamente, essa síndrome é mais comum em pessoas de nível de capacitação mais alto que a média da população, tais como pós-graduandos, pessoas que ocupam cargos de liderança, etc. Quanto à frequência, parece atingir tanto homens quanto mulheres, mas parece haver uma incidência mais alta em mulheres, devido ao próprio contexto histórico e sociocultural delas.

E quais os sentimentos mais comuns na síndrome do impostor?

Por mais que a pessoa tenha estudado e se dedicado tempo suficiente sobre um assunto, a sensação é quase que inversamente proporcional: quanto mais se estuda, menos parece que sabe. Quando esse sentimento não é controlado de forma saudável, pode incapacitar a pessoa de contribuir com o seu conhecimento que poderiam impactar positivamente na sua área, no seu trabalho ou na sua família.

Segundo os pesquisadores da Universidade Estadual da Georgia, Joe Langford e Pauline Rose Clance* esse sentimento é mais frequente em pessoas que são introvertidas e que buscam uma constante aprovação das pessoas. Além disso, parece ser mais comum em pessoas que vêm de contextos familiares com pouco amparo emocional. Esse estudo foi publicado em 1993, na revista Psychotherapy e você pode acessar o texto na íntegra no site oficial da pesquisadora (em inglês).

* Pauline Clance e Suzzane Imes foram as primeiras a cunhar o termo Síndrome do Impostor, em 1978.

Bom, e por que eu comecei este texto contextualizando um pouco a síndrome do impostor para falar sobre o assunto deste post? Porque é exatamente essa sensação que fica em nossa mente quando estamos muito tempo dedicados numa pesquisa. Quanto mais nos aprofundamos em um assunto, maior é a sensação de “impotência” e de que é necessário estudar muito mais para tentar entendê-lo melhor. Dessa forma, qualquer coisa que pensemos em divulgar ou publicar parece ser irrelevante para o “mar de conhecimento” que existe por aí.

Por isso, vou apresentar alguns questionamentos principais para você poder avaliar se o que está pesquisando merece ou não ser publicado.

Questão 1: Você já fez um levantamento bibliográfico do assunto em questão?

Se você já fez uma breve revisão ou levantamento bibliográfico, provavelmente, deve ter uma noção de como o assunto que você está pesquisando está sendo tratado nas principais literaturas.

E dentro do assunto que pesquisou, sempre tem algo novo a ser incorporado. Por exemplo, se você encontrou uma pesquisa que foi aplicada numa cidade X, nada te impede de tentar comparar os resultados aplicando em uma cidade Y, por exemplo. Dessa forma, sua pesquisa já pode acrescentar mais dados sobre uma nova perspectiva. E isso já é algo que mereceria ser comunicado.

E se, eventualmente, você perceber que não existe ainda trabalhos significativos sobre o assunto que está pesquisando. Será que ele merece ser comunicado? Assim passamos para a questão 2.

Questão 2: Um tema ou assunto inexistente na literatura é relevante?

Bom, aqui já vem uma parte complicada e que exige um pouco mais de experiência. Muitas vezes, podemos ter duas reações ao fazer um levantamento bibliográfico e notar que não há muita publicação referente ao assunto que estamos pesquisando:

  1. Pensar que não pesquisou direito todas as bases;
  2. Pensar que não é relevante.

A primeira reação pode ser genuína, pois alguns assuntos podem não aparecer no idioma que está pesquisando. Por isso, se você tiver facilidade com outros idiomas, faça também a busca em outras bases.

Para busca de artigos em outros idiomas, uma base interessante para se usar é o DOAJ (Directory of Open Access Journal) que é um diretório que busca os periódicos e artigos de acesso livre em mais de 133 países.

Suponhamos que tenha procurado em outras bases e outros idiomas que tem acesso e ainda não encontrou nada a respeito do seu assunto. Talvez agora você tenha certeza da segunda reação: de que não é relevante.

Crédito da imagem: Tookapic

Mas, antes de você se desesperar e sair jogando o seu trabalho para o alto, por que não pensar em organizar suas ideias para que possa ser validada pelos seus pares?

Questão 3: Você tem medo de receber críticas?

Uma coisa que se deve ter em mente quando se faz pesquisa é de que não fazemos isso para agradar alguém ou ser agradado. Então, se você tem algum assunto que acredita ser importante de ser discutido pela sua área e tem alguma perspectiva nova a ser apresentada, é sempre válido comunicar isso.

Muitas vezes, o nosso medo de divulgar é justamente de receber críticas do nosso trabalho. Principalmente, quando elas são negativas. Por isso que comecei este texto falando sobre a síndrome do impostor, que é talvez o responsável por esse medo que nos “imobiliza” de publicar os nossos trabalhos e achar que não temos material relevante para apresentar. Isso nada mais é do que o medo irracional de poder ser julgado como incompetente. E esse medo tem um preço: você pode demorar demais para divulgar algo que já poderia contribuir de forma significativa para a sua área.

Questão 4: Você acredita que a ciência se faz sozinha?

Existem pessoas que pensam que a ciência só avança quando supostamente uma única pessoa ou um “gênio” tem uma grande ideia que ninguém havia pensando antes. Na verdade, as ideias novas só podem surgir se você as compartilha com outras pessoas. E mesmo que não seja necessariamente um contato pessoal, alguma fonte de informação inspiram as pessoas, tais como: livros, obras de arte e artigos. 

Um ponto importante a se dizer é que a ciência só pode ser considerada como tal quando ela pode ser refutada. Ou seja, nada é uma verdade absoluta. A validade de alguma teoria só é aceita quando muitos cientistas entram em um consenso, pois chegam em resultados semelhantes até chegar a uma nova que contradiz tudo. E é assim que a ciência avança. Thomas Kuhn, um físico e filósofo da ciência, foi um dos pioneiros a trazer o conceito de Revolução Científica que envolve tais conceitos do que é a ciência. Não vou me aprofundar muito nesse assunto neste post, para não desviar do assunto. Talvez em algum momento eu trate sobre ele isoladamente.

Se você quiser ler um pouco sobre as ideias principais de Thomas Kuhn, tem um artigo da Profª. Dra. Fernanda Ostermann da UFRGS, que ajuda a entender um pouco sobre ele.

Portanto, se a sua pesquisa traz uma contribuição que ajuda a entender um pouquinho mais sobre um assunto, isso já é algo que deveria ser compartilhado com a comunidade científica.

Questão 5: Você seguiu corretamente o método científico?

Em dois posts anteriores, eu apresentei um passo a passo de como escrever um projeto de pesquisa e um artigo científico. Então, se você consegue apresentar os dados da sua pesquisa com uma fundamentação teórica e uma justificativa depois de ter feito toda sua pesquisa de levantamento bibliográfico, ele pode ser um material em potencial para ser publicado.

Por isso, meu caro leitor ou minha cara leitora, tente pensar nessas cinco questões que apresentei anteriormente. Com esses questionamentos, provavelmente, você conseguirá decidir se sua pesquisa merece ou não ser publicada.

Agora, se você está com dúvida de onde é melhor publicar sua pesquisa, você pode consultar este post para ter uma ideia.

Deixe nos comentários o que mais te imobiliza na hora de publicar a sua pesquisa.

Assista também a este vídeo numa versão resumida e compartilhar com mais pessoas essas ideias:

Como escolher congressos e eventos acadêmicos

Publicado em 10/07/2020 por Luzia Kikuchi

Com o mundo interconectado que vivemos hoje, é muito difícil não ficar sabendo de eventos para participar. Seja qual for a profissão que você vá seguir no futuro, é muito importante manter-se atualizado sobre as discussões, descobertas e práticas da sua área. E, para isso, normalmente são organizados eventos voltados para os profissionais específicos de uma área.

Na *área médica é muito comum os profissionais apresentarem suas pesquisas em congressos e também de participar nesses eventos para ouvir os colegas. Além dos médicos, os *pesquisadores das universidades também comumente participam de eventos temáticos de alguma área.

* não quero dizer que profissionais de outra área não participam de eventos, apenas cito essas principais, pois é o que comumente ouço como rotina de trabalho do que nas outras profissões.

E quando você chega na pós-graduação, a participação nesses tipos de evento torna-se cada vez mais obrigatória, por duas razões:

  1. Para divulgar sua pesquisa e conhecer outras, além de ser avaliado por seus pares;
  2. Se você é bolsista de alguma agência de fomento, é um dos requisitos obrigatórios para renovar anualmente a sua bolsa de estudo.

Nesse segundo caso, é preciso trabalhar estrategicamente os prazos de aceite de cada evento para que dê tempo de apresentar o certificado de participação nos relatórios anuais. Mas, o fato de ser importante não te obriga a participar simplesmente de todos que surgem na área, pois, se inscrever em todo evento que aparece na sua frente, praticamente, pode-se viver só disso, já que opções não faltam. No entanto, não temos tempo e nem orçamento suficiente para participar de todos eles. 

Então o que fazer?

Crédito da imagem: Andrea Piacquadio

Se posso listar uma das coisas que eu mais participei durante a minha formação é de eventos acadêmicos. Então, vou contar um pouco da minha experiência nesse quesito, apresentando alguns passos essenciais que podem te ajudar a planejar estrategicamente sua participação nesses eventos.

Passo 1: trabalhe como voluntário

Para você entender primeiro a dinâmica de um evento acadêmico, sugiro que participe como ouvinte em algum que seja na sua instituição. Tem muitos deles que são gratuitos e basta se inscrever.

Eu comecei a participar de eventos acadêmicos na graduação, só como ouvinte inicialmente. Em particular, uma experiência que me marcou foi quando me voluntariei para fazer parte da equipe de organização da Semana de Licenciatura em Matemática no Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (não me lembro exatamente do ano, mas acredito que seja 2007). Veja a foto da época:

Eu junto com colegas do curso e os professores do IME-USP.
Crédito da imagem: acervo pessoal.

A vantagem que recebemos pelo nosso trabalho voluntário foi ganhar a inscrição para o evento e assim poder fazer alguns minicursos gratuitamente. Se você está com orçamento curto, mas tiver tempo e disposição para doar, essa é uma ótima opção para começar a aprender como funciona os bastidores desses eventos e também a oportunidade de fazer cursos gratuitamente, quando for o caso. Obviamente, os critérios para seleção dos voluntários podem variar de evento para evento, mas não custa nada procurar o responsável pela organização para saber de mais detalhes.

Passo 2: participe de um evento regional ou nacional

Depois que você já tiver uma ideia de como funciona um evento local, está na hora de pensar em participar de algum evento regional ou nacional. A escolha vai depender da sua disposição e orçamento. Porém, muitos desses eventos costumam ser sediados em cidades diferentes. Se você mora na capital do estado ou uma cidade com população grande, a chance de um evento desse porte vir para o seu local é maior. Então é bom ficar atento ou atenta para saber se não está acontecendo algum caso como esse.

Por que escolher os eventos regionais e nacionais como prioridade?

Se você está começando a sua pesquisa, como iniciação científica ou um mestrado, e nunca enviou algum trabalho para ser avaliado por outras pessoas, pode ser que escrever um artigo já seja muito assustador no começo. Além disso, se for apresentar esse trabalho, vai ser mais um desafio e tanto. Imagine fazer tudo isso em um idioma diferente da sua língua materna e que tenha a participação de especialistas na área. É muita coisa para uma primeira vez que pode causar o famoso “bloqueio” ou “auto sabotagem”.

Por isso, idealmente, comece em eventos menores para se acostumar e depois vá progredindo para outros maiores.

No meu caso, o primeiro evento onde apresentei um trabalho foi durante o mestrado no XIV Encontro Brasileiro de Estudantes de Pós-Graduação em Educação Matemática (EBRAPEM), que foi em Campo Grande no Mato Grosso do Sul, em 2010. Embora o evento tenha sido nacional, o fato de ser um encontro entre estudantes amenizou um pouco a “pressão” na hora da apresentação, pois você acaba falando com pessoas que também estão no mesmo nível que você. Segue alguns registros da época:

Foto na frente do lago da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS).
Crédito da foto: Acervo pessoal.

Minha amiga, Wanessa Trevizan, apresentando o trabalho.
Crédito da foto: Acervo pessoal.

E onde eu consulto esses eventos?

Normalmente, dentro de cada área de pesquisa, há uma sociedade que reúne pessoas de uma área de estudo. Então, a minha recomendação é que você procure o portal da sociedade que pertence à sua área. Por exemplo, no meu caso, eu faço parte da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM) e esse portal reúne alguns eventos regionais e nacionais mais importantes dessa área de pesquisa, como você pode ver na figura 1:

Figura 1 – Consulte o menu eventos do portal da SBEM.
Crédito da imagem: sbembrasil.org.br

Na figura 1, perceba que há um menu nesse portal chamado “Eventos” que é onde encontrará a relação de acordo com a característica. É possível notar também que há um link para eventos internacionais e afins, que vou explicar no passo 3.

Passo 3: intercale com eventos internacionais

Na época que eu fazia mestrado, tive a oportunidade de participar de um evento na Argentina, numa cidade chamada Tandil, que fica a 400 km da capital federal, Buenos Aires. É uma cidade pacata do interior cuja fama se concentra em formações rochosas de formatos curiosos, como essa da foto:

Formação rochosa em Tandil
Crédito da imagem: acervo pessoal.

Eu fugindo da pedra como o Indiana Jones.
Crédito da imagem: Acervo pessoal.

Por ser um evento latino americano, foram aceitos trabalhos em espanhol, português e francês (não me pergunte o porquê deste último, mas talvez seja o fato de alguns pesquisadores franceses estarem presentes no evento – como o Dr. Gérard Vergnaud. Embora tenhamos também o fato de termos um país na América do Sul que é colônia francesa). 

Resolvi enviar meu trabalho para esse evento como forma de progredir em mais um “nível de desafio” em eventos e também por ter uma barreira menor para o idioma, pois, além do espanhol ser relativamente compreensível para falantes da língua portuguesa, a apresentação também era permitida ser feita em português.

Outro ponto positivo de participar de eventos na América Latina é que o custo da viagem é menor, por não ser muito longe, e também o câmbio da moeda também nos favorece na maioria das vezes. No caso da Argentina, em especial nos dias de hoje, o real brasileiro está bem valorizado frente ao peso argentino.

E, assim como o caso dos eventos regionais e nacionais, os internacionais também podem acontecer em alguma cidade que seja próxima de você, não sendo necessário sair do país. Então, vale a pena acompanhar pelo portal das sociedades e prestar atenção em quando será o próximo.

E quando o seu orçamento permitir, também se desafie em participar de um evento em outro continente, como na América do Norte ou Europa (por que não a Ásia ou Oceania também? rs). No meu caso, o primeiro evento desse porte foi em Madrid, na Espanha em 2017, para participar do VIII Congreso Iberoamericano de Educación Matemática (CIBEM). Nessa época eu já estava no doutorado e também era bolsista da CAPES.

Eu e minha colega Andressa Trevizan em Madrid.
Crédito da foto: acervo pessoal.

Esse evento foi muito importante, pois lá tive a oportunidade de receber comentários de pesquisadores da Universidade de Barcelona e um dos trabalhos apresentados virou um artigo publicado no periódico Cadernos de Pesquisa da Fundação Carlos Chagas (FCC). Obviamente, o artigo do periódico foi mais aprofundado em comparação com à versão que foi apresentada no evento. E é neste ponto que quero explicar o próximo passo.

Passo 4: utilize o congresso para receber dicas para o seu trabalho

Quando você está fazendo uma pesquisa, é muito difícil receber feedbacks ou comentários e sugestões constantes sobre o seu trabalho. Muitas vezes, você e o orientador são os únicos que estarão imersos nele (em alguns casos, nem o orientador… Mas, eu deixo essa discussão para um outro post).

Então, quando você envia uma proposta de trabalho para algum evento, o primeiro crivo que você passa é dos avaliadores. Como na maioria dos casos essa avaliação é feita no sistema duplo-cego, isto é, nem você e nem o avaliador sabe de quem se trata, o seu trabalho será avaliado apenas pelo mérito da contribuição à área. E isso é uma ótima forma de se testar para saber se está no caminho certo na sua pesquisa. 

É melhor se testar assim do que ter uma surpresa desagradável no exame de qualificação, ou pior, na defesa final da sua dissertação ou tese.

Além disso, a não ser que o seu trabalho esteja realmente impecável, normalmente nessas avaliações, você receberá algumas sugestões em como melhorá-lo. E, muitas vezes, isso é mais valioso do que o evento em si. Se além disso, você ter o trabalho aceito, melhor ainda! Pois assim terá mais uma chance de receber dicas e sugestões de pessoas que encontrará no evento.

Engana-se quem pensa que eu sempre tive meus trabalhos aceitos em eventos. Pelo contrário, já tive alguns trabalhos rejeitados. Um deles foi pelo fato do tipo do trabalho não estar enquadrado na discussão do evento e um outro foi por falta de profundidade na discussão, que foi causada por falta de tempo para escrever o trabalho (fiquei sabendo do evento cinco dias antes do término e tive que escrever às pressas em inglês!). Por isso, é importante se planejar. Não adianta escrever um trabalho correndo se você não tem nada pronto ainda.

Mas, como eu disse anteriormente, com esses feedbacks consegui melhorá-lo e esses dois trabalhos anteriormente rejeitados foram aceitos em eventos posteriores. Inclusive, o segundo artigo que tentei escrever em inglês, também foi publicado nesse idioma no Cadernos de Pesquisa da FCC como tradução do artigo aceito em português. Porém, dessa vez fiz com mais calma e também enviei para revisão de um especialista depois*.

* Se você quiser saber das dicas para escrever um artigo em inglês, pode acessar um post anterior.

Passo 5: aproveite a viagem do congresso para enriquecimento cultural

Não há oportunidade melhor para viajar do que esses congressos e eventos. Muitas vezes, quando planejamos uma viagem de férias, acabamos escolhendo apenas os lugares populares e deixamos de conhecer outros locais que podem ser tão interessantes quanto.

Por isso, o que eu tenho feito para otimizar o orçamento é programar a viagem de férias perto desses eventos. Assim, você vai guardando o dinheiro aos poucos e une o útil ao agradável.

Aproveite que todo evento sempre reserva um tempo de atividade cultural e curta esses momentos conhecendo a cidade, a cultura ou a paisagem local. Tenha certeza de que esse enriquecimento vai te trazer muitos frutos em termos de criatividade e pensamento flexível no futuro. Além disso, conhecer outras culturas nos ajuda a ser menos julgadores e mais empáticos quando nos deparamos com diferenças. Eu com certeza não seria a mesma pessoa hoje, se eu não tivesse passado por essas experiências no passado.

Deixe nos comentários quais outras dicas você conhece sobre eventos e congressos que eu não citei aqui. Também me conte alguma experiência inusitada que aconteceu em algum dos eventos com você. (Eu tenho algumas, mas deixo para contar numa próxima oportunidade!)

E se você quiser ver ou enviar uma versão resumida desse post para alguém, segue o vídeo: