Como desenhar usando a lógica

E como adaptar esse jogo para familiarizar-se com o plano cartesiano

Publicado em 15/05/2020 por Luzia Kikuchi

Uma das coisas que eu sempre tive pavor na escola é a aula de Educação Artística. E não porque a aula era ruim, mas por minha falta de habilidade mesmo. Só me dava bem quando as atividades tinham passo a passo bem definido. Nos momentos que a professora dizia:

“Hoje é desenho livre!”

Essas quatro palavras ecoavam em minha cabeça como “prova surpresa!”. Um pavor instaurava-se dentro de mim, o sangue do rosto rapidamente caía e não fazia ideia do que fazer. Acredite: eu preferia resolver problemas de matemática a fazer desenho livre. Normalmente, meus desenhos limitavam-se a uma casinha ou a um desenho de praia com um triste coqueiro ao lado.

Eu não sei exatamente a partir de qual momento que perdi o interesse ou a afinidade com desenho. Já que, segundo a minha mãe, eu sempre gostei muito de desenhar quando criança. Por outro lado, meu irmão sempre foi muito talentoso para esse lado artístico, mas nunca ligou muito para as Ciências Exatas, ao contrário de mim.

Se pensarmos por um lado, desenhar também tem o seu lado abstrato como as incógnitas e variáveis em Matemática. Então, será que haveria alguma forma de criar um algoritmo para um desenho como nos problemas matemáticos?

Para minha surpresa, existe. Claro que é um desenho mais simples, em formato de pixels (parecido com o conceito de Lego ou Minecraft), mas que pode ser uma forma de unir as habilidades daquele seu amigo ou amiga que ama desenhar com a sua que adora resolver problemas de lógica ou vice-versa.

Este jogo chama-se nonogram que consiste em uma imagem formada ao pintar quadradinhos indicados por uma sequência de números em um diagrama, como este:

Figura 1 – Exemplo de um nonogram.
Crédito da imagem: acervo pessoal.

Como funciona o jogo:

  1. Para cada linha e coluna, há uma sequência de quadradinhos a serem pintados de acordo com o número indicado em cada uma delas.
  2. Se um quadradinho já estiver pintado, você precisa completar de onde ele está:
Figura 3 – Pinto os quadradinhos restantes.
  1. Quando há mais de um número indicado na linha ou coluna, você precisa deixar pelo menos um quadradinho em branco entre eles, e sempre exatamente na ordem em que aparecem.
Figura 4 – Exemplo de como pintar a indicação de dois números.

Combinando a contagem entre linhas e colunas:

Observe agora o seguinte exemplo com linhas e colunas pintadas de acordo com a sequência indicada:

Figura 5 – Exemplo de um desenho de uma tartaruga

E como vou jogar isso?

  • Mínimo em 2 pessoas:
  1. Primeiro pegue um papel quadriculado e combine entre vocês qual deve ser o tamanho do diagrama que vão criar (número de linhas e colunas).
  2. Decida quem vai ser a pessoa que vai desenhar no quadriculado (jogador 1) enquanto a outra (jogador 2) deve reproduzi-lo usando apenas a lógica.
  3. Assim que o jogador 1 terminar de desenhar, ele deve montar um outro diagrama de tamanho igual, sem o desenho, mas indicando apenas os números que cada linha e coluna devem ser pintados, como demonstrado na figura 5.
  4. O jogador 2 recebe um diagrama semelhante à figura 1 do jogador 2 e tenta reproduzir o desenho usando a lógica explicada nas instruções anteriores.

Dicas: 

  • Tente desenhar com larguras e comprimentos iguais no início, pois figuras simétricas são sempre mais fáceis de desenhar.
  • Evite figuras com símbolos muito abstratos ou com apenas 1 quadrado em cada aresta, pois corre o risco de criar figuras ambíguas, portanto, com mais de uma solução.
  • Também evite figuras muito óbvias (crucifixo, por exemplo), pois isso acaba com o desafio lógico.

Conforme você se acostuma, pode aumentar a dificuldade, aumentando o tamanho do quadriculado e chegar em um parecido com este, por exemplo:

Crédito da imagem: Wikipedia

Viu só! Até quem não tem habilidades artísticas pode reproduzir desenhos usando a lógica! 😂

Se você não tiver uma folha quadriculada em casa, mas tiverem impressora, pode imprimir o modelo que deixei pronto no Excel. A priori deixei pronto um tamanho de 30 colunas e 50 linhas, mas você pode recortar o excedente ou aumentar conforme necessário (só não se esqueça do tamanho dos limites de impressão configurada em sua impressora).

Se você quiser jogar a versão online indico o nonograms.org que tem muitos quebra-cabeças de vários níveis (inclusive na versão colorida). Se for para jogar no tablet ou no celular o nonogram.com está disponível tanto para Android quanto para o iPhone.

Como posso utilizar esse jogo para introduzir/familiarizar-se com a ideia de plano cartesiano?

Normalmente, nos *anos finais do Ensino Fundamental, os estudantes começam a trabalhar com o sistema de coordenadas que é um pré-requisito para compreender o conteúdo de Geometria Analítica no Ensino Médio. No entanto, muitos têm dificuldade em entender o plano na representação matemática (eixo x, eixo y, abscissa e ordenada, par ordenado, etc.).

* Embora a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) indique que o plano cartesiano deve ser introduzido já no 5º ano do Ensino Fundamental, na prática, a compreensão do sistema de coordenadas ocorre nos anos finais dessa faixa de ensino.

Por isso, aplicando esse jogo, conforme foi sugerido neste texto, mas na ordem reversa: desenhar primeiro e depois montar um plano com a sequência numérica, para que outra pessoa possa reproduzir o seu desenho, pode facilitar a compreensão do plano cartesiano sem a utilização da nomenclatura matemática que é um fator que cria muita aversão nos estudantes.

Por que isso pode ajudar na aprendizagem?

Nosso cérebro tem a capacidade de focalizar a atenção de forma involuntária e voluntária. No primeiro aspecto, seriam as necessidades fisiológicas, por exemplo, quando sentimos fome ou sede. Já na forma voluntária é quando você escolhe para onde voltar a sua atenção, por exemplo, para escutar uma música, para escrever ou para executar alguma atividade.

Portanto, quando o indivíduo está ativamente tentando construir esse diagrama do jogo, inconscientemente, ele está associando a ideia de eixos, coordenadas, mas sem a conotação matemática de forma inicial. Diferentemente de quando ele é apresentado ao plano cartesiano, muitas vezes de forma passiva, com explicação expositiva do professor, tornando a associação dos conceitos mais demorada. (Lembre-se do conceito de aprendizagem significativa que apresentei em um post anterior).

Além disso, ao desenhar e exercitar o raciocínio lógico, diferentes porções do nosso córtex cerebral são despertados, ativando circuitos para ativar funções como a linguagem, a memória e etc. E, por isso, ao ter contato prévio com as ideias similares ao eixo de coordenadas, fica mais fácil compreender as definições do plano cartesiano e, assim, aprender as nomenclaturas técnicas passa a ser uma questão pontual a ser resolvida.

Para entender um pouco mais sobre o funcionamento do nosso cérebro e como funciona o processo de aprendizagem, recomendo este livro:

Título: Neurociência e educação – como o cérebro aprende
Autores: Ramon M. Cosenza e Leonor B. Guerra
Editora: Artmed
Crédito da imagem: http://www.amazon.com.br

Obviamente, não há uma garantia absoluta de que todos aprenderão dessa forma, pois cada pessoa tem sua individualidade na aprendizagem. Mas, ao tentar despertar diferentes tipos de habilidades, há mais chances de proporcionar a aprendizagem para variados grupos de pessoas. 

Outras sugestões de atividades para introduzir o conceito de plano cartesiano e sistema de coordenadas:

  • Batalha naval;
  • Mapas e plantas;
  • Bingo;
  • Planilha do Excel;
  • Atividade de ponto cruz;
  • Criar desenhos com miçangas.

Fora essas atividades, também é possível trabalhar com softwares de geometria dinâmica como o Geogebra ou Winplot, entre os mais conhecidos, mas há outros similares.

Essas são algumas inspirações para quem está tentando aprender ou ensinar o plano cartesiano e o sistema de coordenadas. Se você tiver interesse que eu proponha mais atividades detalhadas utilizando algumas delas, deixe nos comentários

Desafio: Qual é o desenho que fiz na figura 1? Deixe a resposta nos comentários!

Se você quiser ver o passo a passo da montagem do diagrama e da resolução do nonogram, assista ao nosso vídeo!

A história do nonogram

nonogram foi criado no Japão, na década de 80, aparentemente, por dois criadores: Tetsuo Nishiya e Non Ishida, que tiveram a ideia na mesma época de formas distintas.

Ishida acabou ganhando fama no Reino Unido, por ter sido descoberto por um colecionador de quebra-cabeças britânico chamado James Dalgerty, que levou a ideia para o seu país e passou a ser publicado no jornal The Sunday Telegraph. E assim, o jogo ganhou o nome de “diagrama de Non” (Non+dia’gram = nonogram). Por outro lado, Nishiya ganhou fama dentro do Japão, pela sua invenção, com o nome Puzzler (パズラー).

Esse quebra-cabeças possui diversos nomes além desses dois como:

  • Illust Logic (ilustração com lógica);
  • Oekaki Logic (desenho com lógica);
  • Picross (jogo lançado pela Nintendo);
  • Griddler;
  • Pictograph;
  • Japanese Crossword (quebra-cabeças japonês);
  • Hanjie;
  • Nemonemo Logic. 

Fontes: Yodosha (em japonês) e DCC da Universidade de Lancaster.

Como organizar os estudos?

Publicado em 01/05/2020 por Luzia Kikuchi

Continuando com a série de dicas de estudo, semana passada postei sobre como se focar em uma atividade. Hoje vou mostrar como organizar, de forma realista, para os seus estudos. Então, partindo do pressuposto que você já sabe as técnicas de manter o foco, agora vou ensinar como se organizar de uma forma eficiente.

Antes de tudo, preciso esclarecer que há técnicas diferentes de acordo com o tipo de conteúdo, sobretudo nas ciências humanas e nas ciências exatas. Então, para não ficar muito confuso, vou dividir este texto em três sessões, clique na sessão que você tiver mais interesse ou siga lendo o texto completo.

  1. Organização geral
  2. Para área de humanidades
  3. Para área de exatas
  1. Organização geral

Agenda:

É essencial que você tenha uma agenda, digital ou física, para ter uma visão geral dos seus compromissos principais e, aqui, um segredo: prefira por agendas que mostram o calendário do mês inteiro. Se você não encontrar, você pode optar pelas seguintes alternativas (de acordo com o seu orçamento):

I) Quadro magnético

Vantagem: Reutilizável
Desvantagem: Preço (custa em média R$ 40 a R$ 50) e não é portátil.
Crédito da imagem: acervo pessoal

II) Folhas digitais em PDF (para ser editado no tablet ou imprimir)

Vantagem: Facilidade para transportar e baixo custo.
Desvantagem: Depois de um tempo gera acúmulo de folhas (caso opte por imprimir), se for usar no tablet, gera menos lixo, mas precisa ter esse dispositivo para utilizar.
Crédito da imagem: acervo pessoal

Se você quiser baixar o seu, pode acessar este site e personalizar o formato de acordo com a sua preferência.

O aplicativo que uso para editar o PDF é o Squid (para Android). Infelizmente não está disponível para iPad, mas deve existir uma alternativa. Quem souber, pode deixar a dica nos comentários.

III) Faça você mesmo (DIY) em um caderno

Vantagem: Facilidade para transportar e baixo custo.
Desvantagem: Pouca, só precisa de um tempinho para fazer o seu.
Crédito da imagem: acervo pessoal

Nessa agenda de sua escolha, você deve anotar quais são os dias para entregar os trabalhos, os dias de prova, etc. É interessante que o calendário seja exclusivo para o seu estudo, mas sabemos que hoje costumamos ter muitos compromissos ao mesmo tempo. Então, tente anotar tudo no mesmo lugar, pois assim você terá uma noção realista do tempo que poderá se dedicar a cada atividade. 

Mas por que anotar o seu planejamento é importante?

No livro “Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes” de Stephen Covey, ele mostra que uma das técnicas de organizar tarefas muito utilizadas entre pessoas que conseguem deixar muitos dos seus compromissos em dia é manter um cronograma.

Mas, muito além de uma dica de “autoajuda”, isso é explicado pela ciência. Essa técnica evita que você caia na Falácia do Planejamento, que consiste em realizar planos e planejamentos fora da realidade, levando em consideração apenas os cenários otimistas.

Isso quer dizer que o nosso cérebro é muito ruim em fazer estimativas. E a nossa tendência é levar em consideração apenas os fatores otimistas (viés do otimismo ou optimistic bias). Então, se você tem um trabalho para entregar daqui a 15 dias, a tendência do seu cérebro é imaginar que em poucas horas, em um determinado dia, você será capaz de fazer tudo que precisa, não levando em consideração imprevistos no meio do caminho.

Se você visualiza quantas tarefas tem de fato e quanto tempo será necessário para cumprir com a data limite de cada uma, você já melhorará bastante na sua estimativa de tempo que levará para cada tarefa, mesmo porque você aprenderá com os seus erros para o planejamento futuro.

O termo Falácia do Planejamento ou Planning Fallacy foi cunhado pelos teóricos Daniel Kahneman e Amos Tversky, estudiosos da área de Psicologia Cognitiva aplicada na Economia Comportamental. Daniel Kahneman inclusive é ganhador do prêmio Nobel de Economia. Amos Tversky, apesar de ter contribuído amplamente nas pesquisas, infelizmente, faleceu antes da premiação. Recomendo o livro Rápido e Devagar: duas formas de pensar para saber mais sobre o assunto.

Autor: Daniel Kahneman
Tradução: Cássio Arantes Leite
Editora: Objetiva
Crédito da imagem: http://www.amazon.com.br

Local de estudo:

Defina um local de estudo, de preferência, que seja sempre no mesmo lugar e, se for na sua casa, que não tire muito a atenção como TV, computador, pessoas passando o tempo todo ou conversando. (Nem preciso falar do celular, que expliquei no último post).

Claro que, nem sempre, podemos ter tais privilégios em casa. Eu mesma, na época do vestibular, dividia um quarto pequeno com o meu irmão mais novo e sequer havia porta para separar os ambientes. Também não havia outro cômodo na casa onde eu pudesse me sentar tranquilamente para estudar. Por isso, sempre dei preferência por estudar na sala de estudos do cursinho ou na biblioteca da faculdade. 

Porém, desde essa época, eu acabei me acostumando a usar fones de ouvido e ouvir música instrumental para tentar camuflar os barulhos que me incomodam enquanto estudo ou trabalho e que tem funcionado muito bem. A Psicologia ainda não consegue explicar se essa técnica é eficaz para todos, mas há um *estudo relativamente recente (maio/2019) publicado na APA (American Psychological Association – Associação Americana de Psicologia) sobre o assunto indicando que, dependendo do tipo de atividade, da música e da personalidade da pessoa, essa solução parece ser eficaz. Portanto, você pode testar essa dica e ver se funciona, ok?

*Se você pertencer a alguma instituição de ensino que tem acesso ao portal de periódicos da CAPES, você pode logar com a sua conta para poder acessar ao texto completo do artigo.

Uma última dica sobre o local de estudo: se possível, evite que esse lugar seja a sua cama ou sofá para não ter o problema de cair no sono ou também de não conseguir relaxar no momento de descanso. No post do instagram, dei dicas de como ensinar a distância.

Material de estudo:

Separe todo material de estudo que precisará para não ter que ficar levantando e buscando o tempo todo. Livros, cadernos e estojo devem estar ao seu alcance.

Essa dica é importante para que o seu “cérebro não arranje desculpas” de tentar mudar o foco da tarefa, pois ele é muito “esperto” para tentar economizar energia. E tarefas mais complexas, exigem mais esforço. No capítulo 3 do livro Rápido e Devagar, que indiquei anteriormente, explica exatamente sobre esse efeito de nosso cérebro. E também mostrei no início do vídeo Como ter foco? um exemplo parecido quando vamos tentar estudar.

  1. Para área de humanidades

Não faça resumos!

O que vou falar agora talvez vá decepcionar milhares de fãs de resumos e fichamentos bonitos, alguns que até utilizam técnicas de caligrafia. Aliás, digo de antemão que também sou fã. Sigo muitos perfis que mostram fotos bonitas desses resumos que merecem virar quadros. Porém, quem explica é a ciência. E ela constatou que fazer resumos ou utilizar marca-texto pouco contribui para a eficácia nos estudos.

Acredito que fazer resumos e grifar o texto é uma técnica amplamente utilizada pelas pessoas. Posso dizer por mim que o hábito de fazer resumos vem desde pequena. Minha mãe* sempre me incentivou a ter o caderno bem organizado. Quando ela achava que não estava bom, me obrigava recomendava passá-lo a limpo. Esse hábito fez com que eu me tornasse uma pessoa “obcecada” em copiar tudo que o professor escrevia na lousa e deixar todas as anotações bonitas e arrumadas. Quando ele ou ela passava muita coisa, muitas vezes, tinha que passar horas em casa passando as anotações a limpo para que o meu caderno ficasse impecável.

E, por causa desse costume, eu sempre perdi muito tempo fazendo resumos e mais resumos de textos das disciplinas de humanas e que nunca contribuíram de forma significativa para o meu aprendizado. Fui perceber só muito tempo depois que aquela técnica não estava sendo eficaz e comecei a adotar diferentes estratégias, muito por tentativa e erro mesmo, até que cheguei em uma que realmente funciona.

Daí, me perguntei: “Por quê?”

De acordo com uma pesquisa liderada pelo pesquisador John Dunlosky da Universidade de Kent, no Reino Unido, a forma mais eficaz de estudar é testar a si mesmo e revisar de forma distribuída e contínua.

Testar a si mesmo, neste caso, seria tentar resgatar da memória sobre um tema e explicar com as suas próprias palavras. Por isso, ao ler um texto, o interessante seria anotar algumas palavras-chave ou perguntas-chave para depois tentar dissertar sobre o tema. Aliás, no post anterior explico um pouco sobre o processo de fazer perguntas retóricas. Você pode fazer isso sozinho, mas se conseguir discutir com um colega será ainda mais efetivo para o seu aprendizado.

Revisar de forma distribuída significa que você não deve acumular uma grande quantidade de conteúdo para estudar na véspera da prova. Obviamente, dependendo da sua capacidade de memorização, você pode até conseguir passar nos exames, mas dificilmente reterá esse conteúdo por muito tempo (explico isso também no primeiro post do blog sobre aprendizagem mecânica e significativa). Assim como ninguém corre uma maratona treinando na véspera da corrida, por que deveria ser diferente com os estudos, não é mesmo? 😅

*Mãe, sei que fez tudo isso com a melhor das intenções, mas hoje eu sei pela ciência que fazer resumos e deixar o caderno organizado não era a melhor estratégia para os estudos… Então, não fica brava, tá? 😀

Para quem quiser ler a pesquisa comprovando essa eficácia, ela está em inglês, mas segue o link. É um artigo bastante extenso, mas vale a pena para quem tiver interesse.

E é por esses motivos que, nas minhas aulas, eu sempre incentivei os alunos a prestarem atenção no que eu explico em vez de se preocuparem em copiar o conteúdo da lousa ou dos slides pois, posteriormente, disponibilizaria as anotações de aula pelo Moodle ou e-mail.

  1. Para área de exatas

Resolver muitos exercícios não é eficaz!

Segundo essa mesma pesquisa da Universidade de Kent, distribuir o conteúdo ao longo do tempo é a melhor forma de aprendizado, como já citado no tópico anterior. No entanto, comumente, os conteúdos dos cursos são trabalhados em blocos de acordo com o tópico, ou seja, o assunto não é trabalhado de forma intercalada durante o curso. Não entrarei nessa discussão específica sobre os conteúdos didáticos neste texto para não me estender muito. Cito apenas como forma de contextualizar o problema.

No caso do estudo da Universidade de Kent, da mesma forma como a distribuição do conteúdo ao longo do tempo testada pelos pesquisadores, citaram um outro estudo conduzido por Taylor e Rohler (2010) que demonstrou a eficácia de intercalar atividades práticas durante o aprendizado de um novo conteúdo matemático.

Isso significa que, em vez de trabalhar apenas com a aplicação de fórmulas e resolução de muitos exercícios parecidos, o que tem demonstrado mais eficácia ao longo prazo é resolver exercícios de diferentes dificuldades e que misturem diferentes habilidades em um único problema. Isso faz com que o aluno aprenda a generalizar a resolução de um problema.

No entanto, o estudo também aponta que, o aprendizado em blocos e por repetição é mais efetivo quando a avaliação é feita logo após a prática extensiva. No entanto, quando se tem uma grande quantidade de conteúdo a ser estudado (por exemplo, como no vestibular), aqueles que estudaram de forma intercalada tiveram um resultado muito melhor do que os primeiros. Portanto, não se foque no volume de exercícios, mas na progressão da dificuldade deles.

Não há ainda muitos estudos sobre a eficácia de práticas intercaladas na aprendizagem, mas os poucos que foram aplicados têm mostrado resultados muito promissores. No caso da matemática, conheço alguns estudos que demonstram a eficácia de trabalhar com a abstração ou generalizações desde cedo em vez de limitar apenas a situações concretas. Mas, também é um assunto que posso escrever em um outro post.

Conte nos comentários se você se surpreendeu com essas dicas baseadas na ciência ou se já conhecia alguma delas. Também conte se você conhece outras pesquisas que falam sobre eficácia no aprendizado.

Assista também aos dois vídeos publicados sobre o assunto no canal!

Não responda perguntas – ajude a elaborar dúvidas

Publicado em 17/04/2020 por Luzia Kikuchi

Calma! Não significa que você deve recusar-se a responder perguntas objetivas como o seu nome, a sua idade e onde te encontrar para tirar dúvidas.

Quando eu digo para não responder as perguntas que te fazem, quero dizer que, em vez de dar apenas uma resposta objetiva, faça uma “contrapergunta” ou uma pergunta retórica.

O que é uma pergunta retórica?

É quando faço uma interrogação com o objetivo de criar uma reflexão para o seu interlocutor. 

Nesse caso, quem faz a pergunta retórica sabe a resposta do questionamento, mas devolve ao seu destinatário uma nova questão, relacionada ao assunto, para ajudá-lo a construir a sua resposta, a partir do seu próprio conhecimento prévio.

Como funciona isso?

Por exemplo, já ouviu falar de um jogo de lógica chamado teste de Einstein? (também conhecido como enigma de Einstein, Einstein’s Riddle ou Zebra Puzzle – em inglês). Esse jogo, supostamente, desenvolvido pelo cientista Albert Einstein – embora não se tenha certeza desse fato – é considerado como um dos testes mais desafiadores de raciocínio lógico. Se você quiser saber mais detalhes do jogo, as informações estão no final deste texto.

Para quem conhece o jogo, sabe que algumas dicas levam a uma informação objetiva sobre cada uma das pessoas, mas nem sempre elas são diretas. É preciso relacionar uma informação com a outra para, depois de alguns passos, chegar nessa informação. 

Assim, o processo de encadear uma informação com a outra, conectando algum conhecimento prévio do indivíduo com a pergunta que se quer fazer, permite que ele possa elaborar mais dúvidas e, assim, formular perguntas mais críticas sobre um determinado assunto. Por isso, se você simplesmente responde uma pergunta de forma objetiva, está limitando a pessoa que questiona a pensar do mesmo ponto de vista que o seu ou ela pode simplesmente esquecer a sua resposta (já que não houve a conexão com o conhecimento prévio dela).

E onde eu deveria aplicar esse tipo de conduta?

Posso falar com certa propriedade sobre o ponto de vista da sala de aula, já que esse é o meio que conheço e tenho experiência, mas pode ser até na criação dos filhos. 

No contexto da sala de aula, em vez de simplesmente responder de forma objetiva as perguntas dos meus alunos, eu devolvia perguntas semelhantes a estas:

E qual o seu ponto de vista sobre o assunto?

Quais hipóteses você tem para chegar a uma tese*?

Consulte o material x e me traga suas conclusões.

Veja o que já se sabe sobre o assunto e me traga suas dúvidas.

*Futuramente, posso escrever um post para explicar como funciona uma hipótese e uma tese na forma científica.

Já no ponto de vista da criação dos filhos, não posso afirmar com segurança se isso é factível, já que ainda não tenho minha experiência pessoal. Porém, há uma entrevista muito interessante com o divulgador da ciência estadunidense Neil deGrasse Tyson comentando sobre o momento em que seus filhos questionaram se a “fada do dente” existia ou não (em inglês). Como não existe tradução para o vídeo, vou explicar resumidamente o que ele responde ao entrevistador.

Tyson responde que, em vez de simplesmente dizer que “não existe” ou até mesmo optar por sustentar essa fantasia das crianças, pediu para que elas elaborassem algumas hipóteses e chegassem às próprias conclusões.

Para isso, as crianças montaram armadilhas como colocar uma folha de alumínio perto da cama para que, quando a fada do dente chegasse à noite, fizesse barulho e eles pudessem acordar a tempo de vê-la pessoalmente. Se tal tentativa desse errado, teriam que pensar na possibilidade de vir voando pela janela e então deveriam colocar redes de proteção para que ela pudesse ficar presa na tentativa de entrar no quarto, entre outras. 

Dessa forma, Tyson responde que você está ensinando lições valiosas de como verificar a veracidade de alguma informação, como se faz na ciência e não simplesmente criar fantasias que as crianças acreditem de forma cega. O que pessoalmente concordo em ser uma forma interessante de criar jovens questionadores e criativos.

Conte aqui nos comentários se você prefere apenas obter respostas diretas ou se você já foi desafiado por alguém a ter que pensar sobre a sua pergunta. (Lembre-se que o Google responde quase tudo… QUASE tudo)

Veja também o vídeo deste conteúdo no nosso canal!

A tempo:

Em relação à retórica, não é minha intenção explicar pelo conceito da Filosofia, que vai muito além do exemplo que dei anteriormente. Meu objetivo é usar apenas a pergunta retórica como uma parte da técnica didática para incentivar uma pessoa a pesquisar sobre um determinado assunto em questão e permitir condições próprias de raciocinar e argumentar, capacitando-a entrar, por exemplo, numa dialética. Do ponto de vista didático, a dialética só é produtiva quando há um conhecimento prévio razoável sobre o assunto entre os envolvidos.

Anexo:

Explicação do Teste de Einstein:

Basicamente, ele possui as seguintes regras:

  1. Há cinco casas de cores diferentes;
  2. Em cada casa mora uma pessoa de uma nacionalidade;
  3. Cada proprietário bebe um único tipo de bebida, fuma um único tipo de cigarro e tem um único tipo de animal de estimação.

Com tais regras em mãos, o jogador deve preencher uma tabela semelhante a esta, de acordo com as dicas que são fornecidas para completá-la:

1ª casa2ª casa3ª casa4ª casa5ª casa
Cor     
Nacionalidade     
Bebida     
Cigarro     
Animal     

Dicas:

  1. Norueguês vive na primeira casa.
  2. Inglês vive na casa Vermelha.
  3. Sueco tem Cachorros como animais de estimação.
  4. Dinamarquês bebe Chá.
  5. A casa Verde fica do lado esquerdo da casa Branca.
  6. Homem que vive na casa Verde bebe Café.
  7. Homem que fuma Pall Mall cria Pássaros.
  8. Homem que vive na casa Amarela fuma Dunhill.
  9. Homem que vive na casa do meio bebe Leite.
  10. Homem que fuma Blends vive ao lado do que tem Gatos.
  11. Homem que cria Cavalos vive ao lado do que fuma Dunhill.
  12. Homem que fuma BlueMaster bebe Cerveja.
  13. Alemão fuma Prince.
  14. Norueguês vive ao lado da casa Azul.
  15. Homem que fuma Blends é vizinho do que bebe Água.

Para começar a resolver este teste, precisamos de uma dica que será o ponto de partida (conhecimento prévio). Dentre as 15 dicas, há duas informações que podemos começar como ponto de partida:

1. Norueguês vive na primeira casa.

14. Norueguês vive ao lado da casa Azul.

A partir dessas duas informações prévias, quais conclusões tenho a respeito do Norueguês?

  • Norueguês não vive na casa Vermelha, Azul e nem na Verde (Devido a dica 2, 14 e 5, respectivamente)
  • Norueguês não cria Cachorros (Devido a dica 3)
  • Norueguês não bebe Chá, Leite e nem Café (Devido a dica 4, 9 e 6 respectivamente)
  • Norueguês não fuma Prince (Devido a dica 13)

Por essas conclusões, chego a novas hipóteses que só podem ser confirmadas a partir de novas dicas:

16. Norueguês deve viver na casa Amarela ou Branca;

17. Norueguês bebe Água ou Cerveja;

Para saber qual a cor da casa do Norueguês, basta olhar para a dica 5. Assim, concluo que a cor dela é Amarela.

A partir desta conclusão, tento descobrir onde está a Casa Verde (Na 3ª ou 4ª casa) e, para isso, parto das seguintes dicas:

5. A casa Verde fica do lado esquerdo da casa Branca.

9. O homem que vive na casa do meio bebe Leite.

6. O homem que vive na casa Verde bebe Café.

Assim, podemos concluir que a casa Verde está na 4ª posição e a casa Branca na 5ª e, consequentemente, a 3ª casa é a Vermelha.

Para não me prolongar, sugiro que você continue por conta própria seguindo essas dicas para concluir o teste.

Se você quiser jogar este teste online, clique aqui. Também deixo uma versão off-line (em PDF) para que você possa imprimir e jogar mesmo sem computador.