Jardim Botânico e as origens do Riacho do Ipiranga

Publicado em 21/01/2022 por Luzia Kikuchi

Em janeiro do ano passado, eu dei três dicas de lugares interessantes para visitar e aprender Matemática. Porém, devido ao período de pandemia (que ainda não acabou, diga-se de passagem), todos esses lugares estavam com as visitações suspensas até segunda ordem.

Com o avanço da vacinação, e boa parte da população paulistana estar com o esquema vacinal completo, serviços de turismo e lazer foram reabrindo as portas para receber visitantes a partir do mês de novembro. Com isso, comecei a me programar para fazer a visita em um desses três lugares que indiquei no post anterior: o Parque Cientec da USP.

Contudo, o Parque Cientec funciona apenas nos dias úteis e aos sábados, com algumas exceções, aos domingos. Por isso, meu intuito era realizar essa visita e a gravação do material durante o recesso de final de ano, quando eu poderia realizar essa visita durante a semana. O que não estava nos meus “cálculos” é que o parque também estaria fechado durante o recesso 😑, retornando apenas no dia 08 de janeiro.

Como no mês de janeiro eu retornaria ao trabalho, o jeito foi pensar em outro lugar de interesse para gravação durante o recesso. Mas, eu não imaginava que tantos lugares também acabam não funcionando nesse período do ano, sem contar as limitações impostas pela própria pandemia. E depois de muito pesquisar, eis que me deparei com o Jardim Botânico de São Paulo, que fica bem ali do lado do Cientec também. Um lugar ainda muito pouco explorado pelos paulistanos que gostam de passar um dia tranquilo em volta da natureza.

História do Jardim Botânico

O Jardim Botânico fica localizado numa região conhecida, até 1969, como “Parque do Estado”. Acredito que boa parte dos paulistanos ainda o chame assim. Mas, atualmente, o nome correto dele é “Parque Estadual das Fontes do Ipiranga”. 

Assim como conta o nosso hino nacional brasileiro, deve ter sido nessa região em que as margens plácidas (serenas) do Ipiranga, deve ter ouvido o brado retumbante do então, príncipe regente, D. Pedro I: “Independência ou morte”, em 1822, declarando a Independência do Brasil de sua metrópole na época: Portugal. Se esse evento é fictício ou não, nunca saberemos. Mas, só estou recontando os registros históricos aprendidos na escola rs (Se tiver algum historiador especialista no assunto, lendo este post, fique à vontade para deixar nos comentários!)

Mas, o que eu pude atestar indo pessoalmente nesse local, é que, de fato, as águas realmente são muito calmas. Tão serenas que formam vários tipos de lagos e brejos onde abrigam plantas aquáticas e animais como jabutis, pássaros e também um local para os bugios se refrescarem. Embora, nos dias atuais, seja muito difícil encontrá-los. Já que esses moradores simiescos do parque preferem ficar refugiados nas profundezas da Mata Atlântica para não serem incomodados por nós, humanos.

Segundo o que se conta no site da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente, a desocupação dessa região para fins de preservação ocorreu em 1893 e, em 1917, passou a ser propriedade do Governo do Estado de São Paulo. Inclusive, até 1928, o local onde se encontra o Jardim Botânico, servia para captação de águas. Nos dias atuais, essa captação ocorre por meio de reservatórios como Guarapiranga, Cantareira ou Alto do Tietê, que abastecem vários bairros da cidade de São Paulo e também da sua região metropolitana.

Quando essa região deixou de ter a função de captação de água, o naturalista Frederico Carlos Hoehne foi convidado para implantar um Jardim Botânico no lugar, com a missão de conservação da biodiversidade da região e do país, por meio da pesquisa e também de atividades educativas.

Onde nasce o riacho do Ipiranga

Hoje em dia, muitos dos rios que passam pela cidade de São Paulo originam-se da nascente que fica dentro do Parque Estadual das Fontes do Ipiranga. Infelizmente, muitos deles são invisíveis aos nossos olhos, pois foram canalizados e, pior, estão poluídos. O famoso Riacho do Ipiranga, por exemplo, é o que passa no meio da Avenida Ricardo Jafet e quase ninguém lembra dele, a não ser como um córrego poluído como muitos que atravessam a cidade de São Paulo.

Porém, um de seus afluentes teve a “sorte” de ser regenerada, em contraste aos outros irmãos afluentes: o córrego Pirarungáua. Embora tenha sido inicialmente canalizada na época de construção do parque, em 2008, quando o Jardim Botânico passou por uma reformulação paisagística, o Pirarungáua foi regenerado e hoje é possível acompanhar todo o seu trajeto, desde a entrada principal até o espelho da água no Jardim de Lineu. Por cima do córrego, foi construída uma passarela elevada que é margeada por palmeiras muito altas, que dá um ar muito “pomposo” para o lugar.

Essas imagens da entrada podem ser conferidas no vídeo que vai ao ar a partir das 21h.

Dr. Frederico Carlos Hoehne – o criador do Jardim Botânico de São Paulo

Frederico Carlos Hoehne foi um naturalista brasileiro que tinha uma paixão desde criança por orquídeas. Ele tornou-se o maior especialista dessa planta tanto no Brasil como no exterior, de forma autodidata. Por suas inúmeras contribuições na  área de Botânica, recebeu o título de doutor honoris causa* pela Universidade de Göttingen, na Alemanha.

Doutor honoris causa* é um título honorífico conferido a pessoas que se destacaram em uma determinada área. Tais pessoas podem ou não ter um diploma de ensino superior para receber o título, desde que seus méritos tenham um alto nível de reconhecimento profissional por docentes de uma universidade.

Além da pesquisa, Hoehne chegou a ocupar vários cargos de relevância na época como: jardineiro chefe do Museu Nacional, no Rio de Janeiro e chefe da Seção de Botânica do Instituto Butantã, focada em estudar plantas tóxicas e medicinais que, em 1938, passou a ser chamado como “Departamento de Botânica do Estado, por meio do Decreto nº 9.715 de 9 de novembro de 1938

Em 1928, Hoehne recebeu o convite de Fernando Costa, que era Secretário da Agricultura, Indústria e Comércio na época, para implantar o Jardim Botânico, dentro do Parque Estadual das Fontes do Ipiranga.

Na verdade, parte do que viria a ser o Jardim Botânico já estava construído, como as duas estufas e o Jardim de Lineu, que foi inspirado no Jardim de Upsala, na Suécia. Mas, Hoehne não estava satisfeito com o jardim e foi modificando ao longo dos anos a sua aparência, até chegar muito próximo ao que conhecemos hoje. O naturalista acreditava que o jardim deveria possuir uma identidade própria e não ser uma mera reprodução do que se vê na Europa.

As estufas e o jardim de Lineu. Crédito: arquivo pessoal.

As reformas para chegar próximo ao que conhecemos hoje como Jardim Botânico duraram cerca de 10 anos. E, em 1938, ele foi oficialmente reconhecido. Nesse mesmo ano, Hoehne passou a ser o Diretor do Departamento de Botânica do Estado, cargo que ocupou de 1938 a 1941.

Em 1941, o Departamento de Botânica que ficava no Instituto Butantã é transferido para o mesmo local onde fica o Jardim Botânico. Em 1942, ele recebe uma denominação definitiva como “Instituto de Botânica” e no qual Hoehne exerceu o primeiro cargo de Diretor. Ele permaneceu no cargo até a sua aposentadoria compulsória em 1952, quando completava 70 anos de idade.

A missão educativa do Jardim Botânico e do Instituto de Botânica

Uma das grandes missões do Jardim Botânico é representar uma coleção da flora regional de São Paulo e também atuar em linhas de preservação de plantas que estejam ameaçadas de extinção, que é uma das responsabilidades atribuídas ao Instituto de Botânica. Tal herança vem do próprio Hoehne que sempre deu importância à pesquisa e à divulgação científica. 

As atividades educativas são uma forma de proporcionar a reflexão sobre a preservação do ambiente natural para o público geral e estudantes. Por conta da pandemia, muitas dessas atividades estão temporariamente suspensas. Mas, neste link, você pode acessar algumas sugestões de roteiro que ajudam a interpretar o Jardim Botânico de São Paulo. Essas ações educativas, inclusive, servem de sugestão para quem estiver à procura de atividades em ambientes não formais de aprendizagem.

Por fim, o Instituto de Botânica também possui um programa de pós-graduação em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente, para aqueles que tenham interesse em seguir estudos mais aprofundados nessa área.

E como faço para chegar ao Jardim Botânico?

Com veículo próprio (carro ou moto)

O Jardim Botânico fica na Av. Miguel Estéfano, 3031 – Vila Água Funda, São Paulo – SP, 04301-902. 

Dica: coloque número 3001 no GPS, em vez de 3031, pois o endereço oficial vai te indicar a entrada do Instituto de Botânica que tem acesso restrito para pessoas autorizadas.

Estacionamento:

Fica numa rua sem saída, logo em frente à entrada principal, na Rua Etruscos, nº 11. As placas de sinalização já vão te indicar assim que estiver na frente do Jardim Botânico. O estacionamento tem preço único R$ 15, nos dias úteis, e R$ 20 aos finais de semana e feriados*. Para motos o preço é R$ 10.

* preço verificado em 28 de dezembro de 2021.

De transporte público

Uma forma de descobrir o melhor caminho para chegar no Jardim Botânico é usar este aplicativo do Moovit.

No campo “início” coloque um endereço de partida. E no campo “fim” coloque “Jardim Botânico de São Paulo”. Selecione da lista que aparecer o que aparece com o endereço “Avenida Miguel Estéfano – Jabaquara”. Ele mostrará logo abaixo desses campos, diversas opções de trajeto que você pode fazer, e mostrará no mapa.

Dica de ouro: Tente colocar o ponto de partida de uma estação de metrô mais próxima do Jardim Botânico (consulte no mapa para saber quais são). Costuma ser o caminho mais simples e rápido.

Coloquei como exemplo saindo do metrô Saúde para o Jardim Botânico. Imagem: Aplicativo do Moovit.

Quanto custa o ingresso?

Em dezembro de 2021, o preço do ingresso era R$ 10,00 para adultos. Estudantes pagam meia entrada.

*Gratuito para: idosos acima de 60 anos, crianças até 4 anos de idade e pessoas portadoras de necessidades especiais.

Se quiser, você pode comprar também os ingressos pelo site do Zoologico e selecionar Jardim Botânico. No site, aparecerá um calendário para que seja selecionado o dia que você pretende fazer a visita e a disponibilidade de ingressos.

* É bom confirmar essa informação direto na bilheteria do parque, pois, pelo site, os idosos e crianças pagam meia entrada. Pelo site do Jardim Botânico, é informado que a entrada é gratuita para esse público.

Outras informações úteis sobre o parque:

Piqueniques

Existem algumas mesas próprias para fazer piquenique, mas são limitadas. É importante cuidar para não deixar o lixo espalhado e também não fazer barulho excessivo, inclusive, é proibido levar equipamentos de som, mesas, cadeiras, decoração. Também não é permitido jogar bola, andar de bicicletas, levar animais e fazer churrasco ou fogueiras.

Para utilizar, basta chegar cedo e não precisa de reserva prévia.

Outras atrações próximas

Além do Jardim Botânico, o Parque Estadual das Fontes do Ipiranga abrigam também outras atrações como: o Zoológico de São Paulo, o Zoo Safari e o Parque Cientec. Este último espero ainda fazer uma visita para trazer as informações por aqui.

Visita virtual 360º

Para quem mora fora de São Paulo e não tenha ainda uma oportunidade de data próxima para fazer a visita, pode ter um gostinho do Jardim Botânico por meio de uma visita virtual. Recomendo fortemente que você possa fazer o passeio pessoalmente, mas, pelo menos dá para ter uma noção do que te espera por lá!

Conhece outro lugar interessante para visitas educativas em São Paulo? Deixe aqui nos comentários que eu estou curiosa para saber!

Publicado por

Luzia Kikuchi

Uma entusiasta em neurociência, apaixonada por ensino-aprendizagem e uma eterna aprendiz de professora.

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