O que a faculdade não te ensina e por que não “recriminamos” quem não sabe matemática?

Publicado em 07/01/2022 por Luzia Kikuchi

Se você já acompanha este blog há algum tempo, talvez deva saber que existe uma comunidade do Quora do “Como Aprender?” onde respondo algumas perguntas enviadas diretamente para mim (embora não tenha feito com tanta frequência ultimamente, por falta de tempo) e também compartilho respostas interessantes de outros usuários sobre temas afins deste projeto.

De vez em quando, eu escolho algumas dessas perguntas para responder em vídeo no canal e trago aqui no blog, algumas respostas que merecem ser mais elaborados, devido a complexidade do assunto. Nestes dois posts do blog, você pode conferir algumas respostas que já respondi:

Primeiro ano do projeto “Como Aprender?” e respondendo às perguntas do Quora

Comemoração de 1.000 inscritos e 10.000 seguidores no projeto!

O Quora é uma plataforma interessante para compartilhar conhecimento por nichos. Foi por isso que resolvi criar a comunidade do “Como Aprender?” por lá e, assim, poder aumentar o alcance deste projeto para mais pessoas. Embora algumas pessoas confundam o Quora com uma nova versão do finado “Yahoo Respostas”, acredito que não tenha sido esse o propósito desta plataforma. Ao menos no início. Não sei se aos poucos ele pode se transformar em um. Espero que não.

Outro diferencial que vi no Quora foi a preocupação dos usuários, ao menos aqueles que já estão há algum tempo, em trazer respostas mais elaboradas e completas, com referências em fontes confiáveis, na medida do possível. O conhecimento prático também é muito bem-vindo por lá, já que é a oportunidade de conhecer profissionais de diversas áreas interessados no mesmo assunto. Eu espero que ele não perca essa essência ao longo do tempo.

Dessas quase centena de perguntas que eu recebo no Quora, algumas se repetem no assunto, outras são um pouco fora do contexto e algumas filosóficas que gosto de escolher para pensar a respeito.

No vídeo, que vai ao ar a partir das 21h, você pode conferir todas as perguntas que respondi por lá.

Contudo, dentre elas, duas perguntas que particularmente achei interessante para discutir aqui no post foram estas que estão no título deste post:

O que a faculdade não te ensina?

Muitas vezes, nós temos a “ilusão” de que o diploma de uma universidade é o que vai mudar a nossa vida da “água para o vinho”. Se esse diploma for de uma instituição conceituada, que será melhor ainda. Pensamos no “glamour”, altos salários, reconhecimento desde o início. Mas, nem sempre é bem assim…

De fato, um diploma abre sim algumas portas. Mas, é ingênuo pensar que apenas se formar no curso é suficiente para conseguir bons empregos. O trabalho só começa a partir do momento em que nos formamos. E isso significa que temos que começar de baixo, aprender muitas outras habilidades que a faculdade não te ensina.

E nesse quesito, não estou nem entrando no mérito de questionar o currículo do curso de uma faculdade, se ela privilegia a prática ou se ela é muito teórica. Estou abordando sobre o aspecto da resiliência para lidar com o ambiente profissional. Pressão por entregas, de clientes, do chefe, do colega que não colabora e a vontade de continuar se aperfeiçoando na área em que atua.

Por mais que algumas faculdades “vendam” o discurso de que preparam para a prática, existem aspectos que dependem muito mais desse futuro profissional do que a faculdade em que se formou. Por isso que eu cheguei a falar neste post, sobre algumas verdades que não te falam sobre a escolha de um curso da faculdade. Eu acho que essa compreensão é essencial para não fazer escolhas equivocadas do seu futuro profissional.

É claro que, nem sempre, acertamos na escolha da nossa profissão. E tudo bem também. Mas, dependendo do contexto em que vivemos, temos menos chance de recomeço. E isso é uma verdade para grande parte das pessoas. Por isso, pensar um pouco sobre as nossas aptidões pessoais, o que conseguimos tolerar e melhorar, mas outras que não suportamos, parece ser essencial para seguir uma carreira onde podemos fazer a diferença.

Então, não importa onde você faz a faculdade, se a instituição é renomada ou não, se ela é mais prática ou teórica. O mais importante é saber até onde você conseguirá melhorar enquanto profissional dentro dessa área que escolheu.

Por que não “recriminamos” quem não sabe matemática?

Na verdade, a pergunta original compara por que não saber ler é recriminado pela sociedade enquanto não saber matemática não. E, no vídeo, eu dei uma explicação mais geral sobre esse assunto, diferenciando o que se entende como habilidade específica e outra que é a compreensão de uma área como um todo.

Basicamente, recriminar a falta de uma habilidade básica depende muito mais do contexto em que se vive do que necessariamente o suposto “valor” dessas habilidades.

Se levarmos em conta de que boa parte das tarefas para exercer a nossa cidadania depende da leitura e da escrita, como preencher documentos, ler placas de sinalização e comunicados, alguém que não tem essas habilidades básicas acaba sendo “excluída”, deixando de participar de algumas atividades essenciais como cidadão ou cidadã. Por consequência, elas ficam à margem da sociedade.

Por outro lado, mesmo que essas mesmas pessoas, que não saibam ler e nem escrever, tenham exímias habilidades para fazer cálculos básicos, talvez essa habilidade não seja tão “essencial” do ponto de vista burocrático. Já que a exigência de comunicação está muito mais na leitura e escrita de palavras do que de números. A habilidade básica de comunicação, enquanto sociedade, está na oralidade e na escrita. E é por isso que, talvez, alguém que não saiba ler e escrever possa ser mais “recriminada” do que outra que não sabe fazer contas.

Sabemos que quem não sabe fazer contas ou conhece pouco de matemática básica pode também ficar à margem da sociedade em alguns aspectos, mas, a leitura e a escrita parece trazer mais consequências diretas do que a habilidade de fazer cálculos.

No vídeo, citei este livro que fez uma pesquisa bastante extensa com pessoas que não são escolarizadas, mas lidam bem com contas básicas no dia a dia. Muitas vezes, de forma até mais competente do que os escolarizados.

Título: Na vida dez, na escola zero
Autor: Terezinha Nunes, David Carraher e Analúcia Schliemann
Editora: Cortez
Crédito da imagem: amazon.com.br

Obviamente, essa minha resposta gira em torno do que eu entendo como área de matemática e a minha compreensão de mundo sobre o assunto. Não pretendo dar uma resposta decisiva sobre o assunto, mas apenas estimular a discussão. Por isso, deixe nos comentários o que você acha sobre essas questões 😊.

Publicado por

Luzia Kikuchi

Uma entusiasta em neurociência, apaixonada por ensino-aprendizagem e uma eterna aprendiz de professora.

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