Como acreditar na ciência? O que é fazer ciência?

Publicado em 19/02/2021 por Luzia Kikuchi

A ciência está em descrédito. Pelo menos, por parte da população (e de alguns governantes) que anda questionando a eficácia das vacinas para a prevenção de doenças. Não vejo problema quanto ao ceticismo por si só, pois faz parte do desenvolvimento da ciência. No entanto, o que parece preocupante é que o comportamento cético não está fundamentado em princípios metodológicos próprios da ciência. Baseia-se muitas vezes em opinião de autoridade e em teorias da conspiração. Coloca-se a ciência no mesmo patamar de “opinião”.

Essa discussão não é tão simples quanto parece. Mas, achei interessante trazer para o debate, a análise do significado da palavra “acreditar”.

Segundo o dicionário Michaelis ou Houaiss, o principal significado do verbo “acreditar” é o mesmo que ter “crença” ou “tomar como verdade”. E se formos partir pelo significado da palavra “crença”, segundo a definição dada no dicionário de filosofia de Nicola Abbagnano, existem três graus de crença: a opinião, a fé e a ciência, baseando-se na filosofia de Kant apresentada nas obras Crítica da Razão Pura e Crítica do Juízo.

Kant entende que a opinião é um tipo de crença insuficiente tanto de forma subjetiva quanto objetiva. Subjetivamente insuficiente significa que tal opinião por si só não é suficiente para gerar credibilidade a outras pessoas. Por exemplo, as experiências e conhecimentos subjetivos de uma pessoa qualquer não é suficiente para criar uma crença em outras pessoas. Quando Kant afirma que carece de objetividade, significa que não são generalizáveis a ponto de serem tratadas como uma verdade universal.

Ou seja, não há a preocupação de verificar se aquela ideia emitida por meio de uma opinião pode ser adotada como uma verdade universal, isto é, ela tem aplicação limitada.

Já a fé é considerada subjetivamente suficiente, ainda que objetivamente ela não seja. A diferença crucial em relação à opinião é o emissor dessa crença. Nesse caso, a fé existe quando outras pessoas acreditam ou tomam como verdade a crença emitida por uma figura que seja de sua admiração ou mesmo de uma autoridade.

E o terceiro grau da crença, que é a ciência segundo Kant, ela é a única suficiente de forma subjetiva como objetiva. Isso significa que a opinião que vem da ciência pode ser considerada como válida para uma grande maioria, assim como ela tem formas objetivas de demonstrar a validade daquela opinião.

Obviamente, expliquei essas definições de forma bem superficial e simplificada para ajudar a entender as principais diferenças. Mesmo porque não sou uma estudiosa de Kant a ponto de apresentar com detalhes a sua filosofia.

Para ter uma noção comparativa, consultei então o dicionário de filosofia escrita por Mario Bunge, autor argentino que fez diversas contribuições na área de filosofia da ciência dissertando principalmente sobre “o que é a ciência” e “o que é uma pseudociência”. Esse segundo tópico voltarei a discuti-lo em outro momento.

Segundo Bunge, não há um grau de diferenciação como feita por Kant sobre “crença”. Para o filósofo argentino, dentro do cotidiano, a crença é frequentemente descompromissada da verdade; o que seria equivalente à opinião, na perspectiva de Kant.

Já no domínio da religião ou da política, que corresponde à fé na visão de Kant, Bunge define que a crença, muitas vezes, é adotada pelas pessoas de forma acrítica. Ou seja, não existe a preocupação de verificar se a informação é verdadeira ou eficiente. Por isso que, para Bunge, a crença é uma categoria psicológica e não semântica (com um significado) ou epistemológica (de um conhecimento).

Já no quesito da ciência, Bunge define que a comunidade científica só acredita naquilo que pode ser provado ou que seja aceitável, partindo de afirmações ou teoremas verdadeiros. No entanto, o filósofo argentino pondera também que, mesmo na ciência, existe um certo nível de crença entre os pesquisadores, mas que possuem uma base fundamentada e justificável para tal crença. Nesse sentido, Kant e Bunge vão ao encontro com a definição de crença científica que é tanto subjetivamente quanto objetivamente suficiente. 

Então, partindo dessas definições do que é opinião, fé e ciência de Kant e o que é crença e ciência para Bunge, podemos seguir para uma linha de raciocínio que justifica o por que é mais plausível acreditar na ciência.

Primeiro porque a opinião da ciência não é baseada na observação de uma única pessoa. São diversos pesquisadores testando e colocando à prova as hipóteses para se aproximar da verdade. Mas, isso não significa que a descoberta de uma nova teoria invalida a antiga. Isso depende muito do contexto que se vive naquele momento.

Um exemplo clássico disso seria a diferença da matemática adotada pelo Newton com a de Descartes, que cheguei a responder no Quora, baseando-me nos livros de Tatiana Roque e Howard Eves. Se você ler essa resposta, vai perceber que se levou um tempo para que o pensamento de Newton fosse aceito pela comunidade científica na Europa enquanto a de Descartes se espalhava amplamente. Isso não significa que um estava mais “certo” que o outro. No entanto, quando os pesquisadores viram na proposta de Newton aspectos que não poderiam ser totalmente respondidos pelo método cartesiano, passaram a estudá-lo para validá-lo como teoria. E assim por diante. Ou seja, fazer ciência não é necessariamente imutável. Ela muda conforme encontramos respostas melhores para a realidade.

Um ponto importante a esclarecer é que, diferente da opinião e da fé, que não tem o compromisso pela mudança, a ciência sempre procura aprender com a realidade. Ou seja, a ciência toma aquilo que já é conhecido e consolidado como ponto de partida, mas sempre tentando encontrar novas maneiras de ler a realidade. Isso pode ser tanto aplicado para compreender as relações humanas, para encontrar formas de melhorar processos já estabelecidos e também de melhorar a qualidade de vida, só para apresentar alguns exemplos.

Um livro que indico para saber como a medicina evoluiu no século XX é este:

Título: A história do século XX pelas descobertas da medicina.
Autores: Stefan Cunha Ujvari e Tarso Adoni
Editora: Contexto
Crédito da imagem: amazon.com.br

“Então isso significa que eu não posso ter opinião e nem fé?”

Isso depende muito do que se trata a sua opinião e fé. Por exemplo, será que sua opinião ou fé afeta milhões de pessoas? O fato de você gostar de ouvir música funk, por exemplo, afeta algo no outro? A fé que você tem em alguma religião ou crença influencia diretamente na decisão de outras pessoas?

Por outro lado, pense que você esteja na responsabilidade de tomar uma decisão por muitas pessoas. Para uma atitude democrática, ou seja, pensar pelos direitos e igualdades de um grupo, é preciso ter o compromisso de buscar o que é mais aceitável para a maioria. Por isso, fazer ciência não é se limitar apenas para confirmar ou favorecer o seu próprio viés. É um bem público.

Fica então a reflexão de diferenciar o que é opinião, fé e ciência.

Se quiser consultar os dois dicionários que utilizei neste texto, seguem:

Título: Dicionário de filosofia
Autor: Nicola Abbagnano
Editora: WMF Martins Fontes
Crédito da imagem: amazon.com.br

Título: Dicionário de filosofia
Autor: Mario Bunge
Editora: Perspectiva
Crédito da imagem: amazon.com.br

No vídeo, falo com alguns exemplos práticos sobre o momento que estamos passando (ele estará disponível a partir das 21h).

Publicado por

Luzia Kikuchi

Adora aprender sobre o funcionamento do cérebro para que possa entender certos tipos de comportamentos dos seres humanos e assim poder ajudar a si mesma e também a outras pessoas.

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