Desafios matemáticos do Ian Stewart

Publicado em 28/08/2020 por Luzia Kikuchi

Hoje apresento a vocês um livro que está me deixando entretida por meses (isso porque não dou conta de resolver todos os desafios tão rápido assim). Trata-se do “Almanaque das curiosidades matemáticas” de Ian Stewart.

Este autor é britânico, professor da Warwick University e que se tornou mundialmente conhecido pelos livros de divulgação científica relacionado à Matemática. Ele já tem mais de dez livros publicados e traduzidos em vários idiomas.

Eu comprei os primeiros livros do Ian Stewart em 2012, mas foi quando comecei o doutorado que comecei a conhecer outros livros dele. Gosto muito do seu senso de humor e da forma como contas as curiosidades matemáticas.

Um trabalho muito relevante do Ian Stewart é mostrar que a Matemática não é tão “linear” quanto parece nos livros didáticos. Para quem estuda um pouco de História da Matemática, já chegaria a essa constatação, mas a grande maioria dos livros de história são muito técnicos e, provavelmente, de difícil acesso à população em geral (sem contar que, na maioria das vezes, são bem caros). Talvez um livro que consegue apresentar a história com uma narrativa menos técnica é o Rainha das Ciências do Gilberto Garbi, mas ainda assim não deixa de ser um livro facilmente lido por leigos.

Já no caso do Almanaque das Curiosidades Matemáticas, obviamente, há problematizações muito específicas para quem entende matemática, mas outras que são bem simpáticas e que valem como desafio para uma tarde monótona de domingo.

Um desses desafios que eu postei no meu instagram, foi a dos gatos da Sra. Smith. Que usa um pouco de charada e conhecimento matemático. Mais especificamente, de probabilidade, como podem ver a seguir:

Para quem já está acostumado a resolver problemas de probabilidade, não é muito difícil chegar na resposta, já que se trata de um conceito de probabilidade clássica e condicional (sabe aquela história dos “sorteios de uma bolinha”?).

Porém, o que eu achei desafiador nesse problema é encontrar todas as soluções possíveis. Quando você calcula essa probabilidade, chegará a uma equação de segundo grau (sim, aquela que usa a fórmula de Bháskara, que muita gente fala que “não serve para nada” no cotidiano). Porém, para encontrar todas as soluções, é necessária uma certa dose de engenhosidade para obter os resultados.

Felizmente, o autor não é tão “carrasco” assim com o leitor (afinal de contas, trata-se de um livro de divulgação para trazer mais simpatizantes para a área de Matemática) e molda o problema na menor solução possível para essa equação. Porém, na resolução ele não explica como obter as próximas soluções, e foi aí que decidi me aventurar a calcular isso da maneira mais rápida possível.

Para isso, você pode usar uma planilha do Excel e formatar alguns macros (fórmulas) para calcular vários valores ao mesmo tempo. Afinal de contas, a tecnologia veio para facilitar algumas tarefas mecânicas. E é assim que deveríamos aproveitar melhor o uso de Tecnologias na Educação. (Não vou falar sobre esse tópico neste post para não me prolongar e fugir do assunto. Mas, uma hora quero falar sobre o ensino de tecnologias na Educação).

Outra forma é criar gráficos no Geogebra e verificar a intersecção das duas retas que compões este problema. Essa também seria uma forma muito mais inteligente de calcular as soluções, além de trabalhar com Geometria Analítica, por exemplo.

Os dois arquivos com essas alternativas podem ser consultados neste link ou em Materiais Complementares no menu do blog.

Se você quiser conhecer qual é esse desafio, eu apresento neste vídeo e deixei a minha gata, Nala, para fazer a narração da resolução. Espero que gostem!

Para quem quiser conhecer os dois livros que citei neste texto, segue:

Título: Almanaque das Curiosidades Matemáticas
Autor: Ian Stewart
Editora: Zahar
Crédito da imagem: amazon.com.br

Título: Rainha das Ciências
Autor: Gilberto Geraldo Garbi
Editora: Livraria da Física
Crédito da imagem: amazon.com.br

Conte nos comentários se você gosta de desafios matemáticos. Me indique algum que você acha interessante!

Estudar ou trabalhar ouvindo música é realmente eficaz?

Publicado em 21/08/2020 por Luzia Kikuchi

Eu já havia contado neste post que estudar ou trabalhar ouvindo música pode ser uma forma de ajudar na concentração. Pelo menos, para mim, tem sido bastante eficaz no sentido de camuflar ruídos repetitivos e de pessoas conversando, que são duas coisas que me distraem bastante. Mas, cientificamente falando: será que isso é realmente eficaz?

Segundo o estudo feito por Gonzalez e Aiello (2019), respectivamente, pesquisadores da CUNY (City University of New York) e da Universidade de New Jersey, há três correlações principais: complexidade da tarefa, personalidade do sujeito e o tipo de música. Vou explicar o que seria cada um desses itens e, por fim, a correlação encontrada entre eles para constatar se estudar ou trabalhar ouvindo música é efetivo.

  1. Complexidade da tarefa

A primeira coisa que você deve considerar se deve ou não ouvir música para estudar ou trabalhar é a complexidade da tarefa. Por exemplo, se a tarefa que você for executar é algo relativamente novo e você precisa compreender ou aprender mais coisas, pode-se dizer que ela é uma tarefa de alta complexidade. Por outro lado, tarefas que são razoavelmente repetitivas ou que exigem pouco do seu lado cognitivo, podem ser consideradas como de baixa complexidade.

Sabendo dessas duas classificações principais sobre a complexidade da tarefa, vamos analisar o tipo de personalidade dos sujeitos pesquisados.

  1. Personalidade dos sujeitos

Se você é uma pessoa que têm tendência a se entediar facilmente, pode ser considerada como alguém que precisa de estímulos externos para manter-se concentrada em certos tipos de tarefas. Para esses tipos de pessoas, tarefas de baixa complexidade tendem a deixá-las entediadas conforme o tempo. Sendo assim, a música parece ter alguma influência positiva em mantê-la concentrada, evitando que sua mente comece a divagar (vulgo “viajar na maionese”) ou até mesmo evitando a procrastinação.

Por outro lado, em tarefas mais complexas, pessoas que são muito propensas a receber estímulos externos, acabam não tendo muito benefício em sua performance quando escutam música. Isso porque elas acabam prestando mais atenção na música do que na tarefa em si. Nesses casos, não ouvir música parece ser mais positivo em termos de qualidade de execução da tarefa.

Agora, se você é uma pessoa que não sente muita necessidade de estímulos externos, ouvir música parece só trazer benefício de acordo com o tipo de música.

  1. O tipo de música

Os pesquisadores utilizaram no teste apenas músicas instrumentais, pouco conhecidas pelos participantes, e que não contivesse nenhuma letra, ou seja, a parte vocal. Isso serve para evitar que os sujeitos da pesquisa caíssem na “tentação” de cantar junto e, assim, sobrecarregar o lado cognitivo.

Com essas músicas escolhidas, ainda fizeram duas classificações: complexas e simples. As músicas consideradas como complexas são aquelas que possuem mais instrumentos musicais na composição e as mais simples possuem menos “camadas”. Basicamente, para deixar a música mais simples foram retirados os instrumentos de percussão da música mais complexa.

Nesse caso, os sujeitos que tinham menos necessidade de estímulos externos tiveram uma performance melhor quando ouviam músicas mais complexas para executar tarefas mais simples. Curiosamente, os que sentem mais necessidade de estímulos externos tiveram uma performance contrária.

Qual o veredito?

Obviamente, essa pesquisa apenas dá apenas indícios e não é totalmente conclusiva, pois a personalidade das pessoas são muito mais complexas do que uma simples propensão a receber estímulos externos ou não. Além disso, a classificação de tarefas e músicas também tem suas nuances sendo algo muito subjetivo.

Porém, o que eles quiseram mostrar com o estudo é de chamar a atenção tanto de educadores quanto de empregadores para que deixem aberta a opção de ouvir música ou não para uma melhor performance nas tarefas.

Por isso, o que se pode concluir de forma geral é que ouvir música afeta a performance de tarefas de alta complexidade negativamente independentemente do tipo de personalidade e do tipo de música.

Por outro lado, para tarefas simples, o tipo de resultado pode variar conforme a personalidade e o tipo de música. Para pessoas que necessitam de estímulos externos, músicas mais simples parecem ser mais efetivas. Já para aqueles que não necessitam de estímulos ou preferem o silêncio, músicas de alta complexidade parecem ser mais efetivas para manter a motivação nesses tipos de tarefas.

Eu posso dizer, da minha parte, que embora tenha preferência por ouvir música para estudar ou trabalhar, dependendo da situação do ambiente, isso depende muito do tipo de tarefa. Portanto, nesse quesito, os resultados do estudo parecem ser condizentes com a minha realidade. Se eu preciso escrever um texto mais elaborado, não consigo fazê-lo ouvindo música, por exemplo. Porém, para tarefas mais mecânicas ou para praticar exercícios, a música me ajuda a manter o foco.

Um exemplo prático que pode ilustrar os achados desse estudo seria o seguinte: se você costuma dirigir, já deve ter se pegado baixando o volume do rádio para procurar um endereço ou mesmo para fazer a baliza (meu caso). Isso é uma reação espontânea do nosso cérebro dizendo que aquela tarefa requer um esforço cognitivo maior. E não tem nenhum problema em fazer isso, pelo menos, segundo os achados da ciência.

Conte nos comentários qual tipo de pessoa que você é e se os resultados desse estudo combinam com você.

No vídeo vocês podem conferir uma “palhinha” da minha performance de “Adele”.

Como evitar as revistas predatórias?

Publicado em 14/08/2020 por Luzia Kikuchi

O post de hoje tem o objetivo de informar sobre essa questão, para evitar que você aceite convites “aparentemente” atraentes para “turbinar” o seu currículo acadêmico.

Bem, primeiro vou explicar o que são essas revistas predatórias. Para isso, vou descrever o seu modus operandi para tentar ilustrar. Obviamente, pode haver alguma leve diferença entre um caso e outro, mas vou relatar a minha experiência.

Essas empresas ou editoras entram em contato ativamente com o autor citando um artigo de congresso ou até mesmo de uma dissertação ou tese recém defendida, e fazem um convite para publicar o seu trabalho em formato de livro ou para ser o capítulo de uma coletânea de outros trabalhos sobre o mesmo tema. A abordagem é bastante convincente, pois elogiam o trabalho, dizem que por ser um material relevante foi previamente “selecionado” pelos editores e por isso te convidam para publicação. Pedem para entrar em contato caso tenha interesse.

Você, inocente, lisonjeado(a) com os elogios (tudo que um aluno de pós-graduação gostaria de receber depois de árduos anos para desenvolver esse trabalho), vê a oportunidade de ter uma publicação (quem não quer ter um livro de sua autoria, não é mesmo?) e resolve responder ao e-mail para saber os passos necessários para a publicação.

Então, o suposto editor diz que “como o seu trabalho já está aprovado” pelo corpo editorial, ele não passará por nenhuma revisão de conteúdo. Informa que por não receber subsídios do governo, devido ao corte de custos, o próprio autor precisa arcar com a despesa de publicação, que gira em torno de 300 a 500 reais. Tal custo inclui apenas a diagramação do livro, sem revisão técnica (gramatical ou ortográfica) e alguns exemplares para divulgação, além do serviço de emissão do DOI* e da indexação do trabalho nos principais buscadores. Esse valor pode até subir um pouco de acordo com o número de exemplares físicos que poderão ser impressos ou para produção de banners de divulgação.

*DOI sigla para Digital Object Identifier (Identificador de Objeto Digital) é um número único produzido para identificar documentos de origem digital. Ele serve para evitar a utilização ou distribuição indevida do conteúdo desse documento e também para que seja facilmente localizado, caso o documento não esteja mais disponível no local onde foi armazenado inicialmente. Algo muito comum na internet.

Quanto ao número de cópias físicas, varia de editora para editora. Algumas prometem alguns exemplares incluso no pacote, para que o autor possa fazer a divulgação, ou dizem que o livro será disponibilizado na Amazon ou livrarias conhecidas do mercado com encomenda sob demanda (há impressão quando o cliente comprar o livro), mas também incentivam a disponibilização do e-book gratuitamente no site da editora… Eles argumentam que é para incentivar a divulgação e que os materiais que estão disponíveis gratuitamente são apenas aqueles que foram custeados com dinheiro público. Porém, isso não é totalmente verdade, pois quando questionados sobre alguns autores também estarem disponibilizando gratuitamente o mesmo material das livrarias, dizem que é por opção do autor, para fins de divulgação.

E por que ela passa a ser considerada como uma possível revista predatória? Porque a principal fonte de renda dessas editoras é a taxa cobrada dos autores para diagramar o trabalho e não há nenhum trabalho de validação científica. É praticamente um “drive-thru”: aceite o convite, pague a taxa e estará publicado.

O maior problema disso não é o serviço em si prestado. Não tem nenhum problema se você, autor ou autora, ciente de que está lidando com um serviço de editoração, optar por transformar seu trabalho acadêmico em um livro. Conheço muitas pessoas que fazem isso. Mas, nesse caso, o contrato já está acordado para tal. O problema dessas supostas “editoras” é que elas prometem mais do que realmente podem cumprir. Convencem um autor a publicar afirmando que são revistas ou livros classificados no estrato Qualis, que são indexadas nos buscadores de periódicos de relevância e que publicar o seu trabalho com elas é a garantia de ter o seu trabalho divulgado e reconhecido por mais pessoas.

E para quem está na área acadêmica, sabe o quanto uma publicação é valiosa para conquistar a vaga em um concurso público numa universidade, ou até mesmo para progressão, se já ocupa uma vaga numa instituição. E para ter mais chances de reconhecimento, nada melhor do que ter o seu trabalho divulgado e citado por mais pessoas.

Então, ludibriado de que se trata de uma revista com rigores metodológicos científicos sérios, publica o seu trabalho, que pode até ser relevante, mas, por estar publicado em um periódico que não atende as normas mínimas de rigor científico, acabará perdendo credibilidade. Já pensou em perder todo o seu trabalho científico por conta disso? O problema que, uma vez publicado, você não poderá publicar o mesmo texto em outro periódico. E é por isso que precisamos ficar atentos a isso.

E como fazer para não cair em uma “cilada” dessas? Vou citar as principais:

  1. Não aceite convites para publicação de um trabalho já publicado

Antes de tudo, preciso esclarecer que quando você publica um trabalho em um congresso ou evento similar, ele fica disponível nos anais desse evento. Tecnicamente, o evento detém o direito autoral de publicação do seu trabalho, possuindo inclusive um ISSN próprio. Então, no mínimo, é estranho quando chega um convite de uma pessoa, que você nunca viu na sua vida, por e-mail, dizendo para publicar esse mesmo trabalho sem fazer nenhuma alteração relevante em seu conteúdo. Desconfie. Nenhuma revista científica séria pede esse tipo de conduta. 

A única exceção em relação ao convite é quando um editor te convida a publicar o trabalho sobre alguma temática específica. Mas, nesse caso, eles pedem que seja enviado um texto original e não a republicação do mesmo trabalho já apresentado em algum evento. E ainda assim, o seu trabalho passará por uma revisão editorial. A não ser que você já seja alguém muito renomado na área, o que eu acho pouco provável para quem está lendo sobre este assunto. Além disso, eles não farão o convite para você ter que pagar para publicar, não acha?

Já no caso de dissertações e teses, tecnicamente, você pode torná-lo um livro se você quiser. Mas, aqui, merece um novo cuidado que menciono na dica 2.

  1. Tenha clareza do tipo de contrato que você estabelecerá com a editora

Se um dia você receber um convite para transformar a sua dissertação ou tese em um livro, primeiro verifique as credenciais dessa editora. Quanto tempo ela tem no mercado, qual tipo de publicação ela costuma fazer, quem é a sua equipe editorial, entre outras.

E o mais importante é o contrato que estabelecerá com ela: se você terá que bancar com os custos de diagramação, se existe um revisor de texto, como funcionará a cessão de direitos autorais, como será a divulgação do material (se será gratuito ou pago) e como será o contrato da porcentagem que receberá pelas vendas, quando houver. Lembre-se que, se não houver vendas, provavelmente, você não receberá nenhuma comissão. Então avalie se isso realmente vale a pena.

E para verificar a credibilidade da equipe editorial, passamos para a próxima dica.

  1. Verifique a comissão editorial dessa revista

Antes de tudo, desconfie de revistas que não têm a relação da equipe científica que avalia os trabalhos. Mesmo quando eles indicam o corpo científico, algumas ainda usam indevidamente o nome desses acadêmicos. Portanto, na dúvida, pegue alguns nomes e tente acessar o currículo Lattes desses pesquisadores para verificar se eles indicam que fazem parte dessa revista na sessão “Membro de corpo editorial”.

Participar como revisor ou editor de um periódico é algo relevante para o currículo. Por isso, na maioria dos casos, se a revista for legítima, os pesquisadores mencionarão que fazem parte dela. A não ser que seja um pesquisador com uma carreira muito consolidada (leia-se muito famoso) ou que pouco atualiza o Lattes. Esta última possibilidade é mais compatível com pesquisadores sêniores que não são muito adeptos das tecnologias. Mas, normalmente, para quem continua ativo na universidade, é muito difícil não atualizar o Lattes. Então observe quanto tempo essa pessoa atua na área e o que vem fazendo nos últimos anos.

  1. Verifique se essa revista já não foi citada numa dessas listas

Esta dica vale principalmente para os periódicos internacionais, pois não existe ainda uma suposta lista com possíveis revistas predatórias brasileiras.

E, para isso, existem dois sites que podem ser consultados: o Beall’s List** ou Preda Qualis. Este último foi desenvolvido em parceria entre a USP, UNESP e UFABC, baseando-se na Beall’s List, que filtrou algumas revistas citadas como possíveis predatórias, mas que constava na DOAJ. O DOAJ normalmente verifica as credenciais dos periódicos antes de indexar em seu acervo, portanto, é mais uma forma de verificar a credibilidade da publicação.

O Beall’s list, apesar de ter sido uma iniciativa muito importante para os pesquisadores, ainda enfrenta muitas controvérsias em relação à metodologia adotada pelo seu criador Jeffrey Beall, professor e bibliotecário da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, para classificá-las como possíveis revistas predatórias. Por isso, alguns dizem para que essa lista seja usada com certa cautela.

**Essa informação sobre o site Beall’s List foi obtida através do perfil do instagram @the_science_etal administrado pela Vanessa de Oliveira e pelo Sebastião Silva Júnior, ambos doutores na área de Ciências Biomédicas. O instagram deles têm diversas dicas relacionadas a área acadêmica de especialização dos autores e também para quem pretende fazer pós-graduação no exterior.

E, por último, é usar o famoso provérbio: “Quando a esmola é demais, o santo desconfia”. Publicar um artigo científico em uma revista séria, que tenha relevância científica não é tão rápida e simples. A revisão por pares garante a idoneidade e seriedade da pesquisa que foi feita e isso leva tempo. Além disso, revistas prestigiadas costumam receber muitas propostas para publicação, o que também explica o processo não ser tão imediato. Se uma editora não esclarece esses passos ou simplifica muito o seu processo de publicação, desconfie.

Compartilhe este post ou a versão que explico em vídeo com mais pessoas.

Como aprender a estudar?

Publicado em 07/08/2020 por Luzia Kikuchi

Estava navegando pela internet, mais precisamente em um portal chamado Psych Central que reúne diversos artigos relacionados à área de Psicologia e Saúde Mental coordenado pelo Dr. John. M. Grohol, Doutor em Psicologia, que também é fundador desse projeto há 25 anos.

E entre os diversos artigos que estavam por lá, me deparei com um que chamou a minha atenção com o título: “Por que muitos acadêmicos ignoram estratégias de estudo?” que foi baseado em uma publicação científica do periódico Frontiers in Psychology. Não é um artigo recente, trata-se de um texto postado em meados de 2018.

O artigo é bem curto, mas, em linhas gerais, eles problematizam por que poucos estudantes usam as técnicas de autorregulação dos estudos, que consiste em se testar, planejar e praticar o que aprendeu.

Segundo pesquisas, eles apontam que um dos motivos dos estudantes não aplicarem essa técnica com frequência é por imaginar que sejam muito trabalhosas ou pouco efetivas. Dessa forma, preferem continuar a estudar da forma que estão mais acostumados, mesmo não tendo resultados promissores em alguns casos. Segundo o texto, eles acreditam que essa crença poderia ser mudada se houvessem mais pesquisas evidenciando a eficácia de certos tipos de estudo.

Porém, em um dos posts deste blog, eu já havia apresentado uma extensa pesquisa liderada por Dr. John Dunlosky da Universidade de Kent, em 2013, que mostrou algumas evidências de que certas práticas populares de estudo não têm tanta eficácia para o aprendizado quanto muitos estudantes imaginam. 

Na minha visão, acredito que talvez até exista um volume considerável de pesquisas sobre técnicas mais eficazes na aprendizagem, mas ela ainda é pouco popularizada entre os estudantes e, principalmente, entre os próprios professores nas escolas e universidades.

Talvez tenha sido com esse intuito que o Professor Paul Penn, da Universidade de East London, resolveu publicar um livro que reúne diversas pesquisas na área de Psicologia Cognitiva para divulgar as técnicas mais eficazes de estudo. O livro foi lançado no início de 2020 e está disponível tanto em formato físico quanto em e-book nas livrarias como Amazon e Google Livros. Você pode conferir uma amostra nesses dois links. Achei muito interessante a iniciativa, já que ainda há uma carência nesse tipo de divulgação científica e também na formação específica para professores. As dicas que dou a seguir são inspiradas nesse livro.

Para constatar esse último fato, é simples: tente lembrar de algum professor ou professora que te ensinou “como estudar”? (Atenção: não é a mesma coisa de ensinar um conteúdo, é a técnica por si só de como absorver melhor o conhecimento.) 

Se você é um dos poucos felizardos ou uma das poucas felizardas a ter aprendido isso, sinta-se como uma pessoa privilegiada, pois eu mesma não aprendi no início. Tudo que me disseram é que o importante era se “concentrar”, sentando a “nádega na cadeira”, ler e reler a aula e, principalmente, decorar o máximo que puder de informações passadas durante a aula. No caso de exercícios, faça o maior número que puder. Quanto mais estudar, melhor. Simples assim.

Parte dessas estratégias não está totalmente errada. Porém, é irracional ou até ilusório imaginar que os estudantes terão todo o tempo do mundo para estudar todas as disciplinas do início ao fim, no menor detalhe. E o pior de tudo é que, mesmo com tanto esforço, não se resultará exatamente em bons resultados em exames, que é a parte mais triste de tudo, na minha opinião.

É possível que algumas dicas pareçam ser muito semelhantes a outras que já dei em posts anteriores, mas isso é para reforçar as ideias com outras palavras (até que você finalmente pare de perder tempo com técnicas de estudo pouco eficazes! rs).

Dica 1: Utilize a metacognição

Quando você planeja uma ação, organiza e executa de acordo com os conhecimentos que têm sobre um determinado assunto, está utilizando a metacognição. Em termos de aprendizagem, poderíamos dizer que seria a capacidade de avaliar qual seria a melhor forma de aprender um determinado conteúdo. 

Porém, isso tem um preço. Se você não tiver uma boa forma de avaliar o que exatamente sabe, de forma objetiva, pode ser “traído(a)” pela sua própria cognição. Esse efeito é conhecido como Dunning-Kruger que se resume a ter uma distorção do que realmente conhece sobre um assunto. Podemos dizer que ele é um “oposto” da síndrome do impostor que citei neste post. Uma metáfora para esses dois efeitos seria o otimista irremediável para o Dunning-Kruger e o pessimista sem saída da síndrome do impostor.

Para evitar esse tipo de padrão psicológico, que pode dar uma falsa impressão de aprendizado, segundo Paul Penn, é importante saber parafrasear um conteúdo que está aprendendo. Por exemplo, se você está lendo um texto, é importante saber explicar com suas próprias palavras o que está estudando. Para isso você pode tentar escrever um texto ou contar para alguém de forma que ela consiga entender o conteúdo a partir da sua explicação.

E por falar em texto, agora vamos para a segunda dica que é uma das mais polêmicas em relação às técnicas de estudo.

Dica 2: Ler as anotações de aula não é efetivo

Quando eu falei para você escrever um texto sobre o conteúdo que está estudando, isso significa que você deve elaborar com suas próprias palavras. Não é copiando as mesmas palavras de outra pessoa e montando um texto que mais parece uma “colcha de retalhos”.

Então, partindo desse princípio, já te digo de antemão: copiar as anotações de aula não tem nenhum efeito no aprendizado. A única coisa que parece ter mais efeito é quando você faz anotações durante a aula, mas parafraseando já com as suas ideias. Mas, leve em consideração que prestar atenção no que o professor está dizendo, tentar entendê-lo e fazer perguntas são as formas mais eficazes de aprendizagem.

Eu já disse anteriormente que também perdi anos de minha vida de estudos obcecada em deixar um caderno impecável, copiando tudo que o professor escrevia na lousa. Salvo os casos em que o professor pede explicitamente para copiá-lo, não faz muito sentido você fazer isso enquanto ele explica, pois você não vai prestar atenção e também não terá nenhum benefício das suas anotações no futuro.

Então pare de perder tempo copiando a lousa!

Dica 3: Escreva de forma direta e simples

Quando você domina um assunto, é capaz de explicar de uma forma direta e simples. Isso vale para o texto que escreve. Então, no momento que for escrever o resumo com suas próprias palavras, quanto menos “rodeios” você fizer para expressar suas ideias, melhor a sua compreensão sobre o conteúdo.

Prof. Mario Sergio Cortella, em seu livro ilustrado pelo famoso cartunista Mauricio de Sousa: “Vamos Pensar + um pouco”, que traz ideias de Filosofia para crianças, citou um trecho do escritor francês Victor Hugo (1802-1855) que resume bastante essa ideia:

“Quando não somos inteligíveis, não somos inteligentes”

Isso significa que a melhor forma de saber se uma pessoa é inteligente é quando ela se preocupa em explicar de forma que seja compreensível para a outra pessoa. Logo, Cortella nos alerta que a crença de que “falar difícil” é sinal de inteligência, não passa de uma balela. Se uma pessoa realmente é competente em algum assunto, ela deve ser capaz de explicar de diversas formas diferentes e de forma simples. Isso não é somente defendido pelo Cortella, mas também pelo físico Richard Feynman, ganhador do prêmio Nobel de Física de 1965. O teórico ficou bastante indignado com o que viu numa universidade brasileira, na década de 50, quando lecionou durante um ano em uma universidade do Rio de Janeiro. 

O depoimento de Feynman sobre o ensino de Física no Brasil é um trecho de seu livro “Deve ser brincadeira, Sr. Feynman”, publicado na década de 80. É bastante perturbador, principalmente, para quem trabalha com Educação. Se quiser ler um trecho, podem consultar neste link aqui ou também pode ler um artigo escrito pelo Prof. Ildeu de Castro Moreira da UFRJ, que fez uma retomada das colocações de Feynman e também de um panorama do que mudou ou não mudou no ensino de Física no Brasil.

Dica 4: aprenda a trabalhar em equipe

Como já diz um aforismo popular, “união faz a força”, tente tirar proveito dos estudos em grupo. Mas isso não significa apenas se juntar lado a lado e cada um se ocupar com o seu próprio material de estudo. O ideal é fazer uma avaliação por pares, ou seja, avaliar um ao outro sobre o que está estudando. 

Para que esse tipo de estudo tenha sucesso, é importante combinar com clareza quais serão os aspectos avaliados, tanto em forma de críticas quanto ao sistema de pontuação, caso houver. Isso ajuda a não criar mal-entendidos e até mesmo criar uma “saia justa” na amizade.

Dica 5: saiba fazer apresentações claras

Essa dica é muito importante para quem vai apresentar seminários ou trabalhos em congressos, TCC, etc. Se você quer saber o quanto domina sobre um determinado assunto, fazer uma apresentação sucinta e clara é uma das peças-chave para se testar.

Esse é um aspecto que eu sempre “peguei no pé” dos meus alunos que apresentavam seminários. É muito comum ver uma cópia literal de trechos de um texto utilizado como referência, quando não era um slide inteiro cheio de texto e, o pior: quando os apresentadores liam os slides e ficava de costas para a plateia… É receita certa para o público dormir durante a sua apresentação.

Quando você se apresenta, precisa contar uma história. Os slides devem ser apenas um referencial para mostrar uma palavra-chave, uma frase importante ou desenhos e diagramas. Carmine Gallo escreveu um livro chamado “Faça como o Steve Jobs”. O saudoso fundador da Apple é considerado como um dos melhores palestrantes que já existiu na área de Marketing e o livro apresenta as melhores práticas que ele usava em suas apresentações de produto de sua empresa.

Obviamente, já vi pessoas com exímias habilidades de decorar textos imensos em sua apresentação sem ter que se apoiar nos slides. Porém, o que eu notei é que, mesmo essas pessoas, escrevem um texto com suas próprias palavras. A única diferença é que, em vez de improvisar, ela consegue memorizar todas as palavras de seu texto. O que não deixa de invalidar o processo de sintetizar e elaborar o seu conhecimento.

Então, será que este texto conseguiu te convencer a estudar melhor da próxima vez? 

No vídeo eu conto essas 5 dicas com encenações bastante humoradas (eu tentei pelo menos).