Como aprender Geometria Plana? 

Publicado em 31/07/2020 por Luzia Kikuchi

Quando eu era estudante, lembro de ter estudado o conteúdo de Geometria Plana pela primeira vez na 7ª ou 8ª série, que seria o equivalente aos anos finais do Ensino Fundamental de hoje 8º ou 9º ano. Antes disso, havia uma disciplina chamada Desenho Geométrico ou D.G. que se focava apenas em construções geométricas com régua e compasso.

Como eu disse neste post aqui, sou uma pessoa que tem muita dificuldade para desenhar. Ou seja, não me dou muito bem em qualquer tipo de atividade que requer um pouco mais de precisão e habilidade manual. E, nesse caso, usar régua e compasso, principalmente este último instrumento, sempre foi uma tortura!

Essa versão de compasso já é mais moderna que a clássica com ponta de grafite.

O que mais me tirava do sério com o compasso era justamente deixá-lo funcional. Não sei se há compassos mais modernos hoje em dia, mas, naquela época, era necessário preparar o seu compasso. Para isso, você deve deixar o grafite exatamente na altura da agulha, lixá-la para fazer o chanfro* para só depois começar a fazer as suas construções. Sem contar as vezes que era necessário andar com uma chave de fenda para, vez ou outra, apertar o parafuso que vai afrouxando com o tempo. 

*Quem não faz a mínima ideia do que eu estou dizendo, encontrei este vídeo aqui que explica como funciona.

Com o tempo, a disciplina de Desenho Geométrico foi ficando cada vez mais rara de se ver nas escolas. Eu mesma só lecionei essa disciplina bem no começo da minha carreira de professora há pouco mais de 10 anos. Conheço colegas da faculdade que nunca viram essa disciplina no ensino básico.

Acredito que uma das razões do assunto Desenho Geométrico ter ficado em desuso é por não haver cobrança de questões envolvendo construções geométricas nos exames de vestibular nos dias de hoje (salvo provas de habilidades específicas). Desse modo, o ensino de Geometria passou a focar prioritariamente em problemas de cálculo de áreas, superfícies e volumes.

Outra razão parece ter sido a deficiência na formação de professores para lecionar esse conteúdo. Poucos cursos de licenciatura contemplam disciplinas que ensinem a manusear os instrumentos de desenho, exceto alunos que realizam aulas com profissionais específicos da área de desenho como linguagem arquitetônica ou em Arte. 

Um trabalho que tem problematizado essa questão da importância de retomar o currículo de desenho nas escolas é da Regina Kopke (2007), professora da Universidade Federal de Juiz de Fora, que apresentou no Graphica de 2007 (International Conference on Graphics Engineering for Arts and Design) um trabalho intitulado “O retorno do desenho nas escolas: revendo o discutido, 13 anos depois!”.

E se consultarmos a atual BNCC (Base Nacional Comum Curricular), existem as seguintes menções sobre o ensino de Matemática com régua e compasso. Isso parece indicar a importância de reintroduzir o ensino de desenho geométrico nas escolas.

(EF07MA22) Construir circunferências, utilizando compasso, reconhecê-las como lugar geométrico e utilizá-las para fazer composições artísticas e resolver problemas que envolvam objetos equidistantes. 

(EF07MA24) Construir triângulos, usando régua e compasso, reconhecer a condição de existência do triângulo quanto à medida dos lados e verificar que a soma das medidas dos ângulos internos de um triângulo é 180°. 

(EF08MA16) Descrever, por escrito e por meio de um fluxograma, um algoritmo para a construção de um hexágono regular de qualquer área, a partir da medida do ângulo central e da utilização de esquadros e compasso.

(EF09MA15) Descrever, por escrito e por meio de um fluxograma, um algoritmo para a construção de um polígono regular cuja medida do lado é conhecida, utilizando régua e compasso, como também softwares

Só para deixar mais claro, o código entre parênteses (EFXXMAYY) significa o seguinte:

EF: Ensino Fundamental

XX: Ano correspondente ao ciclo do Ensino Fundamental para que tais habilidades possam ser desenvolvidas.

MA: Matemática

YY: Número sequencial da habilidade dentro daquele ano.

Veja que essas habilidades priorizam a construção com régua e compasso, mas, na última habilidade (EF09MA15), há uma menção sobre a utilização de softwares para construção de uma figura geométrica.

É importante dominar o uso dos instrumentos de desenho, porém, com a utilização dos softwares, esse trabalho pode ser bastante facilitado, principalmente, para compreender as propriedades de construção de uma figura geométrica que se torna fundamental para resolver problemas envolvendo o conteúdo de Geometria.

Talvez, para quem é da área de Matemática, já tenha ouvido falar em alguns exemplos de softwares de geometria dinâmica como o GeogebraiGeom ou o Cabri Géometrè. Eles são excelentes ferramentas para construção de figuras geométricas e, consequentemente, ajudar no aprendizado dessa disciplina. No entanto, eles são como um “quadro branco”, isto é, você só conseguirá tirar proveito se souber um pouco de Geometria. Isso significa que só a ferramenta por si só não te ajuda a aprender algum conteúdo do zero. Para isso, seria necessário receber um plano didático ou alguém para acompanhar as atividades a serem implementadas.

Como alternativa para isso, recomendo três aplicativos: Pythagorea (no plano triangular e quadriculado) e o Euclidea. Todos são da mesma empresa chamada Horis International Limited baseada em Hong Kong. Esses três aplicativos estão disponíveis tanto para plataforma Android quanto para o iOS. No site oficial, você também pode conferir outros aplicativos da empresa.

Todos os aplicativos possuem um tutorial passo a passo de como jogar e desenhar determinadas construções geométricas tornando uma experiência bastante intuitiva e agradável para os iniciantes.

No vídeo você pode conferir a resenha que fiz sobre cada um desses aplicativos. A experiência será baseada na plataforma Android, então, pode ser que uma ou outra funcionalidade seja diferente da versão para o iPhone ou iPad.

Para terminar, se você quiser ver demonstrações mais formais de algumas construções apresentadas no Euclidea, tem uma dissertação de mestrado defendida em 2017 pelo João Rodrigues de Sousa Filho, na Universidade Federal do Ceará, que apresenta uma análise de algumas fases do jogo.

Bem, essas foram as três dicas para aprender Geometria de uma forma mais agradável. Conte nos comentários o que você achou desses aplicativos!

Como deixar de procrastinar? O método se/então 

Publicado em 24/07/2020 por Luzia Kikuchi

Que atire a primeira pedra quem não deixou alguma tarefa para depois em algum momento de sua vida.

Eu já falei, em alguns posts anteriores, como manter a motivação nos estudos, como fazer uma agenda de organização e sobre o método pomodoro adaptado para aprender a ter foco. No entanto, mesmo a pessoa que vos fala aqui, que sabe e pratica a todo momento essas dicas, também sofre de momentos de procrastinação. Então fui pesquisar o que as pesquisas em psicologia comportamental ou social têm a dizer sobre o assunto.

Tentei procurar inicialmente um artigo que envolvesse a questão da “procrastinação” e a sua relação com a “aprendizagem”. Nessa busca encontrei uma revisão sistemática de literatura feita por Correia e Moura Júnior (2017) que, embora não trabalhem diretamente na área de Psicologia, fizeram um levantamento sistemático interessante dos trabalhos publicados de 2005 a 2015, pesquisados através do portal de periódicos da CAPES.

Segundo dados levantados por esse artigo, há algumas características em comum entre os indivíduos que não procrastinam:

  1. Adotam objetivos desafiadores de aprendizagem (HOWELL e WATSON, 2007);
  2. Escolhem regular a aprendizagem entre momentos de procrastinação e estado de flow* (KIM e SEO, 2013);
  3. Indivíduos com alto estado de consciência ou moral e que usam estratégias de autorregulação para evitar a procrastinação (WATSON, 2001).

*flow ou fluxo é um termo usado pelo psicólogo Csikszentmihalyi para definir um estado de alta concentração de um indivíduo para realizar uma determinada tarefa. É um estado muito descrito pelas pessoas como “fiquei tão concentrado(a) nessa tarefa que o tempo passou e nem percebi”.

Além disso, o tipo de valor social e cultural também está diretamente ligado ao fato de uma pessoa procrastinar ou não. Por exemplo, na questão social, pessoas que têm um baixo índice de pertencimento a um grupo tendem mais a procrastinar. Já na questão cultural, existem os valores modernos e os pós-modernos. Quem valoriza o aspecto pós-moderno, que é a tolerância, apreciação de contatos sociais e autorrealização, tende também a procrastinar mais.

Lembrando que essa análise está sendo feita sob o ponto de vista da procrastinação acadêmica, ou seja, deixar de estudar um conteúdo mais difícil ou deixar de escrever seus textos acadêmicos como artigos, dissertações e teses, no caso de pós-graduandos, por exemplo.

Dentro da perspectiva social e cognitiva, pelo menos no ambiente acadêmico, também é levantada a falta de suporte no ambiente de aprendizagem. É muito comum que acadêmicos sofram de estresse, ansiedade, exaustão, além do perfeccionismo exacerbado. Porém, raramente há um suporte emocional nas universidades para que esses indivíduos possam lidar melhor com esses sofrimentos. Além disso, no ambiente acadêmico, a demonstração desses tipos de dificuldades ainda é vista como um tabu e sinalização de fraqueza moral, o que corrobora ainda mais para o ciclo de aflição dos estudantes.

Mas, parece que há algumas estratégias para tentar diminuir o processo de procrastinação, de acordo com uma pesquisa feita por Gollwitzer e Sheeran (2006) na qual eles compararam o índice de sucesso para completar uma tarefa de uma pessoa que implementa o método se/então ou aquela que coloca apenas uma meta genérica.

A grande diferença entre o método da implementação e o objetivo genérico é que, no primeiro, o indivíduo consegue observar o passo a passo necessário para chegar a um objetivo final. Desse modo, quanto mais meticuloso na elaboração de todos os se/então para chegar no seu objetivo, menos chances de procrastinar. Isso se explica pelo fato do indivíduo saber a complexidade de cada passo da tarefa e avaliar todos os níveis de dificuldade que deverão ser enfrentados e assim ser capaz de estipular com mais clareza o tempo necessário para atingir o objetivo final.

Já no caso do objetivo genérico, o grande problema dele seria a imprecisão de prever os passos necessários para atingi-lo. Dessa forma, ao notar que há mais dificuldades do que as inicialmente previstas, há uma tendência a procrastinação que pode gerar em dois resultados: um trabalho feito de forma medíocre ou a desistência.

Em posts passados, já comentei sobre a falácia do planejamento, apresentado no livro do Kahneman e também do esforço cognitivo necessário para o cérebro manter-se concentrado em tarefas desafiadoras. Assim, o que apresento nas dicas a seguir é como se fosse um reforço dessas ideias, mas complementando com uma nova metodologia.

1º passo: Como?

Neste passo, você deve pensar nos passos necessários para atingir o seu objetivo. A dica fundamental é formar várias sentenças curtas que definem cada passo.

Por exemplo, se a minha meta é publicar um artigo científico, poderia enumerar algumas atividades relacionadas a isso a partir da pergunta: “Como vou publicar um artigo científico?”

  1. Definir um trabalho que quero apresentar;
  2. Definir onde quero publicar: congresso ou revista;
  3. Definir como é a estrutura de um artigo científico;
  4. Listar as referências que preciso utilizar;
  5. Definir quanto eu consigo escrever por dia.

Esses são os meus passos, pode ser que você precise de mais ou de menos, de acordo com a sua experiência. Por isso, é importante que cada pessoa elabore o seu plano. Não adianta copiar o plano de outra pessoa, pois isso é um caminho certo para a procrastinação.

Agora, vamos passar para o segundo passo para realizar cada uma das atividades enumeradas anteriormente.

2º passo: Onde?

Para cada atividade que mencionei no passo anterior, existe alguma necessidade de procurar a informação adequada. Então, vamos responder cada uma delas indicando onde vou fazer isso.

  1. Onde eu defino o trabalho que quero apresentar? 

Resposta: Meus arquivos.

  1. Onde quero publicar: congresso ou revista?

Resposta: Procurar os eventos no site da SBEM ou no Qualis Periódicos.

  1. Onde encontrar como é a estrutura de um artigo científico?

Resposta: Aqui no meu blog! (rs)

  1. Onde listar as referências que preciso utilizar?

Resposta: Fazer um levantamento bibliográfico ou a partir uma revisão sistemática no Periódicos da Capes ou no DOAJ.

  1. Onde defino quanto eu consigo escrever por dia?

Resposta: Posso olhar para a minha agenda e ver quais dias e horários tenho disponíveis para adequar o volume de trabalho que tenho que fazer para me dedicar ao artigo.

3º passo: Quando?

Depois de responder o “Como” e “Onde?” temos que definir quando vamos fazer cada um dos itens do passo anterior.

Veja que aqui depende muito da disponibilidade de cada pessoa. Então, vou colocar o tempo baseado na experiência que eu tenho para realizar essas tarefas mencionadas para você ter apenas uma ideia. Vá ajustando conforme necessário.

  1. Consultar os meus arquivos.

Tempo necessário: Um dia* ou menos.

  1. Procurar os eventos no site da SBEM ou no Qualis Periódicos.

Tempo necessário: Um a dois dias (dependendo da quantidade que preciso analisar)

  1. Ler no meu blog a estrutura principal de um artigo científico.

Tempo necessário: Uma hora (consultar e tentar compreender a estrutura principal).

  1. Fazer um levantamento bibliográfico ou partir uma revisão sistemática no Periódicos da Capes ou no DOAJ.

Tempo necessário: Três dias se for um levantamento geral e uma semana se for uma revisão sistemática com leitura só dos resumos.

  1. Definir a minha agenda e ver quais dias e horários tenho disponíveis para adequar o volume de trabalho que tenho que fazer para me dedicar ao artigo.

Tempo necessário: Uma hora a duas.

* A definição para um dia de trabalho seria de um horário comercial: 8 horas com pausas pequenas para lanche e ir ao banheiro. Então para uma semana de trabalho, seriam 8 horas multiplicadas por 7 dias. Aqui fica a seu critério se considera os finais de semana.

E a estratégia chave para você poder elaborar cada passo é sempre fazer a pergunta: “Se ….. então ….”. Isso facilita o encadeamento lógico das suas ideias.

No vídeo a seguir, apresentei essas dicas de forma resumida utilizando um exemplo não acadêmico. Compartilhe com alguém que esteja precisando!

E para ajudar na organização, fiz um plano de objetivos para você apenas preencher com as dicas que dei aqui.

Para finalizar, achei interessante que as dicas apresentadas pela Nathalia Arcuri sobre “Os 5 Qs do consumo consciente” no seu livro “Me Poupe! 10 passos para nunca mais faltar dinheiro no seu bolso” é bem similar a este método. Isso significa que as dicas para evitar o gasto por impulso também podem ser aplicadas para cumprir objetivos de forma satisfatória.

Eu espero que essas dicas te ajudem a ser mais bem-sucedido ou sucedida em suas tarefas!

Como decidir publicar a sua pesquisa

Publicado em 17/07/2020 por Luzia Kikuchi

Alguma vez na vida você já sofreu com a síndrome do impostor? Trata-se de um padrão psicológico (não é uma doença) no qual as pessoas duvidam constantemente de suas capacidades e de seus méritos atingidos, ainda que elas tenham sido validadas por agentes externos (ex.: prêmios, títulos, pessoas relevantes da área, etc.).

E, curiosamente, essa síndrome é mais comum em pessoas de nível de capacitação mais alto que a média da população, tais como pós-graduandos, pessoas que ocupam cargos de liderança, etc. Quanto à frequência, parece atingir tanto homens quanto mulheres, mas parece haver uma incidência mais alta em mulheres, devido ao próprio contexto histórico e sociocultural delas.

E quais os sentimentos mais comuns na síndrome do impostor?

Por mais que a pessoa tenha estudado e se dedicado tempo suficiente sobre um assunto, a sensação é quase que inversamente proporcional: quanto mais se estuda, menos parece que sabe. Quando esse sentimento não é controlado de forma saudável, pode incapacitar a pessoa de contribuir com o seu conhecimento que poderiam impactar positivamente na sua área, no seu trabalho ou na sua família.

Segundo os pesquisadores da Universidade Estadual da Georgia, Joe Langford e Pauline Rose Clance* esse sentimento é mais frequente em pessoas que são introvertidas e que buscam uma constante aprovação das pessoas. Além disso, parece ser mais comum em pessoas que vêm de contextos familiares com pouco amparo emocional. Esse estudo foi publicado em 1993, na revista Psychotherapy e você pode acessar o texto na íntegra no site oficial da pesquisadora (em inglês).

* Pauline Clance e Suzzane Imes foram as primeiras a cunhar o termo Síndrome do Impostor, em 1978.

Bom, e por que eu comecei este texto contextualizando um pouco a síndrome do impostor para falar sobre o assunto deste post? Porque é exatamente essa sensação que fica em nossa mente quando estamos muito tempo dedicados numa pesquisa. Quanto mais nos aprofundamos em um assunto, maior é a sensação de “impotência” e de que é necessário estudar muito mais para tentar entendê-lo melhor. Dessa forma, qualquer coisa que pensemos em divulgar ou publicar parece ser irrelevante para o “mar de conhecimento” que existe por aí.

Por isso, vou apresentar alguns questionamentos principais para você poder avaliar se o que está pesquisando merece ou não ser publicado.

Questão 1: Você já fez um levantamento bibliográfico do assunto em questão?

Se você já fez uma breve revisão ou levantamento bibliográfico, provavelmente, deve ter uma noção de como o assunto que você está pesquisando está sendo tratado nas principais literaturas.

E dentro do assunto que pesquisou, sempre tem algo novo a ser incorporado. Por exemplo, se você encontrou uma pesquisa que foi aplicada numa cidade X, nada te impede de tentar comparar os resultados aplicando em uma cidade Y, por exemplo. Dessa forma, sua pesquisa já pode acrescentar mais dados sobre uma nova perspectiva. E isso já é algo que mereceria ser comunicado.

E se, eventualmente, você perceber que não existe ainda trabalhos significativos sobre o assunto que está pesquisando. Será que ele merece ser comunicado? Assim passamos para a questão 2.

Questão 2: Um tema ou assunto inexistente na literatura é relevante?

Bom, aqui já vem uma parte complicada e que exige um pouco mais de experiência. Muitas vezes, podemos ter duas reações ao fazer um levantamento bibliográfico e notar que não há muita publicação referente ao assunto que estamos pesquisando:

  1. Pensar que não pesquisou direito todas as bases;
  2. Pensar que não é relevante.

A primeira reação pode ser genuína, pois alguns assuntos podem não aparecer no idioma que está pesquisando. Por isso, se você tiver facilidade com outros idiomas, faça também a busca em outras bases.

Para busca de artigos em outros idiomas, uma base interessante para se usar é o DOAJ (Directory of Open Access Journal) que é um diretório que busca os periódicos e artigos de acesso livre em mais de 133 países.

Suponhamos que tenha procurado em outras bases e outros idiomas que tem acesso e ainda não encontrou nada a respeito do seu assunto. Talvez agora você tenha certeza da segunda reação: de que não é relevante.

Crédito da imagem: Tookapic

Mas, antes de você se desesperar e sair jogando o seu trabalho para o alto, por que não pensar em organizar suas ideias para que possa ser validada pelos seus pares?

Questão 3: Você tem medo de receber críticas?

Uma coisa que se deve ter em mente quando se faz pesquisa é de que não fazemos isso para agradar alguém ou ser agradado. Então, se você tem algum assunto que acredita ser importante de ser discutido pela sua área e tem alguma perspectiva nova a ser apresentada, é sempre válido comunicar isso.

Muitas vezes, o nosso medo de divulgar é justamente de receber críticas do nosso trabalho. Principalmente, quando elas são negativas. Por isso que comecei este texto falando sobre a síndrome do impostor, que é talvez o responsável por esse medo que nos “imobiliza” de publicar os nossos trabalhos e achar que não temos material relevante para apresentar. Isso nada mais é do que o medo irracional de poder ser julgado como incompetente. E esse medo tem um preço: você pode demorar demais para divulgar algo que já poderia contribuir de forma significativa para a sua área.

Questão 4: Você acredita que a ciência se faz sozinha?

Existem pessoas que pensam que a ciência só avança quando supostamente uma única pessoa ou um “gênio” tem uma grande ideia que ninguém havia pensando antes. Na verdade, as ideias novas só podem surgir se você as compartilha com outras pessoas. E mesmo que não seja necessariamente um contato pessoal, alguma fonte de informação inspiram as pessoas, tais como: livros, obras de arte e artigos. 

Um ponto importante a se dizer é que a ciência só pode ser considerada como tal quando ela pode ser refutada. Ou seja, nada é uma verdade absoluta. A validade de alguma teoria só é aceita quando muitos cientistas entram em um consenso, pois chegam em resultados semelhantes até chegar a uma nova que contradiz tudo. E é assim que a ciência avança. Thomas Kuhn, um físico e filósofo da ciência, foi um dos pioneiros a trazer o conceito de Revolução Científica que envolve tais conceitos do que é a ciência. Não vou me aprofundar muito nesse assunto neste post, para não desviar do assunto. Talvez em algum momento eu trate sobre ele isoladamente.

Se você quiser ler um pouco sobre as ideias principais de Thomas Kuhn, tem um artigo da Profª. Dra. Fernanda Ostermann da UFRGS, que ajuda a entender um pouco sobre ele.

Portanto, se a sua pesquisa traz uma contribuição que ajuda a entender um pouquinho mais sobre um assunto, isso já é algo que deveria ser compartilhado com a comunidade científica.

Questão 5: Você seguiu corretamente o método científico?

Em dois posts anteriores, eu apresentei um passo a passo de como escrever um projeto de pesquisa e um artigo científico. Então, se você consegue apresentar os dados da sua pesquisa com uma fundamentação teórica e uma justificativa depois de ter feito toda sua pesquisa de levantamento bibliográfico, ele pode ser um material em potencial para ser publicado.

Por isso, meu caro leitor ou minha cara leitora, tente pensar nessas cinco questões que apresentei anteriormente. Com esses questionamentos, provavelmente, você conseguirá decidir se sua pesquisa merece ou não ser publicada.

Agora, se você está com dúvida de onde é melhor publicar sua pesquisa, você pode consultar este post para ter uma ideia.

Deixe nos comentários o que mais te imobiliza na hora de publicar a sua pesquisa.

Assista também a este vídeo numa versão resumida e compartilhar com mais pessoas essas ideias:

Como escolher congressos e eventos acadêmicos

Publicado em 10/07/2020 por Luzia Kikuchi

Com o mundo interconectado que vivemos hoje, é muito difícil não ficar sabendo de eventos para participar. Seja qual for a profissão que você vá seguir no futuro, é muito importante manter-se atualizado sobre as discussões, descobertas e práticas da sua área. E, para isso, normalmente são organizados eventos voltados para os profissionais específicos de uma área.

Na *área médica é muito comum os profissionais apresentarem suas pesquisas em congressos e também de participar nesses eventos para ouvir os colegas. Além dos médicos, os *pesquisadores das universidades também comumente participam de eventos temáticos de alguma área.

* não quero dizer que profissionais de outra área não participam de eventos, apenas cito essas principais, pois é o que comumente ouço como rotina de trabalho do que nas outras profissões.

E quando você chega na pós-graduação, a participação nesses tipos de evento torna-se cada vez mais obrigatória, por duas razões:

  1. Para divulgar sua pesquisa e conhecer outras, além de ser avaliado por seus pares;
  2. Se você é bolsista de alguma agência de fomento, é um dos requisitos obrigatórios para renovar anualmente a sua bolsa de estudo.

Nesse segundo caso, é preciso trabalhar estrategicamente os prazos de aceite de cada evento para que dê tempo de apresentar o certificado de participação nos relatórios anuais. Mas, o fato de ser importante não te obriga a participar simplesmente de todos que surgem na área, pois, se inscrever em todo evento que aparece na sua frente, praticamente, pode-se viver só disso, já que opções não faltam. No entanto, não temos tempo e nem orçamento suficiente para participar de todos eles. 

Então o que fazer?

Crédito da imagem: Andrea Piacquadio

Se posso listar uma das coisas que eu mais participei durante a minha formação é de eventos acadêmicos. Então, vou contar um pouco da minha experiência nesse quesito, apresentando alguns passos essenciais que podem te ajudar a planejar estrategicamente sua participação nesses eventos.

Passo 1: trabalhe como voluntário

Para você entender primeiro a dinâmica de um evento acadêmico, sugiro que participe como ouvinte em algum que seja na sua instituição. Tem muitos deles que são gratuitos e basta se inscrever.

Eu comecei a participar de eventos acadêmicos na graduação, só como ouvinte inicialmente. Em particular, uma experiência que me marcou foi quando me voluntariei para fazer parte da equipe de organização da Semana de Licenciatura em Matemática no Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (não me lembro exatamente do ano, mas acredito que seja 2007). Veja a foto da época:

Eu junto com colegas do curso e os professores do IME-USP.
Crédito da imagem: acervo pessoal.

A vantagem que recebemos pelo nosso trabalho voluntário foi ganhar a inscrição para o evento e assim poder fazer alguns minicursos gratuitamente. Se você está com orçamento curto, mas tiver tempo e disposição para doar, essa é uma ótima opção para começar a aprender como funciona os bastidores desses eventos e também a oportunidade de fazer cursos gratuitamente, quando for o caso. Obviamente, os critérios para seleção dos voluntários podem variar de evento para evento, mas não custa nada procurar o responsável pela organização para saber de mais detalhes.

Passo 2: participe de um evento regional ou nacional

Depois que você já tiver uma ideia de como funciona um evento local, está na hora de pensar em participar de algum evento regional ou nacional. A escolha vai depender da sua disposição e orçamento. Porém, muitos desses eventos costumam ser sediados em cidades diferentes. Se você mora na capital do estado ou uma cidade com população grande, a chance de um evento desse porte vir para o seu local é maior. Então é bom ficar atento ou atenta para saber se não está acontecendo algum caso como esse.

Por que escolher os eventos regionais e nacionais como prioridade?

Se você está começando a sua pesquisa, como iniciação científica ou um mestrado, e nunca enviou algum trabalho para ser avaliado por outras pessoas, pode ser que escrever um artigo já seja muito assustador no começo. Além disso, se for apresentar esse trabalho, vai ser mais um desafio e tanto. Imagine fazer tudo isso em um idioma diferente da sua língua materna e que tenha a participação de especialistas na área. É muita coisa para uma primeira vez que pode causar o famoso “bloqueio” ou “auto sabotagem”.

Por isso, idealmente, comece em eventos menores para se acostumar e depois vá progredindo para outros maiores.

No meu caso, o primeiro evento onde apresentei um trabalho foi durante o mestrado no XIV Encontro Brasileiro de Estudantes de Pós-Graduação em Educação Matemática (EBRAPEM), que foi em Campo Grande no Mato Grosso do Sul, em 2010. Embora o evento tenha sido nacional, o fato de ser um encontro entre estudantes amenizou um pouco a “pressão” na hora da apresentação, pois você acaba falando com pessoas que também estão no mesmo nível que você. Segue alguns registros da época:

Foto na frente do lago da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS).
Crédito da foto: Acervo pessoal.

Minha amiga, Wanessa Trevizan, apresentando o trabalho.
Crédito da foto: Acervo pessoal.

E onde eu consulto esses eventos?

Normalmente, dentro de cada área de pesquisa, há uma sociedade que reúne pessoas de uma área de estudo. Então, a minha recomendação é que você procure o portal da sociedade que pertence à sua área. Por exemplo, no meu caso, eu faço parte da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM) e esse portal reúne alguns eventos regionais e nacionais mais importantes dessa área de pesquisa, como você pode ver na figura 1:

Figura 1 – Consulte o menu eventos do portal da SBEM.
Crédito da imagem: sbembrasil.org.br

Na figura 1, perceba que há um menu nesse portal chamado “Eventos” que é onde encontrará a relação de acordo com a característica. É possível notar também que há um link para eventos internacionais e afins, que vou explicar no passo 3.

Passo 3: intercale com eventos internacionais

Na época que eu fazia mestrado, tive a oportunidade de participar de um evento na Argentina, numa cidade chamada Tandil, que fica a 400 km da capital federal, Buenos Aires. É uma cidade pacata do interior cuja fama se concentra em formações rochosas de formatos curiosos, como essa da foto:

Formação rochosa em Tandil
Crédito da imagem: acervo pessoal.

Eu fugindo da pedra como o Indiana Jones.
Crédito da imagem: Acervo pessoal.

Por ser um evento latino americano, foram aceitos trabalhos em espanhol, português e francês (não me pergunte o porquê deste último, mas talvez seja o fato de alguns pesquisadores franceses estarem presentes no evento – como o Dr. Gérard Vergnaud. Embora tenhamos também o fato de termos um país na América do Sul que é colônia francesa). 

Resolvi enviar meu trabalho para esse evento como forma de progredir em mais um “nível de desafio” em eventos e também por ter uma barreira menor para o idioma, pois, além do espanhol ser relativamente compreensível para falantes da língua portuguesa, a apresentação também era permitida ser feita em português.

Outro ponto positivo de participar de eventos na América Latina é que o custo da viagem é menor, por não ser muito longe, e também o câmbio da moeda também nos favorece na maioria das vezes. No caso da Argentina, em especial nos dias de hoje, o real brasileiro está bem valorizado frente ao peso argentino.

E, assim como o caso dos eventos regionais e nacionais, os internacionais também podem acontecer em alguma cidade que seja próxima de você, não sendo necessário sair do país. Então, vale a pena acompanhar pelo portal das sociedades e prestar atenção em quando será o próximo.

E quando o seu orçamento permitir, também se desafie em participar de um evento em outro continente, como na América do Norte ou Europa (por que não a Ásia ou Oceania também? rs). No meu caso, o primeiro evento desse porte foi em Madrid, na Espanha em 2017, para participar do VIII Congreso Iberoamericano de Educación Matemática (CIBEM). Nessa época eu já estava no doutorado e também era bolsista da CAPES.

Eu e minha colega Andressa Trevizan em Madrid.
Crédito da foto: acervo pessoal.

Esse evento foi muito importante, pois lá tive a oportunidade de receber comentários de pesquisadores da Universidade de Barcelona e um dos trabalhos apresentados virou um artigo publicado no periódico Cadernos de Pesquisa da Fundação Carlos Chagas (FCC). Obviamente, o artigo do periódico foi mais aprofundado em comparação com à versão que foi apresentada no evento. E é neste ponto que quero explicar o próximo passo.

Passo 4: utilize o congresso para receber dicas para o seu trabalho

Quando você está fazendo uma pesquisa, é muito difícil receber feedbacks ou comentários e sugestões constantes sobre o seu trabalho. Muitas vezes, você e o orientador são os únicos que estarão imersos nele (em alguns casos, nem o orientador… Mas, eu deixo essa discussão para um outro post).

Então, quando você envia uma proposta de trabalho para algum evento, o primeiro crivo que você passa é dos avaliadores. Como na maioria dos casos essa avaliação é feita no sistema duplo-cego, isto é, nem você e nem o avaliador sabe de quem se trata, o seu trabalho será avaliado apenas pelo mérito da contribuição à área. E isso é uma ótima forma de se testar para saber se está no caminho certo na sua pesquisa. 

É melhor se testar assim do que ter uma surpresa desagradável no exame de qualificação, ou pior, na defesa final da sua dissertação ou tese.

Além disso, a não ser que o seu trabalho esteja realmente impecável, normalmente nessas avaliações, você receberá algumas sugestões em como melhorá-lo. E, muitas vezes, isso é mais valioso do que o evento em si. Se além disso, você ter o trabalho aceito, melhor ainda! Pois assim terá mais uma chance de receber dicas e sugestões de pessoas que encontrará no evento.

Engana-se quem pensa que eu sempre tive meus trabalhos aceitos em eventos. Pelo contrário, já tive alguns trabalhos rejeitados. Um deles foi pelo fato do tipo do trabalho não estar enquadrado na discussão do evento e um outro foi por falta de profundidade na discussão, que foi causada por falta de tempo para escrever o trabalho (fiquei sabendo do evento cinco dias antes do término e tive que escrever às pressas em inglês!). Por isso, é importante se planejar. Não adianta escrever um trabalho correndo se você não tem nada pronto ainda.

Mas, como eu disse anteriormente, com esses feedbacks consegui melhorá-lo e esses dois trabalhos anteriormente rejeitados foram aceitos em eventos posteriores. Inclusive, o segundo artigo que tentei escrever em inglês, também foi publicado nesse idioma no Cadernos de Pesquisa da FCC como tradução do artigo aceito em português. Porém, dessa vez fiz com mais calma e também enviei para revisão de um especialista depois*.

* Se você quiser saber das dicas para escrever um artigo em inglês, pode acessar um post anterior.

Passo 5: aproveite a viagem do congresso para enriquecimento cultural

Não há oportunidade melhor para viajar do que esses congressos e eventos. Muitas vezes, quando planejamos uma viagem de férias, acabamos escolhendo apenas os lugares populares e deixamos de conhecer outros locais que podem ser tão interessantes quanto.

Por isso, o que eu tenho feito para otimizar o orçamento é programar a viagem de férias perto desses eventos. Assim, você vai guardando o dinheiro aos poucos e une o útil ao agradável.

Aproveite que todo evento sempre reserva um tempo de atividade cultural e curta esses momentos conhecendo a cidade, a cultura ou a paisagem local. Tenha certeza de que esse enriquecimento vai te trazer muitos frutos em termos de criatividade e pensamento flexível no futuro. Além disso, conhecer outras culturas nos ajuda a ser menos julgadores e mais empáticos quando nos deparamos com diferenças. Eu com certeza não seria a mesma pessoa hoje, se eu não tivesse passado por essas experiências no passado.

Deixe nos comentários quais outras dicas você conhece sobre eventos e congressos que eu não citei aqui. Também me conte alguma experiência inusitada que aconteceu em algum dos eventos com você. (Eu tenho algumas, mas deixo para contar numa próxima oportunidade!)

E se você quiser ver ou enviar uma versão resumida desse post para alguém, segue o vídeo: